quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Nosso Papel na Sociedade


Nosso papel na Sociedade
Muita melhoria ocorreu nos últimos séculos, que elevou o tamanho da população do planeta drasticamente e também a expectativa de vida daqueles que aqui habitam. A mensagem a seguir diz respeito, de forma concisa, ao ambiente no qual vivemos e o nosso papel nele.
Dados demográficos recentes, do Brasil, calculam uma sociedade com cerca de 200 milhões de habitantes, feminina e jovem predominantemente. Porém ainda acusam um elevado analfabetismo e um subúrbio urbano concentrado, de baixa renda e desamparado pelo Estado. Não obstante, o país apresenta índices ruins no tocante à segurança pública. Aparecemos entre os primeiros do mundo quando o assunto é consumo de drogas e tamanho da população carcerária.
Considerando a população absoluta, tenho ciência da minha privilegiada formação acadêmica e das responsabilidades que esta posição social recai sobre mim. Não há uma cobrança explícita no cumprimento do nosso papel social, tampouco nos é ensinado na escola a respeito. Porém havemos de desenvolver o senso de altruidade que nos cabe naturalmente. Afinal creio que nascemos para viver em sociedade – de preferência uma sociedade justa e igual para todos.
Acredito na possibilidade de melhoria social. Acredito também na capacidade da união e da congregação para atingirmos um objetivo maior no nosso âmbito: a humanidade. Assim deve ser nas instituições educativas, sociais e, decerto, nos ambientes de trabalho. Há de ser praticar o pensamento coletivista em todas as esferas possíveis, pois estão todas entrelaçadas no nosso dia a dia.
Muita discussão é feita entre intelectuais acerca da tendência individualista que os últimos séculos imprimiram na sociedade (as melhorias tiveram suas consequências). Há uma corrente que flui neste sentido – no sentido de questionar a atual situação e das possíveis melhorias da sociedade – e agrega líderes religiosos, políticos e filosóficos que se destacam internacionalmente. Fala-se sobre a retomada do personalismo, do papel da internet e das redes sociais. Arrisca-se supor uma nova revolução social adiante.
O assunto é atual e de interesse de todos. Pois, apesar da modernidade ter impulsionado a qualidade de vida de uma parte, outra parte da humanidade permanece marginalizada. A tendência individualista pode ser uma das causas dos seguintes efeitos: agravamento da desigualdade social, consumo desenfreado, extinção de milhares espécies, esgotamento de recursos naturais, aquecimento global etc. Basta verificar, dos três milhões de anos de existência da nossa espécie, os estragos causados nos últimos dois séculos. 
Por fim, encerrando este texto, mas mantendo a discussão em aberto, confirmo minha participação nesta empreitada de melhoria continuada que a sociedade demanda. Desde o núcleo de convívio diário, seja familiar, profissional, seja ao me deparar com uma pessoa qualquer. Hei de exercitar a prática do coletivismo. Hei de fortalecer o pensamento de colaboração e altruidade dentre os meus semelhantes, acima de qualquer preconceito ou barreira moral que possam me impedir de uma ação reparadora e construtiva. Afinal, vivemos num ambiente de caráter constantemente evolutivo, a melhoria é continuada. Everyone is invited here! Save the date! Save the mankind!





terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Fui-me embora de Pasargadae



Millôr, você ameaçou se exilar. Fui-me e hei de não voltar.

(A Werther, onde quer que Goethe o tenha levado)


Gosto de pôr meus valores à prova e assim evoluir meu raciocínio. Desculpem-me pelo meu jeito provocativo. Se alguém tomar algo como injúria, foi apenas um mal entendido. A comunicação é falha aqui mais por limitação do canal que do emissor ou dos receptores e por isso o meu esforço em transmitir a mensagem com clareza.

- Serei ora seu superego, ora seu chefe. Chame-me de consciência, de moralidade, de disciplina etc.
- Chamar-te-ei de Deus se assim preferir. Quero aprender contigo e compartilhar minha opinião.
- Pode falar. Vive numa democracia e há de ser livre, igual, fraterno. Irei te ouvir.

Num mundo neurótico com prazos e metas, onde uma sistemática vigilância é lançada sobre a vida, o ser que era uma pessoa se transforma num indivíduo, ser castrado, adestrado e egoísta. A velocidade desumana a qual somos submetidos impede que as informações sejam digeridas e absorvidas, tornando-nos instrumentos maquinais integrados a um jogo doentio de troca e vantagens. Jogo que no meio dele vale mudar as regras, quem está à frente se torna imune e ganha quem acumula mais.

- Você não pode pagar, mas financiamos seu produto e iremos vigiá-lo para sua própria segurança.
- Mas eu não preciso do produto e prefiro não pagar por este serviço de rastreio.
- Tudo bem. Sendo assim, seus riscos aumentaram, você está mais vulnerável e seu débito é maior.

É uma forma de pensar que ainda está forte a de alguns, portanto predomina. Mas não quer dizer que seja a única forma, muito menos que seja a melhor. Mas façamos nossa parte: ouço tudo e respeito todos. Tento manter esse comportamento mesmo quando porventura não concordo, mas nem sempre o superego garante a minha razão.
O stress crônico do nosso sistema supernervoso lança cortisol em excesso, levando à degeneração neural, ansiedade, depressão, vícios e mais stress, num ciclo patológico.

- Já entregou sua meta individual? Atingiu sua nota individual? Conquistou seu título individual?
- Meus planos são outros, minhas preocupações são outras, as conquistas estão em outro lugar!
- Tudo bem. Você será excluído do mercado. Terá sua reputação denegrida. Será marginalizado.

Maldito senso comum contemporâneo de universalização de valores, que extingue as identidades locais em nome da bendita globalização. Pois o que é válido num contexto ou adequado a um povo há de ser estendido sem critério a todos? A pergunta parece esdrúxula ao indivíduo Homo economicus. A resposta parece óbvia a minha pessoa. Há questionamento parecido no tocante à ciência. A velocidade da informação é estonteante e as ambições são crescentes, pois deve-se alcançar a maior distância num menor tempo, além da capacidade humana. Esse excesso é esgotante e, na impossibilidade de recomposição emocional, desabamos sobre muletas, vícios ou outras válvulas autodestrutivas de escape.

- Esse ano batemos novamente o recorde de faturamento. Somos o maior da região.
- Gosto daqui, fiz com vontade e me orgulho do resultado. Então teremos um descanso, finalmente?
- Você terá mais trabalho. Ano que vem, quero ainda mais! Vamos ampliar a margem, as fronteiras!
  
Repensar alguns conceitos e ver outras formas de realidade, acho interessante, por exemplo: a reciclagem de ideias, a reinvenção de si, o recomeço imprevisível, a contemplação da frugalidade, o desafio pessoal de superação, o desnovelamento de amarras morais, o questionamento de paradigmas e da episteme. Sim, um exercício subjetivo e sóbrio a fim de fortalecer o nosso ânimo enquanto vontade de potência. Sem ópios do tipo etanólico, canabinoide ou xamãnico. Devemos agradecer pelos sentidos que Ele nos proveu e fruir a vida na sua plenitude, sem fuga a artifícios ou panaceias. Havemos de comemorar a alegria e havemos de sofrer as tristezas: isto é liberdade.

- Trabalhou tanto que parece exausto. Parabéns! Vamos comemorar com bebidas, fumos, comidas?
- Prefiro me retirar na natureza. Vou ao campo; caminhar a ermo, olhar o vazio, ouvir o silencio.
- Indivíduo estranho e antissocial! Não está inserido na realidade! Incapaz de suportar a rotina!

Os deleites mundanos que nos dão prazer só existem nesta condição porque somos seres suscetíveis e não há de insistir na recusa dos primeiros nem de cultivar a hipocrisia. O apego dependerá da intensidade de reação e da exposição aos diversos prazeres disponíveis, e definirá nossas preferências idiossincráticas. O dano potencial de um prazer qualquer está relacionado à nossa exposição ao último. A minha recompensa por alcaloides no além-Pasargadae está restrita ao chocolate e ao café puro e sem açúcar, ultimamente.

- Você me parece cansado. Vá ao médico para receber tratamento. Exercita-te! Beba algo! Relaxa!
- Obrigado. Tenho um bom livro. Vou passar um café fresco, sentar numa sombra e ler.
- Mas você lê todos os dias! E esse seu livro vai te servir para quê? Café, pode-se beber toda hora!

Passei um bom tempo me formando pra fazer parte de um esquema o qual não me identifico. Apesar de ter sido bem sucedido e bem remunerado, optei por um árduo recomeço. E para retribuir à sociedade da forma que estou hoje preciso de amadurecimento teórico e espiritual. São necessárias outras teorias, sobretudo no âmbito metafísico, filosófico, nas ciências humanas, da dialética à práxis.

- Parabéns pela formatura! Terá que praticar o que aprendeu e retribuir os estudos à sociedade.
- Consegui o emprego. Fui promovido. Consegui um bom salário. Paguei meus impostos. E agora?
- Era isso. Trabalhe sem pestanejar e, talvez, consiga a aposentadoria no fim da vida. Agradeça!

Nunca estudei tanto e nunca me senti tão leve, mesmo que sem um tostão num bolso que já viveu cheio. Mas a vida passa rápido e ela não se resume em bens ou patrimônio pra mim.
Me libertei de alguns apegos fúteis ao meu ver e sinto que hoje estou no meu caminho, rumo a morrer em paz e ter a liberdade absoluta por fim. E morrerei um dia levando comigo algo que ninguém pode me tirar: minha personalidade e meu conhecimento. O resto que este mundo pode me oferecer já não me interessa. Até lá, quero viver bem, entender melhor os outros e me fazer entendido.

- Para um homem ser bem sucedido, ele há de acumular propriedades e deixar herança para família.
- Quanto mais eu me ocupar nesta direção, mais desigualdade gerarei, menos liberdade terei.
- Falta-te ânimo. Recomendo-te que procure orientação religiosa e psicológica, urgentemente!

Sim, pretendo receber, mas essa ação não envolve transação financeira e, além, para receber devemos estar com as mãos vazias e abertas: sem segurar, sem ameaçar.
Aos que ficam, bom proveito, pois sei que nesta realidade daí, ter sucesso dá muito trabalho e requer muita disciplina. Diria Sócrates: "Partirei e digo aos que ficam que não sei quem de nós tomou o melhor rumo, só os Deuses sabem."
Antecipo-me à tua óbvia opinião acerca dessa despedida: sou insuportável. E só há quem me aguenta porque ainda não me conhecem suficientemente. Minha palavra final de altruidade e benevolência é Foda-se!

- Chega!
- Fudeu...
- Você está demitido!



segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Resenha: O Discurso, de Rousseau



No Discurso de Rousseau o homem é bom por natureza e os costumes do último degeneram à medida que desenvolve o gosto pelos estudos e pelas letras. O homem natural é bom, e no isolamento é igual a todo homem. É a partir do momento que resolve viver em sociedade que as desigualdades aparecem.
O Discurso é dividido em três partes: Dedicatória, Prefácio e o Discurso.
Dedicatória: O Discurso foi publicado em 1750, período em que Rousseau ainda contava com grande prestígio na sociedade - pois é a partir da publicação desta obra que começa a formar-se "o grande complô" do qual Rousseau sentia-se vítima. A louvação a seu pai e uma exaltação do papel das mulheres dentro da sociedade completam o contido na dedicatória.
Prefácio: Apresenta-se o método utilizado para desenvolver o pensamento que serviu de resposta à pergunta da Academia: a priori tem-se que descobrir o que é o homem; "Como conhecer, pois, a origem da desigualdade entre os homens, a não ser começando por conhecer o próprio homem?". Para chegar a tal resposta é necessário investigar o homem natural e, neste ponto, surge um paradoxo: para se alcançar o homem natural é necessário despir-se do conhecimento do homem civilizado, ou seja, a característica humana da razão ofusca o entendimento do homem natural. Rousseau chega à conclusão de que mesmo antes da razão, dois princípios básicos regem a alma humana: um é o sentimento de autopreservação e o outro é o sentimento de comiseração.
O discurso: O discurso parte do discernimento de duas desigualdades: a desigualdade natural ou física e a desigualdade moral ou política.
Partindo de sua teoria dos dois princípios básicos que regem a alma humana, Rousseau descreve o homem natural como um ser solitário, possuidor de um instinto de autopreservação, dotado de sentimento de compaixão por outros de sua espécie, e possuindo a razão apenas potencialmente. O sentimento de comiseração pode ser visto também como instinto ou um mecanismo de autopreservação da espécie.
Rousseau não vê na vida do homem natural, motivos que o levem à vida em sociedade. O homem natural vive o presente, é robusto e bem organizado, apesar de não possuir habilidades específicas, pode aprendê-las todas, é inocente não possuindo noções do bem e do mal e possui duas características que o distingue dos outros animais que são a liberdade e a capacidade de se aperfeiçoar.
Rousseau então abandona a desigualdade natural por não ser o cerne de seu livro e aprofunda numa discussão sobre a desigualdade moral.
O homem natural tinha como única preocupação sua subsistência, contudo à medida que as dificuldades do meio se apresentavam ele era obrigado a superá-las adquirindo, portanto novos conhecimentos. O homem natural aprendeu a pescar, caçar e por vezes a associar-se a outros homens, tanto para defender-se como para caçar, mas estas associações eram sempre aleatórias. Neste ponto é que surge a primeira "revolução": a construção de abrigos. O surgimento das casas faz com que o homem natural permaneça mais tempo em um mesmo lugar e na companhia de seus companheiros, nascendo assim as famílias e com elas os sentimentos de amor conjugal e o amor paterno. Ao passo que as pessoas passam a viver por mais tempo juntas começa a surgir formas de linguagem. Uma noção precária de propriedade passa a fazer parte deste novo universo. Por motivos de segurança, hábitos alimentares e influência do clima, as famílias passam a conviver próximas surgindo as primeiras comunidades.
Para Rousseau este era o estágio no qual o homem deveria ter parado. Vivendo em sociedade, com poucas necessidades e com condições de atendê-las o homem teria tudo para ser feliz. Mas a perfectibilidade não o permitiu. A pequena comunidade sentada a volta da fogueira cantando e dançando começa a se enxergar. Os homens passam a se compararem: o melhor caçador, o mais forte, o mais bonito, o mais hábil começa a se destacar, e o ser e o parecer tornam-se diferentes. Os homens agrupados ainda sem nenhuma lei ou líder têm como único juiz a sua própria consciência. E cada qual sendo juiz a sua maneira tem inicio o estado de guerra de todos contra todos. Paralelamente surge a agricultura e a metalurgia, evento ao qual Rousseau nomeia de "a grande Revolução". Com estes eventos surge a divisão do trabalho, a noção de propriedade se enraíza e passa a existir homens ricos e homens pobres, que dependeram doravante uns dos outros. É dentro desta situação caótica que os homens resolveram estabelecer leis para se protegerem; uns para protegerem suas propriedades e outros para se protegerem das arbitrariedades dos mais poderosos.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

A GENEALOGIA DA BURGUESIA MODERNA




"The idols were not from the beginning- but were invented through the vain ambition of men, because the latter are short-lived. For a father afflicted with untimely mourning, when he had made an image of his child Adonis early taken away, honored him as a god, who was a dead man, and delivered to those that were under him ceremonies and sacrifices." The Book of Wisdom

"Deixai os mortos enterrar seus mortos." S. Mat. C. 8, vers. 21 e 22.





A GENEALOGIA DA BURGUESIA MODERNA: UMA BREVE VISÃO AUTOTÉLICA 

A fome, no século XV, atingia e impelia a sociedade europeia a uma iminência de colapso. Não eram as dores da fome somente que assolavam o campesinato e a plebe urbana, mas também das doenças decorrentes do acúmulo de resíduos no solo e na água. Todas as cidades europeias, de tanto acúmulo de matéria em decomposição, fediam insuportavelmente. Exceto pelo clero e realeza, o cidadão europeu tinha poucas chances de prosperar nesse ambiente. Tais chances estavam ao alcance da burguesia ascendente: ourives; confeccionistas de tecido fino; marceneiros de madeiras nobres; perfumistas; tabeliões; advogados; relojoeiros; costureiros de couro, peruca e luvas finas; banqueiros; agiotas; farmacêuticos boticários; médicos cirurgiões; fundidores; mestres de obras; donos de caravanas e de embarcações etc. Destes últimos, quanto maior era o acúmulo de bens, maior eram a influência política e o título de nobreza obtido. Os nobres, por fim, patrocinaram as grandes empreitadas da transição à modernidade.

Transformações sociais sucederam a partir do século XVI e o poder antes exercido pelo sacerdotismo monárquico foi superado pelo Direito natural oligárquico que emanou da classe social burguesa ascendente. O espetáculo do poder, outrora centralizado, passou a ter espaço na sociedade burguesa através de jogos simbólicos baseados numa essência comercial de troca: votos por benfeitorias. A Formação dos Estados novos europeus impulsionou a revisão da jurisprudência do Direito clássico no sentido de uma ciência aplicada à razão e promoveu a reforma da Escolástica tomista em favor da laicização do Direito. A divindade deixou de ser representada pela Coroa monárquica para dar espaço ao antropocentrismo, enquanto que o acúmulo insaciável de riqueza passou a ter a anuência do protestantismo, o que justificava moralmente as empreitadas capitalistas da alta burguesia: a metalurgia viabilizando a pólvora, a prensa tipográfica viabilizando os livros, o monopólio comercial, a busca por novos mercados consumidores e a fuga de meeiros e controles alfandegários viabilizando as navegações.

Milênios atrás, não antes do grande dilúvio, livros sagrados registravam a história dos povos: Shu-King, Vedas, O livro dos Iorubás, Mahabharata, Zaratustra, The Book of Wisdom, Homero etc. A partir de Javeh, entidade deística antropomórfica e exclusiva, a humanidade foi transformada numa nova forma de moralidade, ainda vigente, que Nietzsche denunciou. Ora, pois, a vontade de liberdade que a burguesia mercantilista tanto almejava repercutiu na religião, inevitável e estrategicamente, e resultou numa reforma. Na época, a renovação de valores e as ondas migratórias eram intensas na Europa: cristãos, novos cristãos, judeus, protestantes, muçulmanos. Ainda hoje a religião se mantém como pretexto para derramamento de sangue, infelizmente. Um fato contemporâneo relacionado é a intimidade entre o nazismo e Lutero. Ver "Sobre os judeus e suas mentiras" de Lutero e "Mein Kampf" de Hitler.

O pacto de associação foi proposto e o contrato foi celebrado entre o Estado e os cidadãos, a partir das aspirações burguesas e num caráter civilizador Rousseniano. No século XVII, novos cristãos que haviam feito grandes riquezas, afugentados da perseguição dos conservadores, muitos destes prosperaram na península ibérica e migraram para países como Inglaterra, França e Holanda. Suíça e Alemanha implantavam um protestantismo com caráter racista, o catolicismo nestes locais permanecia tão forte que voltou contra si próprio (M. FOUCAULT). A Europa passava por um frenesi cultural, por uma reestruturação social e por uma onda de perseguição religiosa. No século XVIII, dentre os acontecimentos, hão de ser destacados o terremoto de Lisboa (cuja dispendiosa reconstrução repercutiu na independência do Brasil), o iluminismo (que culminou na revolução francesa e independência dos EUA) e a revolução industrial na Inglaterra.

A Alemanha recebeu os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade com bons olhos, na tentativa de superar os resquícios do feudalismo e do despotismo político. O pensamento no fim do século XVIII apontava para um desejo de libertar o homem como sujeito autônomo capaz de guiar seu próprio desenvolvimento (G. HEGEL). Culminou com o idealismo alemão que apoiava, por exemplo, a supremacia de Napoleão enquanto libertador e unificador. O contexto da ascensão burguesa focava Napoleão sob uma luz de esperança que proveria as oportunidades de uma vida justa e próspera: a luz divina encarnada na ordem universal das ideias espinozianas. Era inconcebível pra quem lucrava perceber estes eventos de um ponto de vista sombrio, na forma de uma empreitada burguesa leviatânica.

A vontade de alfabetização, em virtude de um conhecimento mais acessível, favoreceu o desenvolvimento da imprensa e da propaganda. A classe burguesa estava no limiar da sua emancipação política, munida de capital, no comando da máquina imperialista e com o monopólio do comércio globalizado. O amplo acesso à informação seria uma forma maior de liberdade? Ou pelo contrário, seria uma forma de obediência e subjugação aos biopoderes da episteme? A satisfação de uma posição social rígida e de consumo de insumos locais foi substituída por uma vontade insaciável de ascensão social, de consumo de produtos estrangeiros, de posse de mais propriedades (K. MARX). Há de se surpreender com tantas mudanças resultantes da máquina a carvão: indústria têxtil padronizando as vestimentas, malhas ferroviárias encurtando distâncias, emissão crescente de carbono no ar.

Cidades-Repúblicas independentes sob o poder da burguesia moderna, produzindo bens e comercializando; do outro lado o Estado tributário e as demais classes remanescentes. O mercado consumidor se expandira com a globalização, a industrialização aperfeiçoara os meios de produção e criara um espírito de desejo consumista. Já não se buscava o ouro ultramar, mas criava-se dinheiro via instituições financeiras, através da manipulação econômica do valor de uso e do valor de troca (P.J. PROUDHON). Foi um passo para a transferência do poder político da nobreza monárquica para a burguesia moderna. A ciência, o Direito, as artes e a família se tornaram trabalhadores assalariados, meros instrumentos maquinais pagos pela alta burguesia (K. MARX; F. ENGELS). Nasce o proletariado, que só subsiste enquanto tem trabalho e, portanto, depende do desenvolvimento do capital.



Sim, houve um salto colossal no desenvolvimento de novas tecnologias. A velocidade e a frequência de ocorrência dos eventos parecem ter aumentado. A química  clorou a água, propiciou uma medicina moderna e novos materiais: o homem se multiplicou e passou a viver mais. A física propiciou um novo entendimento do tempo-espaço e novas formas de energia: pisamos na superfície lunar e desenvolvemos a potência destruidora das reações solares. Porém, a burguesia parece ter se tornado a própria vilã de suas empreitadas: estava tão forte que também voltou contra si própria. As relações sociais e as forças produtivas se tornaram muito perigosas, pondo em risco a ordem e a propriedade burguesa. O que fazer então? Preparar crises cíclicas cada vez mais amplas, a fim de exterminar parte da força produtiva, conquistar novos mercados e aprimorar a exploração dos antigos. O proletariado absorve essa violência e sustenta o sistema numa forma de servidão voluntária de La Boétie. Workingmen of all countries, unite!

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Um animal no meio do caminho

"Quando tudo estiver acabado: escrever sem preocupação de ordem. Tudo o que me passar pela cabeça." Albert Camus.

"Sou o intervalo entre o meu desejo e aquilo que os desejos dos outros fizeram de mim." Fernando Pessoa.


            Se eu pudesse dependeria somente Dele, mas somos vulneráveis e dependemos do coletivo. Não à toa, a criança é o mais despreparado e indefeso dos filhotes animais. Somos feitos animais racionais para e pela sociedade. A razão prevalece sobre o instinto ou foi justo o medo que nos levou à sociedade? Por que o medo? A Liberdade conquistada após o desmame, após a tonificação dos músculos, propriocepção, equilíbrio e o aprendizado da fala nos possibilita escolher: podemos ir ali ou acolá, podemos dizer sim ou não. Esta liberdade dá medo.
Nossa liberdade não passa de uma ilusão aprisionada dentro da caverna platônica, refém do Leviatã Hobbesiano, cercada dentro da propriedade Lockeana, arrebanhada pela moral nietzschiana ou ainda sob o biopoder foucaultiano. Temos a liberdade para escolher entre a opção correta e a segunda opção. No entanto, há uma tendência de optarmos no embalo do contexto cronotópico: a nossa liberdade está tacitamente comprometida, limitada às nossas experiências e aos riscos que avaliamos.     
Estamos presos dentro da nossa própria conduta. Presos a uma caminhada matinal, a um cardápio restrito, a uma rotina de trabalho, a uma gravata apertada, a vícios diversos e a prazeres fúteis. Ou ainda pior, presos à condição da impossibilidade dessas opções: a privação é uma forma perversa de aprisionamento, seja qual for o motivo, desejada ou não.
Haveremos de pensar nas pessoas que cultuam o corpo, seja por venerar a morada da alma ou por recompensar a baixa intelectualidade, e naqueles que se abstêm dos prazeres mundanos na busca por uma elevação espiritual. Ai dessas pessoas que dedicam a vida obstinadamente a um fim e não admiram a beleza do caminho percorrido. Haveremos de apreciar a travessia mais do que a chegada. Haveremos de vislumbrar a subida ao invés do cume. Haveremos de fruir a vida apesar da inevitável morte. Dados os exemplos, refiro-me a esse tipo de miopia que ofusca o nosso papel diante da sociedade. Há uma tendência à abstração da nossa responsabilidade no tocante à vida na polis, pois essa é fustigada pela busca insaciável do acúmulo. Acumular o que senão boas lembranças?
Essa mesma cegueira nos impede de assumir um compromisso com a comunidade. Por quê? Pois deveríamos participar da construção e da manutenção das instituições públicas, a fim de garantir o bom funcionamento da sociedade. Ao invés, assumimos um papel passivo de esperar a intervenção do Estado, seja na educação ou na segurança, tão necessárias à vida citadina.
E a lei? O papel da lei, enquanto direcionadora e mantenedora da ordem, é essencial e cabe ao Estado defini-la e aplicá-la visando o bem comum. Pois bem, opiniões individuais à parte, devemos consentir com as decisões favoráveis à maioria e cooperar. Neste ponto da discussão, torna-se necessário a força policial, talvez para restabelecer o medo necessário ao poder do Leviatã, quiçá para guarnecer a barreira entre a propriedade burguesa e os infortunados marginais.
O ser é naturalmente egoísta, pois temos inveja do próximo e desejamos a supremacia. Portanto, faz-se necessário o Estado e sua polícia para manter a ordem a favor do bem comum. O fato de sermos egoístas não implica necessariamente em maldade, mas em considerar primeiramente os interesses individuais acima do coletivo. O mesmo se aplica ao detentor do poder, que sendo egoísta se apresenta como um tirano maquiavélico. O que fazer então? Sim, devemos controlar o impulso egoísta (domando o animal competitivo e agressivo que carregamos no gene) e exercitar o altruísmo em prol do bem comum (convertendo a inata potência espiritual em verdadeira benevolência adquirida) a fim de dispersar felicidade. Eis nosso maior e mais belo desafio na vida, ai de mim, e não nos seduziremos em cumpri-lo por mero carisma ou honraria, mas por dignidade e simplicidade.    
Ó Epiteto, escravo de Nero que persistiu na busca pelo saber até obter sua redenção. Demonstrou a Marco Aurélio a mais pura essência do ser. Nem Epícuro nem Sêneca demonstraram tamanha simplicidade e autenticidade de espírito quanto a este grandioso homem. Em meio à vida aviltada que Roma lhe castigou, manteve-se firme no caminho da sabedoria. Somente o bem ele pregava aos homens, sem esperar recompensa em troca, e este foi seu maior ensinamento o qual devemos relembrar.

Minha cabeça virou no avesso e encontrei várias respostas do lado de fora, sem saber que as perguntas sequer existiam.


Foto: Elephanta Island, Mumbai, Índia. 2015.

sábado, 15 de outubro de 2016

Reflexões sobre a Moral Nietzschiana


A priori, o corpo é constituído por forças que podem ser ativas, de criação, ou reativas, de conservação.
As forças ativas são propiciadas de acordo com o ambiente e com os hábitos que melhor adequar ao indivíduo. As forças ativas devem ser extravasadas, para que não nos ferimos nas barras da própria jaula. O corpo dedicado às forças ativas permite plenitude de vontade de potência. Ou seja, a autonomia da vida deve transformá-la numa obra de arte, com pensamentos novos, com gosto pelas diferenças, mudanças. A reinvenção de si deve ser algo constante.
As forças reativas, no entanto, são conservadoras e ocasionam o ressentimento. Podemos entender por ressentimento o espírito de vingança daquele que não se esquece de impressões indesejadas. O corpo ressentido não se permite inventar e reinventar o seu modo de existir e passa a cultivar a má consciência. Pois, quando as impressões indesejadas ocorrem, devem ser digeridas para que se tornem alimento (esquecidas) e fortaleça nossa vontade de potência. Para Nietzsche, o esquecimento é o zelador da ordem psíquica.
As forças ativas e reativas são balanceadas e alternam suas intensidades constantemente. Quando temos a força ativa predominando, permitimos novos modos de existência de acordo com as vontades de potência. Por outro lado, quando as forças reativas predominam, o corpo passa à conservação, de forma passiva e niilista. Niilismo, no contexto de Nietzsche, é caracterizado por uma pessoa cansada de existir, que nega a vida, que desistiu do mundo, do ser humano, e quer apenas se conservar sem criar novos valores.
Na sociedade primitiva não havia o  Estado para estabelecer a moral. Não havia o sentimento de culpa, nem mesmo em rituais de sacrifício ou execuções. A modernidade, considerada a partir da formação do Estado, porém, passou a favorecer as ações reativas as quais aprisionam os instintos e suprimem a vontade de potência do indivíduo. O favorecimento de ações reativas se mostrou crescente e, como toda a sociedade passou a viver sob a influência do Estado, a tal moral foi difundida amplamente numa tendência de formação de rebanho.
Este excesso de ações reativas foi meticulosamente aproveitado por Paulo de Tarso, sendo ele o mentor do cristianismo. Enquanto sacerdote, Paulo de Tarso aproveitou o rebanho de má consciência formado pelo Estado e, como símbolo, deu à morte de Cristo o significado de sua religião. Paulo se aproveitou do sofrimento e da submissão em nome do amor que havia em Cristo para manter a inversão de valores na sociedade. A partir daí, a moral que vigora diz que o esquecimento é mau. A isenção
de culpa é ruim. Bom é ter os instintos reprimidos. Bom é não digerir os ressentimentos e viver em eterno débito. Bom é conviver com a má consciência e arrependido.
Paulo de Tarso foi oportuno e, ao lado do Estado, adotou duas ferramentas essenciais para o sucesso de sua religião. O sacerdote passa a ser figura necessária em todos os eventos da sociedade para perdoar as experiências não esquecidas, tidas como pecado, e livrar-nos do mal e do sofrimento. Desde o nascimento, casamento, morte e demais cerimônias, a presença do sacerdote é indispensável.
Primeiramente, uma ferramenta vital é a 'atividade maquinal', que consiste em distrair o sujeito de si mesmo. Ocupar-se com tarefas numa rotina regrada, com dedicação máxima, para que não haja tempo de digerir impressões assimiladas no inconsciente, e impossibilitando, assim, a reinvenção de si.
Segundo, outra ferramenta vital é a 'fácil obtenção de pequenas alegrias', que consiste numa sensação fugaz de superioridade. Trata-se da compaixão, que neste contexto significa pensar em quem mais está sofrendo antes de pensar em si. Através da desgraça do próximo é possível experimentar uma pequena e falsa sensação de plenitude, de alegria.
Concluindo, são dois os maiores perigos segundo Nietzsche: A compaixão pelo próximo e o nojo da humanidade. Interessante notar que enquanto o primeiro é uma das propostas sacerdotais, o segundo é uma consequência da moral cristã já exausta. Hoje, vivemos no ápice do comportamento de rebanho. A sociedade já não suporta ver catástrofes naturais e comportamentos humanos inaceitáveis. O limiar da paciência foi atingido, as ferramentas lançadas por Paulo de tarso estão saturadas e não satisfazem a expectativa. A moral cristã entrou em declínio e o homem já tem nojo da humanidade.
É estranho ser feliz atualmente. Pessoas reclamam de tudo e de todos ao seu redor sem antes pensar positivamente. A pessoa ressentida julga o acaso e sofre, ao invés de se fortalecer com isto. Torna-se incapaz de esquecer (digerir) incômodos e é dominado por forças reativas. Nietzsche, no fim do século 19, disse que a moral cristã perduraria por mais dois séculos. Já se passou um!



Texto de reflexão baseado no livro “A Genealogia da Moral”, de Nietzsche, e na aula ministrada pelo prof. Amauri Ferreira, em 27/04/2016, sobre o mesmo livro.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

A homeopatia do Mal


Enquanto o pessoal é do bem, eu sou do Mao.
Não bastasse todos os traumas já vividos pela humanidade acerca da intolerância e violência, uma nova onda de ultra conservadorismo se alastra mundo afora.

Há quem pergunte, qual onda? Alguns exemplos podem ilustrar, como Brexit, separatismo gaúcho e paulista, Trump, Alckmin, Bolsonaro, políticas anti-imigração, fundamentalismos religiosos diversos etc. Há sim um efeito rebote das frustrações de políticas de esquerda e de números estatísticos desfavoráveis da economia mundial.

Aos alopatas peço perdão, mas pensemos na lógica da homeopatia (já que lógica tem): O homem precisa provar de seu próprio veneno, em doses diluídas e continuamente. Talvez crie uma imunidade à perversão, ou cure algum dia.

Pode-se relacionar os fatos ao processo evolutivo do ser. Pois, a arqueologia revela sinais de violência desde os primórdios, desde dezenas de milhares de anos atrás. Nos achados, vê-se marcas de agressão física, aprisionamento e torturas: coisas bem discrepantes da felicidade.

Enumeros filósofos já concluíram que o fim do homem é a tal felicidade. Então, essa violência pode ser um resquício evolutivo, um vestígio de que temos a carga genética de ancestrais bem rudimentares que se importavam mais com o poder do que a felicidade total. Ou meu argumento não passa de uma falácia de apelo à natureza?

A história há de nos contar se tais teorias têm fundamento, ou se são apenas ficção.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Fragmentos Expostos do Neoliberalismo


O neoliberalismo avança por oportunas crises cíclicas, que são planejadas e estratégicas para ofuscar o seu caráter de austeridade. É um sistema de avaliação e monitoramento enganador que sufoca a sociedade e esfola o Estado. Nunca, num Estado democrático de Direito, um operário, desempregado ou servidor público foi tão oprimido!

Neoliberalismo é caracterizado pelo poder burguês proposto por Friedrich Hayek e Milton Friedman pouco antes da Grande Guerra. Algo que se entusiasmou com a polarização mundial entre o bem e o 'Mao', entre Deus e 'Allah'. Os Estados protagonistas da Grande Guerra partiram para mais uma empreitada ao terceiro mundo, espalhando arma, munição e Terror!

O neoliberalismo ganhou força através de volumoso financiamento da iniciativa privada, já evidenciando a presença do Lobby devasso dentro do Congresso. O Legislativo foi corrompido. No Brasil, representa o boi, a Bíblia e a bala (BBB). Representa uma minoria que acumula para si o capital, e ostenta a riqueza que falta para as transformações sociais!

O executivo tornou-se um poder, quando da direita, um modelo de fascismo com requintes de fundamentalismo religioso, e, quando de pseudoesquerda, bonapartista 'sui generis' com forte aparelhamento estatal e judiciário. A figura presidencial fomenta o autoritarismo e abre mão do programa original para manter sua base e se perpetuar no poder!

O Liberalismo ruiu em 1929 e o keynesianismo em 1970. Através de 'rendas' e juros, o ganho produtivo foi superado pelo ganho improdutivo de capital e, em 2008, o neoliberalismo também ruiu. É divulgado como sendo algo essencial através de falácias!
Restou um neoliberalismo zumbi que ignora o meio ambiente. Movido pelos interesses dos oligarcas e sustentado pela burocracia e pela manipulação institucionalizada. Como fim, infla o consumismo patológico da burguesia!


Fazenda Brasil: Um desabafo a quem interessar


Estaríamos num Estado moderno, de política centralizada nos poderes executivo e legislativo, ambos representativos à sociedade, e no Judiciário, intocável guardião da Constituição?
         Não. Retrocedemos ao período feudal. País descentralizado, no qual a nobreza e o clero, há cinco séculos, detêm a terra loteada pela Coroa, cada um com seu próprio feudo, todos bilionários. O Brasil não é um Estado moderno de Direito democrático e sua vasta continentalidade ultrapassa as fronteiras dos centros urbanos, centros nos quais passamos toda a nossa vida focados em produção e consumo.
         Os oligarcas dominam o senado e a câmara, e perpetuam a sua linhagem branca à custa do mau uso do Estado, no esquema perverso de suserania e vassalagem que remete ao período colonial. Usam todas as formas de poder invisível, aderem ao lobby nefasto, conspiram e saem incólumes.
         As leis são feitas pela oligarquia e para ela. Os togados sequer estão à altura para interferir neste esquema, têm seu preço e são cúmplices. O Estado controle a massa através da bala (aqui, cabem maiores detalhes do uso perverso da propaganda, mídia, internet, interesses yankees, que não serão abordados).
         A urbanização do Brasil pós-ciclo do café merece uma análise separada em virtude da sua importância na formação da atual sociedade. Não obstante, de grande importância temos também a publicação da lei Áurea, o fim dos ciclos de extrativismo (borracha, madeira, minérios), de monocultura (cana, café) e o início da Industrialização do país. A vasta população rural migrou desordenadamente às cidades, em debandada, sem que o devido planejamento fosse feito.
         O fim destes ciclos foi logo substituído, sem prejuízos aos tais oligarcas, pela pecuária extensiva e pela monocultura (milho, soja, café, cana, laranja, eucalipto), de forma também desordenada, o que resultou em devastação funesta do meio ambiente.  Áreas indígenas são, ainda nos tempos atuais, ignoradas para estender as fronteiras feudais. Pouco é o incentivo para agricultura familiar (fumicultura, apicultura, citricultura, avicultura, entre outros). Nenhum é o interesse para a reforma agrária.
         O Estado, oportunamente, não tem magnitude para atuar nas fronteiras rurais. À mídia, notícia da roça, do sertão, da floresta não interessa. Portanto, cada feudo oprime seus servos com seu próprio exército e sua própria justiça. Caso alguém reivindique por direitos neste território, será brutalmente castigado até que se cale.
         Também participa nesta trama a alta burguesia, composta, sobretudo, por industriais, baixo clero, militares e outras figuras medonhas. Estes, por sua vez,  têm sua origem na vinda da família real de Portugal, que ocorreu após o imperialismo napoleônico, e também provêm da imigração europeia tardia, que ocorreu após a lei Áurea, incentivada para abastecer as demandas de trabalho qualificado e para reforçar o espírito racista da supracitada classe dominante.
         Dados demográficos recentes calculam uma sociedade com cerca de 200 milhões de habitantes, feminina e jovem. Porém, infelizmente, ainda acusam um elevado analfabetismo e um subúrbio urbano concentrado, de baixa renda e desamparado pelo Estado.

O PARADIGMA DA SCIENZA NUOVA


Parafraseando esse contexto onde a metafísica, a religião, a astrologia e outras formas de conhecimento ganham importância, nos utilizaremos de um exemplo da mitologia sob a ótica de um grande filosofo. Para Hegel, a coruja é o símbolo da filosofia como alusão à coruja da deusa romana Minerva. A coruja de Minerva levanta voo ao entardecer, aquele instante onde a claridade e a escuridão misturam-se e as pessoas passam a enxergar menos. Assim, o conhecimento é gerado após acontecer algo que tinha de acontecer, no caso o dia, e antes de algo que está por vir e que se apresenta como obscuro, no caso a noite. É nesse instante de ofuscamento do cair da tarde que talvez possamos fazer nossa coruja alçar voo e levar as experiências do dia para as necessidades e dificuldades que surgirão na noite.” (André Galindo da Costa & Daniel Tonelo).


A relação da humanidade com os adventos tecnológicos remete ao pretérito remoto, da era do fogo, da pedra lascada, da agricultura, da escrita e dos metais. Outrora, muito antes do presente cibernético, o homem já fazia progresso e, talvez, fosse em virtude de uma vontade inata, de uma ambição primordial, de garantir a perpetuação da espécie. Haja vista que alguns povos não elaboraram a escrita nem o manuseio de metais (povos antigos americanos, por exemplo), o meio condiciona a atuação do ser. Portanto, dada a importância das variáveis espaciais e temporais na análise de um tema qualquer, proponho uma concisa arqueologia, ou genealogia, da nossa contemporaneidade ocidental. Conforme a proposta, a seguir, abordarei alguns fatos a fim de contextualizar o tema ciência e tecnologia.
O paradigma cristão de São Tomás de Aquino teve impacto profundo no pensamento da humanidade, que reverbera fortemente na atualidade. Pessoas como Galileu, Descartes, Hume, Newton, também se destacam na lista de maiores contribuintes da ciência. Neste intervalo de tempo, a emancipação do Homem perante a natureza foi um evento libertador, e teve o seu auge no século XIX com o fortalecimento das instituições universitárias modernas, detentoras da suposta verdade, que fornecem soluções tecnológicas para o patriciado industrial especulador. Ainda hoje, prevalece uma dicotomia formal entre ciências naturais e sociais, entre ciência e senso comum, diria Rubem Alves.
Pois, esta desvinculação com a natureza é evidenciada nos fatos a seguir. O fascínio que a humanidade tem com o céu antecede o advento da civilização, e algo nos desperta este interesse por questões que não cabem neste texto. Entretanto, unir-se-á a este fato o espírito judeu-cristão, seja ele o católico de santo Agostinho ou o protestante de Max Weber, que ao abandonar o antropocentrismo e o mito passa a buscar no céu novas oportunidades de empreitada.
Na moral contemporânea não há dívida ao saquear a natureza. Não é pecado atentar à vida do planeta. Pois, a ciência natural se especializou tanto que se afastou da transdisciplinaridade, e tanto fez que quase exterminou a humanidade da Terra, diria Rubem Alves. Considerando esses fatos, torna-se um desafio aceitar a ciência como provedora de conhecimentos que irão melhorar a vida do homem na Terra, como defendia Francis Bacon. Ao invés, paira uma descrença na ciência enquanto detentora da missão providencial de salvar da humanidade. Poderia estender a discussão ao anarquismo metodológico de Feyeraband, mas é inquestionável a aplicação prática de diversos projetos científicos baseados no cartesianismo, visto que o método é falho, mas capaz de demonstrar as conclusões desejadas. Mesmo que, porventura, fuja do senso comum, a atual ciência apresenta resultados tanto lucrativos quanto falsificáveis.
Pensar na possibilidade de habitar novos planetas é uma ambição e fruto da prepotência humana. Essa ideia alivia a consciência daqueles que depredam o ambiente com dolo, e os deixa otimistas quando ouvem a respeito da Gaia doente de James Lovelock. Podemos tranquilamente aniquilar a Terra e migrar para outro planeta a fim de habitá-lo, pensam os fãs de George Lucas ao assistir a NASA conquistar o Universo através da mídia patrocinada. Já não me surpreende ver um indivíduo adotar pequenas atitudes tidas como sustentáveis como forma de alívio ecológico, mesmo que o consumo materialista dele continue sendo maníaco e desenfreado.
Nietzsche provoca ao expor que, negligenciando a própria liberdade, o homem achou no eterno débito com Deus uma panaceia. Porém, este pensamento representa mais aqueles que se sustentam na salvação divina do que os céticos. Também provocando, Max Weber sugere que ao ver no mito a verdade, suprimimos nossa potencia de desenvolver o Capitalismo. Todavia, a industrialização protestante de Weber patrocinou uma ciência herdeira de precursores indianos, árabes e outros povos que preferem o culto ao uso, dormir bem a comer bem, nas palavras de Weber. O processo de globalização já estava em curso há tempo e, como efeito, a humanidade convergiu para um única ciência aplicada à tecnologia.
De fato, a história nos conta que a verdade e o paradigma são passageiros, falíveis e mutáveis. Sempre haveremos de experimentar novos agenciamentos, a fim de alimentar a própria potencia de ser e digerir os ressentimentos. Haveremos de nos reinventar insaciavelmente, de forma menos especializada e mais socializada, essa é minha ideia. O contato é fundamental. O diálogo entre indivíduos, disciplinas ou deuses deve ser incentivado para que a vida se torne sustentável.
Por fim, Darwin inovou ao propor que o ambiente determina as condições nas quais somente os adaptados sobrevivem. Acrescento ainda que o ambiente influencia o ser assim como o ser influencia o seu ambiente. Então, que esta relação seja simbiótica e que, finalmente, o nosso ego pós-moderno se emancipe do antropocentrismo clássico. Não há revolução disruptiva pontual, mas uma continuidade de eventos metafísicos que, somados, levam-nos a outro patamar enquanto civilização, diria Pierre Duhem. Encerro aqui, sabendo que contribui através da repetição do que a humanidade sempre fez: Fundamentar-se em informações disponíveis e vigentes para tentar aprimorá-las e ou refutá-las, seja através da retórica ou do cartesianismo, numa contínua transformação do paradigma.

Dourando a Pílula: Uma Empreitada na Saúde


“Gastamos muito dinheiro para tratar pessoas normais.”
Dr. Allen Frances, psiquiatra estadunidense. Líder da DSM-4 e crítico da DSM-5

“A maioria das pesquisas com câncer é uma grande fraude.”
Dr. Linus Pauling, duas vezes laureado premio Nobel de química.

“Não é mais possível acreditar em grande parte das pesquisas clínicas que são publicadas na grande mídia.”
Dr. Marcia Angell, editor chefe do New England Medical Journal (NEMJ).

“O programa nacional de câncer deve ser considerado um fracasso qualificado.”
Dr. John Bailar, integrante do instituto nacional do câncer e ex-editor da NEJM.


1) O maior comprador da indústria Farmacêutica é o Estado geralmente, e a recessão econômica global está prejudicando este negócio,
2) O comércio de sintéticos não traz lucros proporcionais ao tempo e ao investimento das pesquisas como antes o fazia,
3) Fusões entre as bigfarmas apontam para uma crise no setor farmacêutico sem precedentes,
4) Downsizing e fechamento de plantas em países em desenvolvimento indicam a tal crise,
5) população cada vez menos capacitada e pouco produtiva não cumpre com as expectativas das indústrias nos países em desenvolvimento,
6) A grande aposta das indústrias nos biológicos comprovam que sintéticos não sustentam a mesma rentabilidade de outrora, 
7) A constante regulação de mercado que as agências de governo impõe pra garantir as compras e a qualidade dos produtos afeta o bolso dessas indústrias,
8) O setor é dependente de importação, e o câmbio flutuante que varia em prol dos especuladores dificulta a aquisição e reposição de recursos materiais,
9) Há um tenebroso oligopólio de fornecimento de matéria prima e produto acabado no mercado mundial,
10) leis de patente rigorosas e protecionistas...

Seria uma lista ainda mais extensa, mas paro aqui. Isto mostra que as frases expostas no início não são fatos isolados, e me incentivam a discutir a causa raiz do problema. Associo outros fatores relacionados, por exemplo,  o fato que o Estado é, nos EUA, o maior financiador de pesquisas naturais. Médicos são apenas uma parte desta cadeia Farmacêutica bilionária, e atuam passivamente nestas decisões, que são mais políticas (Lobby) que relacionadas à saúde pública. Entretanto, toda responsabilidade recai sim sobre os prescritores, que têm o carimbo na mão e o poder de garantir a compra dos medicamentos, criando um hábito na sociedade (pra não dizer dependência) que ultrapassa o hedonismo do paciente. A sociedade médica também desempenha outra forma de poder que é o direcionamento das pesquisas científicas a consequente formação de opinião, ora com adventos tecnológicos da saúde, ora como verdades mercadológicas. Grande parte dos artigos científicos que sustentam as diretrizes médicas é patrocinada pelas mesmas indústrias Farmacêuticas que lucram com o negócio. O conflito de interesse é explícito. Exemplifico com a transição do DSM-2 ao DSM-3, que eliminou a abordagem social da psicanálise na medicina, substituindo-a pela medicina empírica ortodoxa.
Sugiro aqui algumas sugestões para sairmos desse ciclo nefasto. No caso do Brasil, há de ser considerado o nosso vasto arsenal de plantas medicinais, das drogas da floresta que herdamos de uma ciência milenar indígena, com ação terapêutica verificada através da sabedoria acumulada. E, não obstante, verificada também através da metodologia científica e publicada em revistas de alto fator de impacto. Esta é uma alternativa para prescritores aliviarem as dores de seus pacientes, sem que recorra às falácias e promessas de propagandistas. Ao negligenciar opções como esta, deparam-se tanto o prescritor quanto o paciente como reféns das rédeas mercantilistas.
Outra opção frente a este conflito, também isenta do Capital perverso, seria fomentar a indústria estatal. O Brasil inclusive praticou essa política, que é pesquisar, desenvolver e produzir através de laboratórios estatais, para que o medicamento pudesse ser distribuído de volta aos contribuintes, sem custos adicionais na ocasião da doença. Antes de o regime militar abrir a economia para transnacionais, tínhamos (e ainda temos!) laboratórios referências mundiais, tais como instituto Butantã, Fiocruz/Farmanguinhos. A população crescente em número e em longevidade exigiu essa ação do Brasil, mas infelizmente este projeto foi negligenciado por influências do grande Capital, uma vez que viram aí uma grande oportunidade de negócios. Há quem fale que o Estado não tem esta capacidade gerencial e administradora, contudo vemos sim exemplos bem sucedidos.
Ainda mantemos com excelência, contrariando todos os argumentos que a mídia nos expõe, a produção e distribuição do tratamento para HIV, por exemplo. A opção existe e qualquer um que discorde terá que aceitar a mais cínica refutação. Com frugalidade, podemos oferecer uma saúde melhor para a população, evitando o pagamento de preços abusivos e a escassez do arsenal medicamentoso, que variam conforme a livre concorrência entre os barões da droga. Ou seja, podemos considerar o bem estar social acima de interesses obscuros, interesses esses que elevam a saúde a um dos mais rentáveis negócios.


DUARTE, A. C. et al. Análise da Indústria Farmacêutica – Perspectivas e Desafios. Brasília: Núcleo de Estudos e Pesquisas/CONLEG/Senado, outubro/2015 (Texto para Discussão nº 183). Disponível em: www.senado.leg.br/estudos. Acesso em 13 de setembro de 2016.

EDISON CLAUDINO BICUDO Júnior. Produção de medicamentos no território brasileiro: Política farmacêutica e política territorial. GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 25, pp. 123 - 137, 2009. Disponível em http://www.geografia.fflch.usp.br/publicacoes/Geousp/Geousp25/Artigo_Edison.pdf. Acesso em 13 de setembro de 2016.


https://uaem.wufoo.com/forms/zmewncm1cznjbi/ Acesso em 01 de fevereiro de 2016.


John Bailar, Cancer Undefeated, 1997. http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJM199705293362206. Acesso em 13 de setembro de 2016.

PETER GØTZSCHE, Fármacos psiquiátricos nos fazem mais mal do que bem, 2016.
http://brasil.elpais.com/brasil/2016/09/20/ciencia/1474391855_558264.html?id_externo_rsoc=Fb_BR_CM
Acesso em 19 de dezembro de 2016.

ELIE DOLGIN, NIH research grants yield economic windfall, 2017. Nature, March, 30th 2017.

ROSENBLATT M., M.D., The large Pharmaceutical Company Perspective, 2017. The New England Journal of Medicine, January, 5th 2017.

Robinson S. M., The Classification of Substance Use Disorders: Historical, Contextual, and Conceptual Considerations, Review, 2016. Behavioral Sciences, August, 18th 2016.

PRODUÇÃO CIENTÍFICA DE VERDADES MERCADOLÓGICAS





"(...) meus pensamentos logo se paralisavam, quando tentava, contra tendência natural, forçá-los em uma direção. (...) As anotações filosóficas são, por assim dizer, uma porção de esboços de paisagens que nasceram nestas longas e confusas viagens." (Ludwig Wittgenstein). 


"Em face da sociedade dilatada de modo desmedido e dos progressos do conhecimento positivo da natureza, os edifícios conceituais nos quais, segundo os costumes filosóficos, o todo deveria poder ser alocado, assemelham-se aos restos da simples economia de mercado em meio ao capitalismo industrial tardio." ADORNO, T. W.


Pitágoras. Este grande nome, que não só foi o pai da matemática como também definiu o conceito de filosofia, não está iniciando o meu texto à toa. Pitágoras antecedeu Platão e consequentemente Descartes e os pensadores seguintes. Seus trabalhos foram fundamentais para que a nossa realidade ocidental chegasse ao patamar atual, seja na Ciência, Filosofia, Religião, Direito, Artes e até mesmo, provoco, nas tecnologias contemporâneas de Einstein, Higgs etc.

O estudo da Lógica, enquanto integrada à filosofia, também há de ser grato à herança de Pitágoras. O último não só progrediu a matemática de forma objetiva (prática, lógica e racional) como a relacionou com aspectos subjetivos (sentidos, ideias, metafísicos). A seguir apresento algumas provocações subjetivas, mas baseadas em temas filosóficos contemporâneos. Deixo para trás minhas impressões históricas e inicio outra abordagem, de forma parcial, entretanto sincera.

O que é a verdade? Definir a verdade com base na lógica não é tarefa simples. Utilizamos modelos como, por exemplo, o argumento para representar a verdade, o qual é formado por duas ou mais premissas e uma conclusão. A suposta confirmação da verdade através dessa inferência (critério da necessidade) é dependente da ciência, pois para definir a força dos argumentos, bem como a verdade das premissas, dependemos de uma suposta ciência especializada (estatística, química, biologia, sociologia, teologia, Direito etc.). O estudo da lógica em si, averigua no seu tocante se o argumento é válido e, por conseguinte, se a conclusão é verdadeira. Ora, pois, consideremos a seguir alguns aspectos da ciência a fim de responder a pergunta original.

As propriedades naturais são autônomas, independentes da existência humana, ou dependem da nossa inteligência para existirem? Ou seja, nós descobrimos ou inventamos tais propriedades da natureza? Mesmo em áreas como a física pura ou a química pura, onde podemos manipular os elementos existentes e criar matéria nova como polímeros, metais e cerâmicas. Logo, temos uma descoberta ou uma invenção?

Situação 1-Caso algo seja descoberto, então esse já estava presente na Natureza e o homem através da ciência trouxe esta propriedade à luz do conhecimento. Situação 2-Caso algo seja inventado, estaríamos então apresentando uma entidade teórica inédita capaz de expressar uma propriedade desejada. Não seria uma verdade absoluta e imutável, mas apenas uma maneira de construir uma hipótese perecível dentro da limitada capacidade explicativa humana? A metafísica ou, precisamente, a ontologia se dedicam a essa discussão.

A existência é um predicado atribuído às coisas? Entendo que não estamos atrás da verdade, e sim atrás de soluções contextualizadas no âmbito cronotópico e social. A finalidade da busca pelo conhecimento é acomodar nossas crenças dentro de alguma teoria aceitável, ou estabelecer teorias que sustentem necessidades. Para isto, só temos nossas experiências sensoriais como ferramenta. Não há verdade ao afirmar que uma determinada causa é a origem de um efeito. Isso é insustentável uma vez que possuímos acesso apenas aos efeitos (observável). E ainda, para cada questão existiria sempre um par de teorias equivalentes e logicamente incompatíveis: A mesma coisa pode ser explicada de modos diferentes.

Vemos somente cisnes brancos (empirismo); o que vemos é verdade (indução); todos os cisnes são brancos (conclusão). As premissas podem ser verdadeiras ou falsas, conforme a sua duração e localização. As verdades se mostram como ponta de iceberg, ou na forma de uma roupagem que se renova conforme a moda da época: a ciência também.

O exposto acima remete ao primórdio que emancipou a ciência moderna da metafísica clássica ocidental, cujo auge é por mim considerado o século XVIII, que culminou na filosofia iluminista, no liberalismo, no idealismo e nas revoluções nacionalistas, todos de origem burguesa. Karl Popper perguntou se a moderna ciência empirista se livrou completamente dos resquícios de seu passado metafísico? A metafísica deve mesmo ser eliminada da ciência? Se sim, quais são as demarcações definitivas que separam estes dois modos de conhecimento? Há de se apontar a árvore de Descartes, que colocava a metafísica e a ciência numa única estrutura, a primeira como raiz e a última como galhos (o tronco da arbre é a filosofia).

O método científico empírico adota uma proposição válida e argumento forte, porém a veracidade da conclusão é mutável e falível devido à fragilidade das suas premissas. Uma premissa a priori verdadeira pode se tornar falsa por ser algo generalizado e limitado no sensorial. Questiono também se a indução é de fato compatível com a lógica, ou é o efeito da intuição, quiçá da abstração humana. Buscamos uma compreensão satisfatória da natureza e esta vontade é constante, contudo a história nos conta que a ciência se constitui da sua própria refutação e isso demonstra a sua inevitável falseabilidade. O progresso é um processo imprevisível e indeterminado, fundamentado em bases frágeis, que fascina o sujeito adorador do conhecimento. Faz-se ciência empregando primeiro o empirismo para depois traduzi-la num sistema de linguagem técnica, rígida, limitada num signo, numa palavra e num conceito respectivamente.

O que é a normalidade? Tal pergunta chegará a diferentes respostas, pois cada ser humano tem consigo aquilo que julga como normal. Somos, enquanto seres dotados de consciência e memória, uma infinidade de possibilidades, uma vontade de potência em constante transformação num oceano de conexões líquidas, uma capacidade incalculável de ordenações e relações de ideias. É comum chegarmos a conclusões diferentes, ainda que haja padronização de fatores, e isso há de ser normal. Portanto torna-se importante a padronização científica enquanto uma rígida e sistemática metodologia capaz de ser replicada para o fim de comprovar uma conclusão qualquer. Apesar das falhas já citadas, a metodologia científica é o atual auge da criatividade humana.

Há outra questão relevante apresentada por Popper que coloco neste momento, são os problemas da indução. Colocá-los-ei na forma de perguntas para incitar a vossa reflexão, pois uma descrição detalhada destes está na obra "Die beiden Grundprobleme der Erkenntnistheorie", de 1978. Dados empíricos pontuais podem ser considerados como proposições de abrangência universal? Com que direito tais proposições podem ser formuladas? É possível saber mais do que se sabe?

A partir de leituras feitas alhures sobre antropologia, o levantamento de informações nesta área segue uma metodologia contida numa linguagem técnica e característica, a priori, de uma ciência natural. Ora, pois, eis que mitos e ritos considerados são comparados sistematicamente para compor deduções empíricas. Como define Levi-Strauss, método hipotético-dedutivo. Trata-se da aproximação das condições culturais de uma determinada época estudada, da aproximação das formas de ordenamento e relacionamento de ideias de sociedades primitivas. Um exercício hipotético-dedutivo realizado hoje, mas ambientalizado numa realidade de outrora. Contrariamente à dedução empírica, podem-se obter conclusões de deduções transcendentais, de encadeamentos de operações lógicas e não de inferência fruto de observações.

Outra perspectiva interessante a ser considerada é do estudo da linguagem para surdos e cegos. Trata-se de uma ciência baseada na práxis, cuja base teórica é secundária. O estudo e desenvolvimento de linguagens adequadas à surdez ou cegueira são dependentes do empirismo. Não há de se intuir ou deduzir teses hipotéticas sem que estas tenham uma utilidade prática aos usuários. As linguagens, sejam verbais, não verbais ou mistas, devem ser direcionadas e adequadas a uma população que aprova ou reprova a praticidade do objeto de estudo, através da experiência e apesar do rigor científico comum.

Portanto concluo, de maneira antirrealista e provocativa, que o direcionamento da ciência é feito por quem a patrocina e os efeitos são destinados aos referidos patrocinadores, geralmente, na forma de soluções para os meios de produção. Esta mercantilização da ciência se torna objeto de propaganda capitalista, de sofismo político, de jornalismo vagabundo: o encantador canto da sereia que converte pessoas em indivíduos. O sujeito investigativo apresenta o objeto de pesquisa a um inquérito a fim de obter disto a confissão da verdade que lhe interessa.

Há muito investimento em ciência desalmada no nosso tempo, ciência sem substância, que está inserida num conluio de interesses comerciais e não se pretende neste caso o progresso da humanidade, mas sim de um meio de produção específico, visando ao lucro e ao benefício Individualizado. Muitos cientistas se parecem mais com jornalistas, empenhados na alta produtividade de publicação, enfim meros instrumentos maquinais.  Não cabe ao texto analisar o caráter mercantilista e segregador que o diploma se resume nas mãos de muitos profissionais recém-formados: o biopoder das instituições na forma materializada de um certificado. Para um aprofundamento nesta direção recomendo Foucault (sugestão de leitura do fim do texto).

A ciência há de se alinhar aos interesses da humanidade afinal, para que possamos retomar um caminho decente outrora trilhado por uma filosofia personalista. Vieses de naturezas diversas continuam presentes na ciência, desde problemas fundamentais expostos acima a conflitos de interesses mercantilistas. A verdade não está por aí esperando uma oportunidade do devir: Somos nós, seres inteligentes, que a fazemos.




Sugestão de leitura:


·         RUBEM ALVES. Variações sobre o Prazer: Santo Agostinho, Nietzsche, Marx e Babette. 2011. 1ª edição, Editora Planeta do Brasil Ltda.
·         LUDWIG WITTGENSTEIN. Investigações Filosóficas. 1945. 1ª edição, Editora Nova Cultural.
·         KARL POPPER. Os Dois Problemas Fundamentais da Teoria do Conhecimento. 1978. 1ª edição, Editora UNESP.
·         MICHEL FOUCAULT. Microfísica do Poder. 3ª edição, Editora Paz e Terra.
·         CLAUDE LÉVI-STRAUSS. A Oleira Ciumenta. 1985. 1ª edição. Editora Brasiliense. 
·         THEODOR W. ADORNO. Negative Dialektik. 1967. Editora Suhrkamp Verlag.