"The idols were not from the beginning- but were invented through the vain ambition of men, because the latter are short-lived. For a father afflicted with untimely mourning, when he had made an image of his child Adonis early taken away, honored him as a god, who was a dead man, and delivered to those that were under him ceremonies and sacrifices." The Book of Wisdom.
"Deixai os mortos enterrar seus mortos." S. Mat. C. 8, vers. 21 e 22.
A GENEALOGIA DA BURGUESIA MODERNA: UMA BREVE VISÃO AUTOTÉLICA
A fome, no século XV, atingia e impelia a
sociedade europeia a uma iminência de colapso. Não eram as dores da fome
somente que assolavam o campesinato e a plebe urbana, mas também das doenças
decorrentes do acúmulo de resíduos no solo e na água. Todas as cidades
europeias, de tanto acúmulo de matéria em decomposição, fediam
insuportavelmente. Exceto pelo clero e realeza, o cidadão europeu tinha poucas
chances de prosperar nesse ambiente. Tais chances estavam ao alcance da
burguesia ascendente: ourives; confeccionistas de tecido fino; marceneiros de
madeiras nobres; perfumistas; tabeliões; advogados; relojoeiros; costureiros de couro, peruca e luvas
finas; banqueiros; agiotas; farmacêuticos boticários; médicos cirurgiões; fundidores; mestres de obras;
donos de caravanas e de embarcações etc. Destes últimos, quanto maior era o
acúmulo de bens, maior eram a influência política e o título de nobreza obtido.
Os nobres, por fim, patrocinaram as grandes empreitadas da transição à
modernidade.
Transformações sociais sucederam a partir do
século XVI e o poder antes exercido pelo sacerdotismo monárquico foi superado
pelo Direito natural oligárquico que emanou da classe social burguesa
ascendente. O espetáculo do poder, outrora centralizado, passou a ter espaço na
sociedade burguesa através de jogos simbólicos baseados numa essência comercial
de troca: votos por benfeitorias. A Formação dos Estados novos europeus
impulsionou a revisão da jurisprudência do Direito clássico no sentido de uma
ciência aplicada à razão e promoveu a reforma da Escolástica tomista em favor
da laicização do Direito. A divindade deixou de ser representada pela Coroa
monárquica para dar espaço ao antropocentrismo, enquanto que o acúmulo
insaciável de riqueza passou a ter a anuência do protestantismo, o que
justificava moralmente as empreitadas capitalistas da alta burguesia: a
metalurgia viabilizando a pólvora, a prensa tipográfica viabilizando os livros,
o monopólio comercial, a busca por novos mercados consumidores e a fuga de
meeiros e controles alfandegários viabilizando as navegações.
Milênios atrás, não antes do grande dilúvio,
livros sagrados registravam a história dos povos: Shu-King, Vedas,
O livro dos Iorubás, Mahabharata, Zaratustra, The Book of
Wisdom, Homero etc. A partir de Javeh, entidade
deística antropomórfica e exclusiva, a humanidade foi transformada numa
nova forma de moralidade, ainda vigente, que Nietzsche denunciou. Ora,
pois, a vontade de liberdade que a burguesia mercantilista tanto almejava
repercutiu na religião, inevitável e estrategicamente, e resultou numa
reforma. Na época, a renovação de valores e as ondas migratórias eram intensas
na Europa: cristãos, novos cristãos, judeus, protestantes,
muçulmanos. Ainda hoje a religião se mantém como pretexto para
derramamento de sangue, infelizmente. Um fato contemporâneo relacionado é
a intimidade entre o nazismo e Lutero. Ver "Sobre os judeus e suas
mentiras" de Lutero e "Mein Kampf" de Hitler.
O pacto de associação foi proposto e o
contrato foi celebrado entre o Estado e os cidadãos, a partir das aspirações
burguesas e num caráter civilizador Rousseniano. No século XVII, novos cristãos
que haviam feito grandes riquezas, afugentados da perseguição dos
conservadores, muitos destes prosperaram na península ibérica e migraram para
países como Inglaterra, França e Holanda. Suíça e Alemanha implantavam um
protestantismo com caráter racista, o catolicismo nestes locais permanecia tão
forte que voltou contra si próprio (M. FOUCAULT). A Europa passava por um
frenesi cultural, por uma reestruturação social e por uma onda de perseguição
religiosa. No século XVIII, dentre os acontecimentos, hão de ser destacados o
terremoto de Lisboa (cuja dispendiosa reconstrução repercutiu na independência
do Brasil), o iluminismo (que culminou na revolução francesa e independência
dos EUA) e a revolução industrial na Inglaterra.
A Alemanha recebeu os ideais de liberdade,
igualdade e fraternidade com bons olhos, na tentativa de superar os resquícios
do feudalismo e do despotismo político. O pensamento no fim do século XVIII
apontava para um desejo de libertar o homem como sujeito autônomo capaz de guiar
seu próprio desenvolvimento (G. HEGEL). Culminou com o idealismo alemão que
apoiava, por exemplo, a supremacia de Napoleão enquanto libertador e
unificador. O contexto da ascensão burguesa focava Napoleão sob uma luz de
esperança que proveria as oportunidades de uma vida justa e próspera: a luz
divina encarnada na ordem universal das ideias espinozianas. Era inconcebível
pra quem lucrava perceber estes eventos de um ponto de vista sombrio, na forma
de uma empreitada burguesa leviatânica.
A vontade de alfabetização, em virtude de um
conhecimento mais acessível, favoreceu o desenvolvimento da imprensa e da
propaganda. A classe burguesa estava no limiar da sua emancipação
política, munida de capital, no comando da máquina imperialista e com o monopólio
do comércio globalizado. O amplo acesso à informação seria uma forma maior de
liberdade? Ou pelo contrário, seria uma forma de obediência e subjugação aos
biopoderes da episteme? A satisfação de uma posição social rígida e de consumo
de insumos locais foi substituída por uma vontade insaciável de ascensão
social, de consumo de produtos estrangeiros, de posse de mais
propriedades (K. MARX). Há de se surpreender com tantas mudanças
resultantes da máquina a carvão: indústria têxtil padronizando as vestimentas,
malhas ferroviárias encurtando distâncias, emissão crescente de carbono no ar.
Cidades-Repúblicas independentes sob o poder
da burguesia moderna, produzindo bens e comercializando; do outro lado o Estado
tributário e as demais classes remanescentes. O mercado consumidor se expandira
com a globalização, a industrialização aperfeiçoara os meios de produção e
criara um espírito de desejo consumista. Já não se buscava o ouro ultramar, mas
criava-se dinheiro via instituições financeiras, através da manipulação econômica
do valor de uso e do valor de troca (P.J. PROUDHON). Foi um passo para a
transferência do poder político da nobreza monárquica para a burguesia moderna.
A ciência, o Direito, as artes e a família se tornaram trabalhadores
assalariados, meros instrumentos maquinais pagos pela alta burguesia (K. MARX;
F. ENGELS). Nasce o proletariado, que só subsiste enquanto tem trabalho e,
portanto, depende do desenvolvimento do capital.
Sim, houve um salto colossal no
desenvolvimento de novas tecnologias. A velocidade e a frequência de ocorrência
dos eventos parecem ter aumentado. A química clorou a água, propiciou uma
medicina moderna e novos materiais: o homem se multiplicou e passou a viver
mais. A física propiciou um novo entendimento do tempo-espaço e novas formas de
energia: pisamos na superfície lunar e desenvolvemos a potência destruidora das
reações solares. Porém, a burguesia parece ter se tornado a própria vilã de
suas empreitadas: estava tão forte que também voltou contra si própria. As
relações sociais e as forças produtivas se tornaram muito perigosas, pondo em
risco a ordem e a propriedade burguesa. O que fazer então? Preparar crises
cíclicas cada vez mais amplas, a fim de exterminar parte da força produtiva,
conquistar novos mercados e aprimorar a exploração dos antigos. O proletariado
absorve essa violência e sustenta o sistema numa forma de servidão voluntária
de La Boétie. Workingmen of all countries, unite!

