O TEXTO, DE AUTORIA DE CESAR BRAVO, FOI CENSURADO
NO FACEBOOK, MAS TRANSCRITO E REPUBLICADO INTEGRALMENTE AQUI, COM A DEVIDA
AUTORIZAÇÃO DO AUTOR.
DISTOPIA HARDCORE
Winston acordou e ligou no noticiário da TV. Seu novo líder continuava
nomeando capitães. Sorridente,
o advogado serviu um pouco de ração a Ariano, seu gato. Em seguida, um desvio
ligeiro do beijo matinal da esposa que estava seca como um taco de giz há 150
anos.
Winston arfou o ar livre e oxigenado da rua. Era bom ser ele, finalmente
era bom poder ser ele mesmo.
Quanto ao veadinho da esquina, ele andava assustado. O pai dele, outro
veado (obviamente covarde demais para se assumir uma bicha), também andava
ausente. A mãe gazela, uma pobretona metida a comunista; até aquela vaca
ressentida estava quieta.
Silêncio era bom, muito melhor que ouvir Pablo, Rihanna, Beyonce ou
qualquer outra besteira pansexuada.
O país estava mudando, entrando nos eixos. Os de baixo embaixo, os de
cima em cima, exatamente como Deus Nosso Senhor havia feito. Amém.
Winston arfou mais ar puro e oxigenado e atravessou a rua. Havia um gato
morto bem na metade do caminho. Winston sorriu, mas não fez piada alguma, não
em voz alta, afinal, falar de cor do bicho ainda era crime (havia projetos
"igualitários"? Claro que sim, mas nada conclusivo até o momento).
Continuou andando, assoviando uma música gospel medíocre e contendo os dentes
que ameaçavam sorrir até saírem da boca.
O mundo cheirava como novo. A manhã brilhava, as minorias ocupavam a
menor parte do espaço. Era um bom mundo. Era uma boa novidade.
Antes de chegar ao outro lado, dois garotos exalando Deca Durabolin
pelos poros o notaram. Um deles riu, o outro retribuiu com um riso mais largo.
Chegaram mais perto, e só então Winston notou o único borrão daquela manhã
gloriosa. Prometeram policiamento e combate ao crime, mas o que havia eram
milícias. Pequenas, médias e enormes. Prometeram o fim do tráfico, mas o que
ocorreu foi uma redistribuição dos tóxicos por dissidentes das forças armadas.
Contrabando. O bê-á-bá das ditaduras.
Os rapazes tinham armas de fogo, claro que sim. Tudo legalizado. Eram
parte de uma pequena milícia. Eleitores revoltosos do capitão. Onde estavam os
empregos prometidos? O novo mundo? A nova pátria? O jeito era pegar o que
pudessem, na marra, nas ruas, de quem marcasse touca. Lei do mais forte.
Eles nem precisaram sujar as mãos.
Morre um inocente ou outro, fazer o que? Nem dinheiro o filho da puta
tinha na valise.
O sol continuava radiante quando a escuridão perpétua tomou conta do
mundo de Winston.
Um bom mundo? Claro que sim...
Cesar Bravo é um escritor brasileiro.
Nascido em Monte Alto, São Paulo, em 1977, e formado em ciências farmacêuticas
(é farmacêutico de formação, que faz da palavra
o ingrediente ativo do suspense e do medo - um amargo e eficaz remédio). Cesar
é autor e coautor de contos, antologias, romances, enredos, roteiros e
blogs. Livros publicados: Além da Carne, Ouça o que eu digo, Navio
Negreiro, Caverna de Ossos, Calafrios da Noite, Ultra Carnem, entre
outros.
Mais informações
em: http://www.facebook.com/cesarbravoautor


