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meus pensamentos logo se paralisavam, quando tentava, contra tendência natural,
forçá-los em uma direção. (...) As anotações filosóficas são, por assim dizer,
uma porção de esboços de paisagens que nasceram nestas longas e confusas
viagens." (Ludwig Wittgenstein).
"Em face da sociedade dilatada de modo desmedido e dos progressos do
conhecimento positivo da natureza, os edifícios conceituais nos quais,
segundo os costumes filosóficos, o todo deveria poder ser alocado,
assemelham-se aos restos da simples economia de mercado em meio ao capitalismo
industrial tardio." ADORNO, T. W.
Pitágoras. Este grande nome, que não só foi o pai da matemática
como também definiu o conceito de filosofia, não está iniciando o meu texto à
toa. Pitágoras antecedeu Platão e consequentemente Descartes e os pensadores
seguintes. Seus trabalhos foram fundamentais para que a nossa realidade
ocidental chegasse ao patamar atual, seja na Ciência, Filosofia, Religião,
Direito, Artes e até mesmo, provoco, nas tecnologias contemporâneas de
Einstein, Higgs etc.
O estudo da Lógica, enquanto integrada à filosofia, também há de
ser grato à herança de Pitágoras. O último não só progrediu a matemática de
forma objetiva (prática, lógica e racional) como a relacionou com aspectos
subjetivos (sentidos, ideias, metafísicos). A seguir apresento algumas
provocações subjetivas, mas baseadas em temas filosóficos contemporâneos. Deixo
para trás minhas impressões históricas e inicio outra abordagem, de forma
parcial, entretanto sincera.
O que é a verdade? Definir a verdade com base na lógica não é
tarefa simples. Utilizamos modelos como, por exemplo, o argumento para
representar a verdade, o qual é formado por duas ou mais premissas e uma
conclusão. A suposta confirmação da verdade através dessa inferência (critério
da necessidade) é dependente da ciência, pois para definir a força dos
argumentos, bem como a verdade das premissas, dependemos de uma suposta ciência
especializada (estatística, química, biologia, sociologia, teologia, Direito
etc.). O estudo da lógica em si, averigua no seu tocante se o argumento é
válido e, por conseguinte, se a conclusão é verdadeira. Ora, pois, consideremos
a seguir alguns aspectos da ciência a fim de responder a pergunta original.
As propriedades naturais são autônomas, independentes da
existência humana, ou dependem da nossa inteligência para existirem? Ou seja,
nós descobrimos ou inventamos tais propriedades da natureza? Mesmo em áreas
como a física pura ou a química pura, onde podemos manipular os elementos
existentes e criar matéria nova como polímeros, metais e cerâmicas. Logo, temos
uma descoberta ou uma invenção?
Situação 1-Caso algo seja descoberto, então esse já estava
presente na Natureza e o homem através da ciência trouxe esta propriedade à luz
do conhecimento. Situação 2-Caso algo seja inventado, estaríamos então
apresentando uma entidade teórica inédita capaz de expressar uma propriedade
desejada. Não seria uma verdade absoluta e imutável, mas apenas uma maneira de
construir uma hipótese perecível dentro da limitada capacidade explicativa
humana? A metafísica ou, precisamente, a ontologia se dedicam a essa discussão.
A existência é um predicado atribuído às coisas? Entendo que não
estamos atrás da verdade, e sim atrás de soluções contextualizadas no âmbito
cronotópico e social. A finalidade da busca pelo conhecimento é acomodar nossas
crenças dentro de alguma teoria aceitável, ou estabelecer teorias que sustentem
necessidades. Para isto, só temos nossas experiências sensoriais como
ferramenta. Não há verdade ao afirmar que uma determinada causa é a origem de
um efeito. Isso é insustentável uma vez que possuímos acesso apenas aos efeitos
(observável). E ainda, para cada questão existiria sempre um par de teorias
equivalentes e logicamente incompatíveis: A mesma coisa pode ser explicada de
modos diferentes.
Vemos somente cisnes brancos (empirismo); o que vemos é verdade
(indução); todos os cisnes são brancos (conclusão). As premissas podem ser
verdadeiras ou falsas, conforme a sua duração e localização. As verdades
se mostram como ponta de iceberg, ou na forma de uma roupagem que se renova
conforme a moda da época: a ciência também.
O exposto acima remete ao primórdio que emancipou a ciência
moderna da metafísica clássica ocidental, cujo auge é por mim considerado o
século XVIII, que culminou na filosofia iluminista, no liberalismo, no
idealismo e nas revoluções nacionalistas, todos de origem burguesa. Karl Popper
perguntou se a moderna ciência empirista se livrou completamente dos resquícios
de seu passado metafísico? A metafísica deve mesmo ser eliminada da ciência? Se
sim, quais são as demarcações definitivas que separam estes dois modos de
conhecimento? Há de se apontar a árvore de Descartes, que colocava a metafísica
e a ciência numa única estrutura, a primeira como raiz e a última como galhos
(o tronco da arbre é a filosofia).
O método científico empírico adota uma proposição válida e
argumento forte, porém a veracidade da conclusão é mutável e falível devido à
fragilidade das suas premissas. Uma premissa a priori verdadeira
pode se tornar falsa por ser algo generalizado e limitado no sensorial.
Questiono também se a indução é de fato compatível com a lógica, ou é o efeito
da intuição, quiçá da abstração humana. Buscamos uma compreensão satisfatória
da natureza e esta vontade é constante, contudo a história nos conta que a
ciência se constitui da sua própria refutação e isso demonstra a sua inevitável
falseabilidade. O progresso é um processo imprevisível e indeterminado,
fundamentado em bases frágeis, que fascina o sujeito adorador do conhecimento.
Faz-se ciência empregando primeiro o empirismo para depois traduzi-la num
sistema de linguagem técnica, rígida, limitada num signo, numa palavra e num
conceito respectivamente.
O que é a normalidade? Tal pergunta chegará a diferentes
respostas, pois cada ser humano tem consigo aquilo que julga como normal.
Somos, enquanto seres dotados de consciência e memória, uma infinidade de
possibilidades, uma vontade de potência em constante transformação num oceano
de conexões líquidas, uma capacidade incalculável de ordenações e relações de
ideias. É comum chegarmos a conclusões diferentes, ainda que haja padronização
de fatores, e isso há de ser normal. Portanto torna-se importante a
padronização científica enquanto uma rígida e sistemática metodologia
capaz de ser replicada para o fim de comprovar uma conclusão qualquer. Apesar
das falhas já citadas, a metodologia científica é o atual auge da
criatividade humana.
Há outra questão relevante apresentada por Popper que coloco
neste momento, são os problemas da indução. Colocá-los-ei na forma de perguntas
para incitar a vossa reflexão, pois uma descrição detalhada destes está na obra
"Die beiden Grundprobleme der Erkenntnistheorie", de 1978. Dados
empíricos pontuais podem ser considerados como proposições de abrangência
universal? Com que direito tais proposições podem ser formuladas? É possível
saber mais do que se sabe?
A partir de leituras feitas alhures sobre antropologia, o levantamento
de informações nesta área segue uma metodologia contida numa linguagem técnica
e característica, a priori, de uma ciência natural.
Ora, pois, eis que mitos e ritos considerados são comparados sistematicamente
para compor deduções empíricas. Como define Levi-Strauss, método
hipotético-dedutivo. Trata-se da aproximação das condições culturais de uma
determinada época estudada, da aproximação das formas de ordenamento e
relacionamento de ideias de sociedades primitivas. Um exercício hipotético-dedutivo
realizado hoje, mas ambientalizado numa realidade de
outrora. Contrariamente à dedução empírica, podem-se obter conclusões de
deduções transcendentais, de encadeamentos de operações lógicas e não de
inferência fruto de observações.
Outra perspectiva interessante a ser considerada é do estudo da linguagem para
surdos e cegos. Trata-se de uma ciência baseada na práxis, cuja
base teórica é secundária. O estudo e desenvolvimento de linguagens adequadas à
surdez ou cegueira são dependentes do empirismo. Não há de se intuir ou
deduzir teses hipotéticas sem que estas tenham uma utilidade prática aos
usuários. As linguagens, sejam verbais, não verbais ou mistas, devem ser
direcionadas e adequadas a uma população que aprova ou reprova a praticidade do
objeto de estudo, através da experiência e apesar do rigor científico comum.
Portanto concluo, de maneira antirrealista e provocativa, que o
direcionamento da ciência é feito por quem a patrocina e os efeitos são
destinados aos referidos patrocinadores, geralmente, na forma de soluções para
os meios de produção. Esta mercantilização da ciência se torna objeto de
propaganda capitalista, de sofismo político, de jornalismo vagabundo: o
encantador canto da sereia que converte pessoas em indivíduos. O sujeito investigativo apresenta o objeto de pesquisa a um inquérito a fim de obter disto a confissão da verdade que lhe interessa.
Há muito investimento em ciência desalmada no nosso tempo,
ciência sem substância, que está inserida num conluio de interesses comerciais
e não se pretende neste caso o progresso da humanidade, mas sim de um meio de
produção específico, visando ao lucro e ao benefício Individualizado. Muitos
cientistas se parecem mais com jornalistas, empenhados na alta produtividade de
publicação, enfim meros instrumentos maquinais. Não cabe ao texto
analisar o caráter mercantilista e segregador que o diploma se resume nas mãos
de muitos profissionais recém-formados: o biopoder das instituições na
forma materializada de um certificado. Para um aprofundamento nesta direção
recomendo Foucault (sugestão de leitura do fim do texto).
A ciência há de se alinhar aos interesses da humanidade afinal,
para que possamos retomar um caminho decente outrora trilhado por uma filosofia
personalista. Vieses de naturezas diversas continuam presentes na ciência,
desde problemas fundamentais expostos acima a conflitos de interesses
mercantilistas. A verdade não está por aí esperando uma oportunidade do devir:
Somos nós, seres inteligentes, que a fazemos.
Sugestão de leitura:
·
RUBEM ALVES. Variações
sobre o Prazer: Santo Agostinho, Nietzsche, Marx e Babette. 2011. 1ª edição,
Editora Planeta do Brasil Ltda.
·
LUDWIG WITTGENSTEIN.
Investigações Filosóficas. 1945. 1ª edição, Editora Nova Cultural.
·
KARL POPPER. Os Dois
Problemas Fundamentais da Teoria do Conhecimento. 1978. 1ª edição, Editora
UNESP.
·
MICHEL FOUCAULT.
Microfísica do Poder. 3ª edição, Editora Paz e Terra.
·
CLAUDE LÉVI-STRAUSS. A
Oleira Ciumenta. 1985. 1ª edição. Editora Brasiliense.
·
THEODOR W.
ADORNO. Negative Dialektik. 1967. Editora Suhrkamp Verlag.