quarta-feira, 23 de novembro de 2016

A GENEALOGIA DA BURGUESIA MODERNA




"The idols were not from the beginning- but were invented through the vain ambition of men, because the latter are short-lived. For a father afflicted with untimely mourning, when he had made an image of his child Adonis early taken away, honored him as a god, who was a dead man, and delivered to those that were under him ceremonies and sacrifices." The Book of Wisdom

"Deixai os mortos enterrar seus mortos." S. Mat. C. 8, vers. 21 e 22.





A GENEALOGIA DA BURGUESIA MODERNA: UMA BREVE VISÃO AUTOTÉLICA 

A fome, no século XV, atingia e impelia a sociedade europeia a uma iminência de colapso. Não eram as dores da fome somente que assolavam o campesinato e a plebe urbana, mas também das doenças decorrentes do acúmulo de resíduos no solo e na água. Todas as cidades europeias, de tanto acúmulo de matéria em decomposição, fediam insuportavelmente. Exceto pelo clero e realeza, o cidadão europeu tinha poucas chances de prosperar nesse ambiente. Tais chances estavam ao alcance da burguesia ascendente: ourives; confeccionistas de tecido fino; marceneiros de madeiras nobres; perfumistas; tabeliões; advogados; relojoeiros; costureiros de couro, peruca e luvas finas; banqueiros; agiotas; farmacêuticos boticários; médicos cirurgiões; fundidores; mestres de obras; donos de caravanas e de embarcações etc. Destes últimos, quanto maior era o acúmulo de bens, maior eram a influência política e o título de nobreza obtido. Os nobres, por fim, patrocinaram as grandes empreitadas da transição à modernidade.

Transformações sociais sucederam a partir do século XVI e o poder antes exercido pelo sacerdotismo monárquico foi superado pelo Direito natural oligárquico que emanou da classe social burguesa ascendente. O espetáculo do poder, outrora centralizado, passou a ter espaço na sociedade burguesa através de jogos simbólicos baseados numa essência comercial de troca: votos por benfeitorias. A Formação dos Estados novos europeus impulsionou a revisão da jurisprudência do Direito clássico no sentido de uma ciência aplicada à razão e promoveu a reforma da Escolástica tomista em favor da laicização do Direito. A divindade deixou de ser representada pela Coroa monárquica para dar espaço ao antropocentrismo, enquanto que o acúmulo insaciável de riqueza passou a ter a anuência do protestantismo, o que justificava moralmente as empreitadas capitalistas da alta burguesia: a metalurgia viabilizando a pólvora, a prensa tipográfica viabilizando os livros, o monopólio comercial, a busca por novos mercados consumidores e a fuga de meeiros e controles alfandegários viabilizando as navegações.

Milênios atrás, não antes do grande dilúvio, livros sagrados registravam a história dos povos: Shu-King, Vedas, O livro dos Iorubás, Mahabharata, Zaratustra, The Book of Wisdom, Homero etc. A partir de Javeh, entidade deística antropomórfica e exclusiva, a humanidade foi transformada numa nova forma de moralidade, ainda vigente, que Nietzsche denunciou. Ora, pois, a vontade de liberdade que a burguesia mercantilista tanto almejava repercutiu na religião, inevitável e estrategicamente, e resultou numa reforma. Na época, a renovação de valores e as ondas migratórias eram intensas na Europa: cristãos, novos cristãos, judeus, protestantes, muçulmanos. Ainda hoje a religião se mantém como pretexto para derramamento de sangue, infelizmente. Um fato contemporâneo relacionado é a intimidade entre o nazismo e Lutero. Ver "Sobre os judeus e suas mentiras" de Lutero e "Mein Kampf" de Hitler.

O pacto de associação foi proposto e o contrato foi celebrado entre o Estado e os cidadãos, a partir das aspirações burguesas e num caráter civilizador Rousseniano. No século XVII, novos cristãos que haviam feito grandes riquezas, afugentados da perseguição dos conservadores, muitos destes prosperaram na península ibérica e migraram para países como Inglaterra, França e Holanda. Suíça e Alemanha implantavam um protestantismo com caráter racista, o catolicismo nestes locais permanecia tão forte que voltou contra si próprio (M. FOUCAULT). A Europa passava por um frenesi cultural, por uma reestruturação social e por uma onda de perseguição religiosa. No século XVIII, dentre os acontecimentos, hão de ser destacados o terremoto de Lisboa (cuja dispendiosa reconstrução repercutiu na independência do Brasil), o iluminismo (que culminou na revolução francesa e independência dos EUA) e a revolução industrial na Inglaterra.

A Alemanha recebeu os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade com bons olhos, na tentativa de superar os resquícios do feudalismo e do despotismo político. O pensamento no fim do século XVIII apontava para um desejo de libertar o homem como sujeito autônomo capaz de guiar seu próprio desenvolvimento (G. HEGEL). Culminou com o idealismo alemão que apoiava, por exemplo, a supremacia de Napoleão enquanto libertador e unificador. O contexto da ascensão burguesa focava Napoleão sob uma luz de esperança que proveria as oportunidades de uma vida justa e próspera: a luz divina encarnada na ordem universal das ideias espinozianas. Era inconcebível pra quem lucrava perceber estes eventos de um ponto de vista sombrio, na forma de uma empreitada burguesa leviatânica.

A vontade de alfabetização, em virtude de um conhecimento mais acessível, favoreceu o desenvolvimento da imprensa e da propaganda. A classe burguesa estava no limiar da sua emancipação política, munida de capital, no comando da máquina imperialista e com o monopólio do comércio globalizado. O amplo acesso à informação seria uma forma maior de liberdade? Ou pelo contrário, seria uma forma de obediência e subjugação aos biopoderes da episteme? A satisfação de uma posição social rígida e de consumo de insumos locais foi substituída por uma vontade insaciável de ascensão social, de consumo de produtos estrangeiros, de posse de mais propriedades (K. MARX). Há de se surpreender com tantas mudanças resultantes da máquina a carvão: indústria têxtil padronizando as vestimentas, malhas ferroviárias encurtando distâncias, emissão crescente de carbono no ar.

Cidades-Repúblicas independentes sob o poder da burguesia moderna, produzindo bens e comercializando; do outro lado o Estado tributário e as demais classes remanescentes. O mercado consumidor se expandira com a globalização, a industrialização aperfeiçoara os meios de produção e criara um espírito de desejo consumista. Já não se buscava o ouro ultramar, mas criava-se dinheiro via instituições financeiras, através da manipulação econômica do valor de uso e do valor de troca (P.J. PROUDHON). Foi um passo para a transferência do poder político da nobreza monárquica para a burguesia moderna. A ciência, o Direito, as artes e a família se tornaram trabalhadores assalariados, meros instrumentos maquinais pagos pela alta burguesia (K. MARX; F. ENGELS). Nasce o proletariado, que só subsiste enquanto tem trabalho e, portanto, depende do desenvolvimento do capital.



Sim, houve um salto colossal no desenvolvimento de novas tecnologias. A velocidade e a frequência de ocorrência dos eventos parecem ter aumentado. A química  clorou a água, propiciou uma medicina moderna e novos materiais: o homem se multiplicou e passou a viver mais. A física propiciou um novo entendimento do tempo-espaço e novas formas de energia: pisamos na superfície lunar e desenvolvemos a potência destruidora das reações solares. Porém, a burguesia parece ter se tornado a própria vilã de suas empreitadas: estava tão forte que também voltou contra si própria. As relações sociais e as forças produtivas se tornaram muito perigosas, pondo em risco a ordem e a propriedade burguesa. O que fazer então? Preparar crises cíclicas cada vez mais amplas, a fim de exterminar parte da força produtiva, conquistar novos mercados e aprimorar a exploração dos antigos. O proletariado absorve essa violência e sustenta o sistema numa forma de servidão voluntária de La Boétie. Workingmen of all countries, unite!

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Um animal no meio do caminho

"Quando tudo estiver acabado: escrever sem preocupação de ordem. Tudo o que me passar pela cabeça." Albert Camus.

"Sou o intervalo entre o meu desejo e aquilo que os desejos dos outros fizeram de mim." Fernando Pessoa.


            Se eu pudesse dependeria somente Dele, mas somos vulneráveis e dependemos do coletivo. Não à toa, a criança é o mais despreparado e indefeso dos filhotes animais. Somos feitos animais racionais para e pela sociedade. A razão prevalece sobre o instinto ou foi justo o medo que nos levou à sociedade? Por que o medo? A Liberdade conquistada após o desmame, após a tonificação dos músculos, propriocepção, equilíbrio e o aprendizado da fala nos possibilita escolher: podemos ir ali ou acolá, podemos dizer sim ou não. Esta liberdade dá medo.
Nossa liberdade não passa de uma ilusão aprisionada dentro da caverna platônica, refém do Leviatã Hobbesiano, cercada dentro da propriedade Lockeana, arrebanhada pela moral nietzschiana ou ainda sob o biopoder foucaultiano. Temos a liberdade para escolher entre a opção correta e a segunda opção. No entanto, há uma tendência de optarmos no embalo do contexto cronotópico: a nossa liberdade está tacitamente comprometida, limitada às nossas experiências e aos riscos que avaliamos.     
Estamos presos dentro da nossa própria conduta. Presos a uma caminhada matinal, a um cardápio restrito, a uma rotina de trabalho, a uma gravata apertada, a vícios diversos e a prazeres fúteis. Ou ainda pior, presos à condição da impossibilidade dessas opções: a privação é uma forma perversa de aprisionamento, seja qual for o motivo, desejada ou não.
Haveremos de pensar nas pessoas que cultuam o corpo, seja por venerar a morada da alma ou por recompensar a baixa intelectualidade, e naqueles que se abstêm dos prazeres mundanos na busca por uma elevação espiritual. Ai dessas pessoas que dedicam a vida obstinadamente a um fim e não admiram a beleza do caminho percorrido. Haveremos de apreciar a travessia mais do que a chegada. Haveremos de vislumbrar a subida ao invés do cume. Haveremos de fruir a vida apesar da inevitável morte. Dados os exemplos, refiro-me a esse tipo de miopia que ofusca o nosso papel diante da sociedade. Há uma tendência à abstração da nossa responsabilidade no tocante à vida na polis, pois essa é fustigada pela busca insaciável do acúmulo. Acumular o que senão boas lembranças?
Essa mesma cegueira nos impede de assumir um compromisso com a comunidade. Por quê? Pois deveríamos participar da construção e da manutenção das instituições públicas, a fim de garantir o bom funcionamento da sociedade. Ao invés, assumimos um papel passivo de esperar a intervenção do Estado, seja na educação ou na segurança, tão necessárias à vida citadina.
E a lei? O papel da lei, enquanto direcionadora e mantenedora da ordem, é essencial e cabe ao Estado defini-la e aplicá-la visando o bem comum. Pois bem, opiniões individuais à parte, devemos consentir com as decisões favoráveis à maioria e cooperar. Neste ponto da discussão, torna-se necessário a força policial, talvez para restabelecer o medo necessário ao poder do Leviatã, quiçá para guarnecer a barreira entre a propriedade burguesa e os infortunados marginais.
O ser é naturalmente egoísta, pois temos inveja do próximo e desejamos a supremacia. Portanto, faz-se necessário o Estado e sua polícia para manter a ordem a favor do bem comum. O fato de sermos egoístas não implica necessariamente em maldade, mas em considerar primeiramente os interesses individuais acima do coletivo. O mesmo se aplica ao detentor do poder, que sendo egoísta se apresenta como um tirano maquiavélico. O que fazer então? Sim, devemos controlar o impulso egoísta (domando o animal competitivo e agressivo que carregamos no gene) e exercitar o altruísmo em prol do bem comum (convertendo a inata potência espiritual em verdadeira benevolência adquirida) a fim de dispersar felicidade. Eis nosso maior e mais belo desafio na vida, ai de mim, e não nos seduziremos em cumpri-lo por mero carisma ou honraria, mas por dignidade e simplicidade.    
Ó Epiteto, escravo de Nero que persistiu na busca pelo saber até obter sua redenção. Demonstrou a Marco Aurélio a mais pura essência do ser. Nem Epícuro nem Sêneca demonstraram tamanha simplicidade e autenticidade de espírito quanto a este grandioso homem. Em meio à vida aviltada que Roma lhe castigou, manteve-se firme no caminho da sabedoria. Somente o bem ele pregava aos homens, sem esperar recompensa em troca, e este foi seu maior ensinamento o qual devemos relembrar.

Minha cabeça virou no avesso e encontrei várias respostas do lado de fora, sem saber que as perguntas sequer existiam.


Foto: Elephanta Island, Mumbai, Índia. 2015.