segunda-feira, 20 de março de 2017

A servidão à educação de rebanho


A educação, a meu ver, pode ser vista historicamente em três períodos distintos: a antiguidade do saber sofista helenístico, que, com forte influência estoica, levou à transição medieval do saber romano cristão e a atual contemporânea regida basicamente pelos preceitos da propaganda de doutrinamento. A última educação tem uma potencia formadora de rebanho que, a partir de material direcionado e poder de persuasão, modela um exército de operários moldados como engrenagens dos meios de produção: Ora, Homo technologicus, ora Homo economicus.
A escola, assim como outras instituições, acumulou influências dos períodos antigos, conforme citei, e está em constante transformação no devir cronotópicoTrata-se de um acúmulo de saberes que tece uma relação de poder entre a instituição e a sociedade, e entre o portador do saber e o aprendiz (jovem ou adulto). Ora, os interesses das classes dominantes tem um peso grande nas decisões pedagógicas e educacionais de um Estado. Além, é dever dos cuidadores, conforme o disposto na constituição do Estado, manter o menor matriculado em escola exclusivamente reconhecida pelo sistema, que atenda rigorosamente às diretrizes curriculares estabelecidas pelas partes interessadas.

Não critico o sistema educacional, mas exponho o contexto histórico e os interesses envolvidos neste nobre tema. Haja vista os avanços tecnológicos, quando comparado ao pretérito, uma maior qualidade de vida do tempo presente é inegável, porém, o bônus de uma minoria privilegiada neste processo trouxe um ônus para uma maioria desassistida. Nitidamente, a população global é composta por uma numerosa massa de proletários e por uma minoria de patrões, ambas as partes vivendo numa desigualdade social que culmina em violência.
Nasci homem, mas sou filho de Pandora e ou de Eva, logo expresso a gineco-histeria,  aqui representada pela excessiva curiosidade de respostas e a patológica cobiça pelo saber. A discrepância entre classes sociais é algo normal da nossa espécie? Tenho esperança que não. A ciência e sua tecnologia direciona a sociedade rumo ao progresso realmente? Tenho esperança que sim. Por mais contraditórias que pareçam ser as minhas esperanças diante da realidade, mantenho-as assim como a matriarca Pandora as manteve, pois quem as perde é capaz de atuar nas piores atrocidades imagináveis. Hei de invocar as ninfas em suas funções maternas, a fim de prover a proteção necessária a um mortal ressentido por experiências traumáticas, condicionado ao medo desde a tenra idade, entretanto egoísta na vontade de viver. Os medrosos, sobretudo destes que atuam numa posição predominantemente edipiana, vivem mais em virtude da excessiva cautela. Já os curiosos, se não empregar a sua curiosidade na empreitada de um saber racional, podem morrer prematuramente em consequência da excessiva exposição aos riscos.
modus operandi que promove este naipe de progresso, doravante denominado capitalismo, liberalismo, social democracia etc., transmite uma explícita mensagem negativa à sociedade, por meio da fome, do frio, da dor e de catástrofes ambientais. Os ruídos que a mídia propaga ad nauseam à massa estão repletos de ruídos que causam interferências de leitura, portanto uma perversidade da comunicação. Estamos na era digital, na liquidez pós-moderna, ao alcance de informações imensuravelmente abundantes, disponíveis em rede global de comunicação, com acesso amplo e instantâneo, mas nota-se que tal ferramenta se torna objeto desfavorável ao sujeito aprendiz. Havemos de aplicar um filtro de bom senso, com juízo e crítica, naquilo que passa pela mídia informatizada.
Ora, pois a propaganda enquanto formadora de uma opinião pública tem seus conflitos de interesses que incidem diretamente na proposta da educação. A primeira com uma finalidade originalmente mercadológica e a segunda com fins humanísticos, tais como aquisição do saber, capacitação do sujeito e promoção de sua liberdade e igualdade social. Na escola, a promessa de ideias a fim de atingir o desejo do receptor, ora com interesses comerciais, ora políticos, deve ser minimizado. A mensagem deve encantar o aluno pela beleza intrínseca do saber, e não pela persuasão sistemática e oportunamente direcionada.

domingo, 19 de março de 2017

IDEIA FORMADA, LETRA DE FORMA, LEITOR INFORMADO



O canto da sereia, o douramento da pílula, métodos que encantam e condicionam a gente. A manipulação da sociedade, dos primórdios do sofismo helenístico à contemporânea programação neuro-linguística, entra como pauta na seguinte abstração de ideias.
A Ilustríssima - Folha de SP - de 19 de março, está com conteúdo muito interessante sobre questões sociais. Apesar de criticar o medo induzindo mais medo, há boas análises em minha opinião, principalmente do indiano Pankaj Mishra e do francês Marcel Mauss. Pegam os registros do pretérito, relacionam com o presente para prever o futuro. Depois da guerra fria encerrada, criou-se uma expectativa social que foi atendida a uma minoria, frustrando a maior parte da sociedade globalizada. Culminamos na eminência dum Trump e na consequente iminência doutra guerra nuclear. Ocorrências de violência pontuais ocorrem mundo afora desde sempre, ininterruptamente, mas algo catastrófico pode ser deflagrado por um evento inesperado qualquer. Resumindo, levanto esses dois pontos pertinentes que formam um ciclo de retroalimentação crescente e perigoso.

(1) A pessoa frustra-se por não receber aquilo que lhe foi anunciado, sente-se ameaçada diante da desvantagem, culpa uma das partes envolvidas, torna-se radicalmente intolerante e apega-se à promessa da outra parte;
↑↓
(2) A promessa salvadora dessa outra parte, geralmente demagoga e agressiva, por sua vez, obviamente não se realiza e a pessoa retorna a seu estado de frustração, mas numa intensidade muito maior.


Exemplo de promessas:

·         In hoc signo vinces. Constantino I;

·         Progresso, bem-estar social e qualidade de vida com a industrialização, laissez-faire e liberalismo;

·         O Estado democrático de direito militarizado é o apogeu da política e da segurança pública.

Exemplos de agressão frutos de frustração ameaçadora:

·         Crise do feudalismo baseado no clero e a reforma religiosa, perseguição aos protestantes e aos judeus;

·         Crise pós 2a rev. industrial séc. XIX – XX, quebra da bolsa, WWII e o holocausto;

·         Crise do sistema jurídico policial e a prática do tribunal popular, colapso prisional e perseguição fruto da opinião popular.

E, se esse textão ameaçar a minha reputação ou me frustrar por destruir minha confortável farsa, abandono o grupo de fulano, termino a amizade de ciclano, deixo de seguir beltrano. Tá muito fácil conseguir o meu mimo. Hei de ser sempre atendido!
Ora, pois, é sabido que o capital transmite uma clara mensagem à sociedade por meio da fome, do frio, da dor, que atingem aqueles atrás da coxia, que você, da plateia, não percebe entretido com os ruídos que a mídia propaga para interferir a leitura e compreensão da realidade.

quarta-feira, 8 de março de 2017

WELFARE STATE NOWADAYS: O Panóptico e seus conflitos de poder


Tenho minhas preocupações como consequências das minhas experiências, agenciamentos do meio onde vivo, de fatores idiossincráticos e genéticos. Portanto tento, enquanto agente participante da preservação do planta, entender quais são as causas das preocupações e elaborar possíveis maneiras de solução. Pois bem, vou expor minha leitura do ambiente onde passo mais tempo no dia a dia, no meu trabalho, pois a maior duração do dia se dá neste tipo de ambiente, nesta específica amostra representativa de comunidade.

Entendo que a preocupação na preservação do planeta, ou seja, o ambiente que hospeda a coletividade, que provê meios para o convívio de espécimes, envolva uma leitura política e social. Somos humanos e, portanto, não há meios para discussão da preservação do planeta sem que a leitura seja direcionada do ponto de vista político, social, econômico: eis as relações de poder implícitas nas minhas maiores preocupações.

Nota-se, nos últimos séculos passados, uma superação das iniciativas privadas sobre a participação social. Traduzindo em outras palavras, as instituições patronais ditam as regras das atividades, condicionando a majoritária parcela da sociedade, os operários, a uma força monstruosa. As relações humanas são amplamente reguladas pelo Estado, cuja representação se dá por órgãos privados de interesses particulares escusos.

Cabe aqui ressaltar o contexto histórico das relações sociais. O conceito de operário, na sua definição original do próprio Marx, permanece atual. Além, a crescente dominação da burguesia nas esferas de poder, sob a égide do Estado, atinge uma proporção pouco saudável ao bem-estar social.

Os conflitos de interesses, no decorrer do desenvolvimento deste modelo político e econômico, tornaram-se insustentáveis dentro da proposta do capitalismo neoliberal globalizado. Seja pelo fracasso das políticas de esquerda, pela liquidez baumaniana, pelo enfraquecimento das religiões tradicionais, pelas relações inevitáveis de empoderamento foucaultiano ou outras formas possíveis de interpretação.

As ferramentas propostas pela política do bem-estar social, ou social democracia, não suportaram a força do capital, que avassala como um rolo compressor? A social democracia foi mais um desses discursos sofistas de demagogia política, que encanta e controla as paixões da sociedade? Também cabem aqui diversas interpretações acerca das causas possíveis. O fato ocorrido como efeito, claramente, foi o padecimento deste modelo. Expirou na tenra idade sem testemunhas de seu sucesso, haja vista que não durou um século.

Não pretendo limitar a abordagem na teoria longínqua da torre de marfim. Aproximar-me-ei, portanto, da prática através de exemplos vivenciados por mim. A seguir, descrevo minha percepção limitada, porém contextualizada, da realidade subjetiva de uma empresa de iniciativa privada, prestadora de serviços de pesquisas clínicas à indústria de medicamentos, doravante denominada CRO. Não descreverei os cargos, mas relacionarei as formas de saber e poder nas seguintes situações:

Situação 01: O gerente da Tecnologia da informação, aquele que obteve um certificado de qualificação técnica para tal, possui o poder privativo de vigiar e punir o pessoal através do monitoramento de dados: o moderno panóptico de Bentham! Além, ele é o fornecedor do canal de comunicação, a internet, e dos sistemas que evidenciam o trabalho desempenhado pelo pessoal. Possui acesso privativo e irrestrito ao banco de dados da empresa, o valorizado big data, cuja segurança é sua responsabilidade. Eis uma poderosa pessoa no ambiente corporativo, o rapaz do TI, que manipula diretamente o comportamento dos indivíduos. Isenta-se das ameaças por não reportar suas atividades a uma chefia, por acumular em si atividades vitais da CRO e por ser o “único” a ter o conhecimento relacionado.

Situação 02: O gerente de projetos, aquele que intermedia as relações entre os clientes e o pessoal, no que tange as negociações de metas e entrega de resultados, possui o poder de ser o meeiro entre o patrocinador e os monitores operários. Isenta-se das ameaças porque, através da posição hierárquica, transmite aos subordinados – monitores, assistentes, analistas etc. – qualquer ocorrência que se caracterize como imprudência ou imperícia. Vejo-o como uma figura de competência mais política que técnica, que promove seu sucesso através de uma boa relação social e boa capacidade de comunicação, intervindo no momento oportuno através de persuasão e perspicácia. Possui a responsabilidade da resolução de problemas, dentre outras, contudo um descuido pode arruinar um projeto ou, quiçá, a viabilidade do negócio. Não é uma posição para qualquer um.

Situação 03: O proprietário, aquele que investiu ou herdou o negócio, mantem-se no trono. Deve transmitir a imagem de autoridade íntegra e intocável na CRO. Ele simboliza o espírito da empresa na caricatura do rei, pois exibe sua posição suprema através do espetáculo, da exibição, das demonstrações paroxísticas do poder. Pouco importa para o contexto as outras competências subjetivas desta figura.

Situação 04: O monitor, aquele que executa de forma braçal as atividades, incorporado no operário de Marx, não obstante a minha posição nesta CRO, é a última engrenagem desta máquina. Assume riscos de todos os lados e acumula em si a responsabilidade de reportar os resultados a todos os envolvidos. Há de ter vasto saber técnico, alta capacidade de suportar conflitos e de administrar múltiplos assuntos concomitantemente. Certamente, numa fatídica ocorrência indesejada, o monitor será o acusado no tribunal inquisitório da CRO e, por ser o último da hierarquia, será o objeto cuja punição livrará os demais envolvidos. O monitor é o sujeito exposto, que será constantemente cobrado pelos resultados e penalizado por qualquer erro. Nada além da sua própria postura, segura de si, irá garantir o sucesso nos diversos canais e entre os receptores envolvidos, haja vista que as comunicações da pesquisa clínica são repletas de ruídos.

Figura 01
O setor regulador sanitário, no qual se enquadra as pesquisas clínicas, justifica sua existência através da existência do setor regulado – a CRO, por exemplo. Essa relação é mantida com exagerado rigor de poder. Há, de um lado, o Estado policial que vigia, julga e pune – outro exemplo moderno do panóptico de Bentham; do outro lado, há a iniciativa privada, que detém o potencial de produção de materiais, oferta de serviços, contribuição fiscal e provimento de alocação do operariado. Entre eles, há o poder invisível e não normatizado dos lobistas, os meeiros de interesses, os caras da mala preta. 

O Estado age com imprudência e negligência, neste âmbito, pois se isenta enquanto aparato recolhedor de impostos, com finalidade de distribuir à sociedade e enquanto instrumento provedor dos direitos básicos constituídos. Ora um balcão de negócios, ora agente estelionatário, o Estado de direito social democrata existe somente numa teoria sofista, no naipe simbólico de uma quimera, pátria-mãe salvadora, que adotou os filhos vulneráveis e aterrorizados com as ameaças de um iminente caos desgovernado.

A verdade, que outrora fora publicada, está caducando e se transformará em mentira, finalmente. O peso das falácias lançadas pela mídia superou a manipulada ignorância popular. Qual será o próximo modelo a ser lançado pela cúpula inescrupulosa, no conluio dos poderosos detentores do capital? Não há acordo que sirva a um lado somente! Servidão voluntária não é opção! Operários do mundo, uni-vos!

Encerro este texto ratificando meu propósito. Pretendo atuar em mudanças necessárias para a manutenção das condições humanas, tanto de convívio, nas trocas, quanto na simbiose com o meio. A maior chance que o planeta tem de ser preservado depende de transformações na humanidade, de reinvenções da essencialidade do ser, do verdadeiro progresso.


sexta-feira, 3 de março de 2017

Tratado da Felicidade Plena


Utilizamo-nos do poder inerente à nossa posição para desempenhar os fins que as nossas experiências agenciam. Interessa-me, a todo o momento, certificar que a prática do meu poder ocorra no ótimo desempenho, entretanto ocorra de maneira que não ultrapasse meu juízo daquilo que é justo, belo e correto. Haja vista que saber é poder, para tal, as experiências devem ser selecionadas e normatizadas dentro do rigor próprio do ser, para a aquisição de saberes e valores, de preferência, interessantes.

As experiências tornar-se-ão aproveitáveis somente se digeridas no momento e no tempo que elas precisam. A duração e a posição são elementos primordiais da razão. Há de se precaver da inata tendência de vigilância e punição que aplicamos a nós mesmos diante de uma culpa adquirida. Identifique, ordene e relacione qualquer sentimento de culpa que venha a te injuriar para que as causas sejam tratadas e tua razão permaneça incólume. Vigia-te neste tocante, pois a paixão, que carrega uma carga de ressentimentos e culpas, é essencial ao ser.

Assim, desta forma acima discorrida, a potência de ser é mantida num patamar sadio perante as bases filosóficas da inteligência. Busca-te absorver experiências selecionadas no máximo rigor da razão, busca-te agenciar ideias fundamentadas nos princípios da lógica e da ética, busca-te maquinar belas empreitadas nas quais razão e paixão se equilibrem em harmonia. Eis as diretrizes da minha filosofia.

O devir é uma grandeza filosófica e está relacionado à lógica, à religião, ao homem. O que seria o devir? O que há de vir a ser? Pois, o acaso é primordial desde que os eventos ocorram nas condições propícias, ou seja, na condição que compõe a situação causa das ocorrências experimentadas. Não está ao alcance do sujeito envolvido determinar tal condição a todo o momento, haja vista que os fatos são efeitos de causas primordiais, tais quais a posição e a duração, quantidade e qualidade, potência e ativação, razão e paixão, massa e energia, entre outras dualidades que compõem nossas limitações enquanto humanos. Verdade ou mentira?

A CONSCIÊNCIA DO SER TRAUMATIZADO


Hoje de manhã, 03 de março, abri a página principal da revista Nature e me deparei com um artigo cujo tema me despertou interesse. O autor Wei Jie Yap, singapurense, propôs-se a demonstrar, de uma forma empírica, uma hipótese já testada por outros: A ameaça é causa de efeitos psicológicos desfavoráveis. Seu artigo intitulado “Physiological Responses Associated with Cultural Attachment” apresenta um resultado que me induziu a elaborar as seguintes ideias.

O humano é uma espécie vulnerável e desprotegida na fase infantil e a relação com seu cuidador é primordial ao desenvolvimento social e ao preparo à reação em situações de ameaça. A falta de relações com cuidadores que tragam segurança na infância conduz o sujeito a buscar outras fontes não humanas de segurança na fase adulta, como figuras divinas, ídolos e personagens fictícios (Ashley Cooper, A., Askhmata) (Yap, W.J., 2017).

A linguagem de uma cultura representa os aspectos de parentesco e emocionais do povo e a nação torna-se um território de proteção, assumindo um papel maternal ou paternal onde seu povo ancora uma identidade de filho, cuja representação iconoclasta pode ocorrer por meio de bandeiras, partidos, deidades, ora se relacionando com um grupo social, ora com uma representação abstrata.

Em caso de ameaça, o sujeito prende-se a identidades de segurança vinculadas a símbolos culturais, portanto a cultura de um povo constitui um domínio predominante da consciência e a nostalgia disto pode combater o medo. O conceito foi demonstrado pelo autor a partir de uma avaliação de resposta ao estresse, relacionando o aumento da liberação de noradrenalina na amídala, como possível mecanismo de resposta à ameaça, com a cultura do sujeito (Yap, W.J., 2017).

A descarga noradrenérgica aumentada excessivamente é relacionada com uma posição psicológica patológica, como, por exemplo, distúrbios afetivos, comportamentais, estados de ansiedade, depressão, doenças neurodegenerativas, entre outros que incidem com frequência crescente na sociedade moderna. Sinais e sintomas como sudorese, taquicardia, hipertensão arterial, distúrbios gastrointestinais e sexuais são efeitos observados.

Tete a tete, em se tratando de uma recompensa prazerosa à descarga simpática que nos submetemos, porventura intencionalmente, há de se considerar a qual nível de exposição aos estímulos não sofreremos injúrias indesejáveis, senão te acusarei de acrasia. Agenciar-nos-emos em empreitadas que valham o risco assumido.

O processo evolutivo conduziu os primatas a aprimorar a comunicação, a coletividade, o comprometimento social, o vínculo afetivo de parentesco. Tais fatores propiciaram um ambiente favorável à perpetuação da espécie diante de um contexto repleto de ameaças, onde o medo afetava o ser constantemente. Eis o modo que a natureza caracterizou a consciência de um ser destinado a conhecer a inteligência, a paixão e a guerra.

Pois bem, enquanto ser dotado de razão, capaz de identificar e relacionar objetos e ocorrências ao alcance da experiência, a capacidade inata de enfrentar esta concepção de realidade parece estar em pleno desenvolvimento evolutivo. A evolução da espécie, que ocorre de forma fragmentada, na vastidão continental do planeta, resultou em estados evolutivos convergentes à melhor forma adaptada, mas que partem de diferentes genomas.

Descendemos de espécies diferentes que cruzaram entre si ocasionalmente, por alguns milhões de anos, e que culminou no ser humano. Obra divina? A nossa existência é fruto de um fluxo gênico intenso, que gerou raças bem distintas nos seus fenótipos e genótipos. Evidências arqueológicas fundamentam esta dedução científica e, apesar de crer em Deus, peço perdão aos criacionistas, porque antropologia não se trata de mística.

A idiossincrasia da nossa capacidade intelectual é um residual evolutivo, mas que tende a um padrão comum. Ora, cada indivíduo possui um arsenal genético e uma carga de experiência adquirida que o coloca em posição singular. Diante de uma troca, mais vemos discordâncias que concordâncias e não reagimos tão bem a diferenças quanto a semelhanças. Trata-se de outro residual, que relaciona diferenças a uma potencial ameaça visando à preservação (Santos, M.F., Filosofia e Cosmovisão).

Possuímos uma agressividade inata que, se não controlada por uma posição mental minimamente sadia durante a infância, torna-se destrutiva na vida adulta. Tendemos, inconscientemente, a nos injuriar, o que faz do trauma um efeito instintivo. Freud marcou a mudança contemporânea desta abordagem, tanto nas ciências naturais da psiquiatria quanto nas ciências sociais da pedagogia. Outrora Adam não tinha infância, agora ela é a causa dos seus problemas (Wertham, F. 1949). Isso explica os porquês da criança de hoje ser supervalorizada, repleta de direitos e participação social?

Haja vista o abordado acima, que se limitou a minha capacidade e ao contexto cronotópico, proponho uma finalidade heterotélica ao tema com a seguinte conclusão. Nesta caminhada que nós humanos sabemos pouco acerca do tempo pretérito, ainda que menos saibamos sobre o futuro, resta-nos a breve duração do presente para conjecturar a respeito do ser. Partindo de diferentes pontos, havemos de atingir um entendimento claro e pleno da ordem universal das ideias, através de um processo de melhoria continuada e sustentável da espécie (Spinoza, B. Tratado da Inteligência).