A conspiração para censurar a internet
“The conspiracy to censor the Internet”
18 de outubro de 2017
Os representantes políticos da classe
dominante estadunidense estão empenhados em uma conspiração para atacar a
liberdade de expressão. Sob o pretexto de combater as difamações e as notícias
falsas, supostamente controladas pela Rússia, os direitos constitucionais mais
básicos da Primeira Emenda à Constituição dos EUA estão sendo atacados.
A força política que lidera esta
campanha é o Partido Democrata, em colaboração com frações do partido
Republicano, a mídia de massa e o aparato de inteligência militar.
A gestão do presidente Trump ameaça
uma guerra nuclear contra a Coreia do Norte, promove ataques cada vez maiores
ao sistema de saúde, exige novos cortes de impostos aos ricos, deflagra guerra
aos trabalhadores imigrantes e esvazia as regulamentações de empresas e
ambientais. Entretanto, esta agenda reacionária não é foco do Partido Democrata,
que se dedica, ao invés disso, a alegações cada vez mais histéricas de que a
Rússia está “provocando divisões” no interior dos Estados Unidos.
Na mídia, sucessivas reportagens são
publicadas, uma mais absurda que a outra. A alegação de que a Rússia manipulou
as eleições estadunidenses por meio de $100.000 em publicidade no Facebook e
Twitter foi sucedida por outras reportagens frágeis a respeito da manipulação pelo
governo Putin de outros meios de comunicação.
Uma reportagem exclusiva da CNN, na
semana passada, alegou que a organização “Don´t Shoot Us” - inglês para “não
atirem em nós” - a qual a reportagem alega, sem evidências, que estaria ligada
à Rússia, buscou “promover tensão racial e disseminar discórdia” no Instagram,
Twitter, YouTube, Tumblr e até no Pokémon Go, um jogo de realidade virtual para
aparelhos celulares.
Outra reportagem da CNN, na
segunda-feira, informou que uma “fábrica de calúnias e difamações” russa estava
envolvida em postagens de comentários críticos a Hillary Clinton, como “parte
da campanha do presidente Vladimir Putin para influenciar as eleições de 2016”.
Todos os comentários negativos na mídia noticiosa e outras publicações direcionadas
a Clinton, dava a entender a reportagem, eram produtos de agentes russos ou de
pessoas ludibriadas por agentes russos.
Assim como no período do Macartismo na
Guerra Fria, o absurdo das acusações não é contestado. Elas são tomadas e
repetidas por outros meios de comunicação e por políticos para demonstrar quão
amplas as ações do perverso “inimigo estrangeiro” realmente são.
Se um objetivo tem sido continuar e
ampliar a política externa anti-Rússia, a intenção principal torna-se cada vez
mais evidente: criminalizar a divergência política nos Estados Unidos.
A expressão mais direta desta
conspiração contra a liberdade de expressão foi publicada segunda-feira em uma
coluna do Washington Post intitulada “Se a Rússia consegue criar perfis falsos
do ‘Black Lives Matter’ [inglês para ‘vidas dos negros importam’] quem mais
fará?”, da ideóloga anticomunista Anne Applebaum.
Resposta dela: o povo americano.
“Consigo imaginar múltiplos grupos, muitos deles americanos orgulhosos, que
podem querer manipular um espectro de contas falsas durante um tumulto ou
desastre para aumentar a ansiedade ou medo”, ela escreve. Ela alerta que
“grupos políticos – de direita, de esquerda, tanto faz - irão entender
rapidamente” como usar redes sociais para disseminar “desinformação” e
“desmoralização”.
Applebaum investe contra todos aqueles
que buscam anonimato na internet. “Estamos no melhor momento de todos contra o
anonimato, ao menos contra o anonimato em fóruns públicos das redes sociais e seções
de comentários”, ela escreve. Ela continua: “O direito à liberdade de expressão
é algo que está concedido a humanos, não a códigos de computador”. Entretanto,
o alvo dela não são “robôs” operando “perfis falsos”, mas qualquer um que,
temendo repressão do Estado ou punição injusta pelo seu empregador, queira
fazer um depoimento online anônimo. Trata-se apenas de uma amostra do que será
o caminho para silenciar a dissidência política.
Applebaum está intimamente ligada ao
alto escalão do Estado capitalista. Ela é membro de think tanks estratégicos ligados à política externa e compõe a
junta de diretores da “National Endowment for Democracy” - o “Fundo Nacional
para a Democracia” -, fundação ligada à CIA. Casada com o ex-ministro das
relações exteriores da Polônia, ela é uma feroz “falcão de guerra”. Depois da
anexação russa da Criméia, ela escreveu uma coluna no Washington Post na qual
pediu por uma “guerra total” contra a Rússia, uma potência nuclear. Ela
representa a conexão entre o militarismo e a repressão política.
As implicações dos argumentos de
Applebaum foram evidenciadas no artigo extraordinário publicado na primeira
página do New York Times de
terça-feira, intitulado “Enquanto os Estados Unidos enfrentam a desordem da
internet, a China sai fortalecida”, a qual vê favoravelmente a censura
agressiva da Internet pela China e dá a entender que os Estados Unidos estão se
direcionando para um regime exatamente como aquele.
“Há anos, os Estados Unidos e outros viam” a
“forte censura chinesa como um sinal de vulnerabilidade política e uma barreira
ao seu desenvolvimento econômico”, o
Times escreve. “Entretanto, enquanto países do Ocidente discutem possíveis
restrições à Internet e se desesperam por conta de notícias falsas, invasões de
rede e intromissão estrangeira, há chineses que enxergam uma justificação da
atuação do seu país na internet.”
O artigo ainda afirma que, enquanto “poucos
argumentariam que o controle chinês da internet serve como modelo para as
sociedades democráticas... Ao mesmo tempo, a China antecipou muitas questões
que agora confundem os governos desde Estados Unidos e Alemanha até Indonésia”.
Applebaum omite qualquer referência
aos direitos democráticos, à liberdade de expressão ou à Primeira Emenda à
Constituição dos EUA do seu artigo do Times,
que exige uma repressão sem limites às redes sociais.
A primeira emenda, que estabelece que “o
Congresso não legislará… de modo a reduzir a liberdade de expressão”, é a
emenda mais ampla da Constituição estadunidense. Contrariamente a Applebaum,
não há qualquer ressalva que isente o discurso anônimo da proteção
constitucional. É um fato histórico que
líderes da Revolução Americana e redatores da Constituição escreveram artigos
utilizando-se de pseudônimos para impedir a repressão das autoridades
britânicas.
The
Constitution does not give the government or powerful corporations the right to
proclaim what is “fake” and what is not, what is a “conspiracy theory” and what
is “authoritative.” The same arguments now being employed to crack down on
social media could just as well have been used to suppress books and mass
circulation newspapers that emerged with the development of the printing press.
A Constituição não dá ao governo nem
às grandes empresas o direito de decidir o que é “falso” e o que não é, ou o
que uma “teoria da conspiração” e o que “tem respaldo”. O mesmo argumento que
está sendo adotado agora para reprimir as redes sociais poderia ter sido
aplicado outrora para censurar livros e jornais de circulação massiva, que
surgiram com o advento da imprensa.
O movimento de censura à internet nos
Estados Unidos já está muito avançado. Desde que o Google anunciou o plano para
omitir as “sugestões alternativas” dos resultados de buscas no início deste
ano, sítios eletrônicos de liderança na esquerda acusaram queda de mais de 50%
no tráfego de busca. O tráfego de busca no Google do sítio wsws.org caiu 75%.
O Facebook, Twitter e outras
plataformas de mídia social adotaram medidas semelhantes. A campanha que está
sendo promovida em relação à atividade online
russa será usada para justificar medidas de alcances ainda maiores.
Isso está acontecendo nas
universidades que adotam medidas para dar à polícia a autoridade de vetar
eventos nos campi. Há esforços em andamento para abolir a “neutralidade de
rede” com o fim de prover às grandes empresas a capacidade de controlar o
tráfego da internet. As agências de inteligência têm exigido a capacidade de contornar
a criptografia de dados após terem sido expostas por atividades ilegais de monitoramento
da comunicação por telefones e atividades na internet de toda a população.
Os governos de países “democráticos”,
um após o outro, estão se voltando a formas de Estado policial. Da França, onde
há permanente estado de emergência, à Alemanha, que no mês passado fechou uma
subsidiária do sítio eletrônico de esquerda Indymedia, até a Espanha, com sua
repressão violenta sobre o referendo separatista catalão e a prisão dos líderes
separatistas.
A destruição dos direitos democráticos
é uma resposta política da aristocracia financeira e empresarial diante do
crescente descontentamento da classe
trabalhadora, ligada aos recordes dos índices de desigualdade social. Ela
está intimamente relacionada a uma preparação para uma grande escalada de
violência imperialista ao redor do mundo. A maior preocupação da elite
dominante é a emergência de um movimento independente da classe trabalhadora, e
o Estado está atuando para evitar isso.
Andre Damon e Joseph Kishore
Traduzido por Daniel Miyahira
Guerrazzi
Texto original em inglês, no sítio: http://www.wsws.org/en/articles/2017/10/18/pers-o18.html