quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Dourando a Pílula: Uma Empreitada na Saúde


“Gastamos muito dinheiro para tratar pessoas normais.”
Dr. Allen Frances, psiquiatra estadunidense. Líder da DSM-4 e crítico da DSM-5

“A maioria das pesquisas com câncer é uma grande fraude.”
Dr. Linus Pauling, duas vezes laureado premio Nobel de química.

“Não é mais possível acreditar em grande parte das pesquisas clínicas que são publicadas na grande mídia.”
Dr. Marcia Angell, editor chefe do New England Medical Journal (NEMJ).

“O programa nacional de câncer deve ser considerado um fracasso qualificado.”
Dr. John Bailar, integrante do instituto nacional do câncer e ex-editor da NEJM.


1) O maior comprador da indústria Farmacêutica é o Estado geralmente, e a recessão econômica global está prejudicando este negócio,
2) O comércio de sintéticos não traz lucros proporcionais ao tempo e ao investimento das pesquisas como antes o fazia,
3) Fusões entre as bigfarmas apontam para uma crise no setor farmacêutico sem precedentes,
4) Downsizing e fechamento de plantas em países em desenvolvimento indicam a tal crise,
5) população cada vez menos capacitada e pouco produtiva não cumpre com as expectativas das indústrias nos países em desenvolvimento,
6) A grande aposta das indústrias nos biológicos comprovam que sintéticos não sustentam a mesma rentabilidade de outrora, 
7) A constante regulação de mercado que as agências de governo impõe pra garantir as compras e a qualidade dos produtos afeta o bolso dessas indústrias,
8) O setor é dependente de importação, e o câmbio flutuante que varia em prol dos especuladores dificulta a aquisição e reposição de recursos materiais,
9) Há um tenebroso oligopólio de fornecimento de matéria prima e produto acabado no mercado mundial,
10) leis de patente rigorosas e protecionistas...

Seria uma lista ainda mais extensa, mas paro aqui. Isto mostra que as frases expostas no início não são fatos isolados, e me incentivam a discutir a causa raiz do problema. Associo outros fatores relacionados, por exemplo,  o fato que o Estado é, nos EUA, o maior financiador de pesquisas naturais. Médicos são apenas uma parte desta cadeia Farmacêutica bilionária, e atuam passivamente nestas decisões, que são mais políticas (Lobby) que relacionadas à saúde pública. Entretanto, toda responsabilidade recai sim sobre os prescritores, que têm o carimbo na mão e o poder de garantir a compra dos medicamentos, criando um hábito na sociedade (pra não dizer dependência) que ultrapassa o hedonismo do paciente. A sociedade médica também desempenha outra forma de poder que é o direcionamento das pesquisas científicas a consequente formação de opinião, ora com adventos tecnológicos da saúde, ora como verdades mercadológicas. Grande parte dos artigos científicos que sustentam as diretrizes médicas é patrocinada pelas mesmas indústrias Farmacêuticas que lucram com o negócio. O conflito de interesse é explícito. Exemplifico com a transição do DSM-2 ao DSM-3, que eliminou a abordagem social da psicanálise na medicina, substituindo-a pela medicina empírica ortodoxa.
Sugiro aqui algumas sugestões para sairmos desse ciclo nefasto. No caso do Brasil, há de ser considerado o nosso vasto arsenal de plantas medicinais, das drogas da floresta que herdamos de uma ciência milenar indígena, com ação terapêutica verificada através da sabedoria acumulada. E, não obstante, verificada também através da metodologia científica e publicada em revistas de alto fator de impacto. Esta é uma alternativa para prescritores aliviarem as dores de seus pacientes, sem que recorra às falácias e promessas de propagandistas. Ao negligenciar opções como esta, deparam-se tanto o prescritor quanto o paciente como reféns das rédeas mercantilistas.
Outra opção frente a este conflito, também isenta do Capital perverso, seria fomentar a indústria estatal. O Brasil inclusive praticou essa política, que é pesquisar, desenvolver e produzir através de laboratórios estatais, para que o medicamento pudesse ser distribuído de volta aos contribuintes, sem custos adicionais na ocasião da doença. Antes de o regime militar abrir a economia para transnacionais, tínhamos (e ainda temos!) laboratórios referências mundiais, tais como instituto Butantã, Fiocruz/Farmanguinhos. A população crescente em número e em longevidade exigiu essa ação do Brasil, mas infelizmente este projeto foi negligenciado por influências do grande Capital, uma vez que viram aí uma grande oportunidade de negócios. Há quem fale que o Estado não tem esta capacidade gerencial e administradora, contudo vemos sim exemplos bem sucedidos.
Ainda mantemos com excelência, contrariando todos os argumentos que a mídia nos expõe, a produção e distribuição do tratamento para HIV, por exemplo. A opção existe e qualquer um que discorde terá que aceitar a mais cínica refutação. Com frugalidade, podemos oferecer uma saúde melhor para a população, evitando o pagamento de preços abusivos e a escassez do arsenal medicamentoso, que variam conforme a livre concorrência entre os barões da droga. Ou seja, podemos considerar o bem estar social acima de interesses obscuros, interesses esses que elevam a saúde a um dos mais rentáveis negócios.


DUARTE, A. C. et al. Análise da Indústria Farmacêutica – Perspectivas e Desafios. Brasília: Núcleo de Estudos e Pesquisas/CONLEG/Senado, outubro/2015 (Texto para Discussão nº 183). Disponível em: www.senado.leg.br/estudos. Acesso em 13 de setembro de 2016.

EDISON CLAUDINO BICUDO Júnior. Produção de medicamentos no território brasileiro: Política farmacêutica e política territorial. GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 25, pp. 123 - 137, 2009. Disponível em http://www.geografia.fflch.usp.br/publicacoes/Geousp/Geousp25/Artigo_Edison.pdf. Acesso em 13 de setembro de 2016.


https://uaem.wufoo.com/forms/zmewncm1cznjbi/ Acesso em 01 de fevereiro de 2016.


John Bailar, Cancer Undefeated, 1997. http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJM199705293362206. Acesso em 13 de setembro de 2016.

PETER GØTZSCHE, Fármacos psiquiátricos nos fazem mais mal do que bem, 2016.
http://brasil.elpais.com/brasil/2016/09/20/ciencia/1474391855_558264.html?id_externo_rsoc=Fb_BR_CM
Acesso em 19 de dezembro de 2016.

ELIE DOLGIN, NIH research grants yield economic windfall, 2017. Nature, March, 30th 2017.

ROSENBLATT M., M.D., The large Pharmaceutical Company Perspective, 2017. The New England Journal of Medicine, January, 5th 2017.

Robinson S. M., The Classification of Substance Use Disorders: Historical, Contextual, and Conceptual Considerations, Review, 2016. Behavioral Sciences, August, 18th 2016.

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