segunda-feira, 22 de outubro de 2018

DISTOPIA HARDCORE

O TEXTO, DE AUTORIA DE CESAR BRAVO, FOI CENSURADO NO FACEBOOK, MAS TRANSCRITO E REPUBLICADO INTEGRALMENTE AQUI, COM A DEVIDA AUTORIZAÇÃO DO AUTOR.


DISTOPIA HARDCORE

Winston acordou e ligou no noticiário da TV. Seu novo líder continuava nomeando capitães. Sorridente, o advogado serviu um pouco de ração a Ariano, seu gato. Em seguida, um desvio ligeiro do beijo matinal da esposa que estava seca como um taco de giz há 150 anos.

Winston arfou o ar livre e oxigenado da rua. Era bom ser ele, finalmente era bom poder ser ele mesmo.

Quanto ao veadinho da esquina, ele andava assustado. O pai dele, outro veado (obviamente covarde demais para se assumir uma bicha), também andava ausente. A mãe gazela, uma pobretona metida a comunista; até aquela vaca ressentida estava quieta.

Silêncio era bom, muito melhor que ouvir Pablo, Rihanna, Beyonce ou qualquer outra besteira pansexuada.

O país estava mudando, entrando nos eixos. Os de baixo embaixo, os de cima em cima, exatamente como Deus Nosso Senhor havia feito. Amém.

Winston arfou mais ar puro e oxigenado e atravessou a rua. Havia um gato morto bem na metade do caminho. Winston sorriu, mas não fez piada alguma, não em voz alta, afinal, falar de cor do bicho ainda era crime (havia projetos "igualitários"? Claro que sim, mas nada conclusivo até o momento). Continuou andando, assoviando uma música gospel medíocre e contendo os dentes que ameaçavam sorrir até saírem da boca.

O mundo cheirava como novo. A manhã brilhava, as minorias ocupavam a menor parte do espaço. Era um bom mundo. Era uma boa novidade.

Antes de chegar ao outro lado, dois garotos exalando Deca Durabolin pelos poros o notaram. Um deles riu, o outro retribuiu com um riso mais largo. Chegaram mais perto, e só então Winston notou o único borrão daquela manhã gloriosa. Prometeram policiamento e combate ao crime, mas o que havia eram milícias. Pequenas, médias e enormes. Prometeram o fim do tráfico, mas o que ocorreu foi uma redistribuição dos tóxicos por dissidentes das forças armadas. Contrabando. O bê-á-bá das ditaduras.

Os rapazes tinham armas de fogo, claro que sim. Tudo legalizado. Eram parte de uma pequena milícia. Eleitores revoltosos do capitão. Onde estavam os empregos prometidos? O novo mundo? A nova pátria? O jeito era pegar o que pudessem, na marra, nas ruas, de quem marcasse touca. Lei do mais forte.

Eles nem precisaram sujar as mãos.

Morre um inocente ou outro, fazer o que? Nem dinheiro o filho da puta tinha na valise.

O sol continuava radiante quando a escuridão perpétua tomou conta do mundo de Winston.

Um bom mundo? Claro que sim...



Sobre o Autor: 
Cesar Bravo é um escritor brasileiro. Nascido em Monte Alto, São Paulo, em 1977, e formado em ciências farmacêuticas (é farmacêutico de formação, que faz da palavra o ingrediente ativo do suspense e do medo - um amargo e eficaz remédio). Cesar é autor e coautor de contos, antologias, romances, enredos, roteiros e blogs. Livros publicados: Além da Carne, Ouça o que eu digo, Navio Negreiro, Caverna de Ossos, Calafrios da Noite, Ultra Carnem, entre outros.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Temas: Especulações para Investir na Bolsa e Conformismos para Doutorado em História



Jair, o cavaleiro templário do Bispo Edir Macedo, que levará a nova Cruzada à Venezuela na guerra contra o mal, financiada pela Taurus, que valorizou mil% com acionistas de Wall Street. Latam é o Oriente Médio da vez. Ouro negro em nome de Deus, banhado a sangue 18 quilates, jorrando do dilacerado povo brasileiro no quintal do tio Sam. Lula é demônio à la Bin Laden. Maduro é caudilho à la Kadafi, ONU e Papa que não se intrometam. A grande mídia cria a hidra e o Juiz Moro decepa a singular cabeça peçonhenta para que a idolatria delirante do rebanho pare rodovias e desenterre Hitler.
Tríade primordial infalível: sentimento>significado>autoridade. Sinta medo e ódio, signifique nação e Deus, autorize a barbárie. Paixão e Doença, os gregos dão o mesmo nome para ambos os conceitos: “Pathos”. Se houver significado excessivo ao sentimento paixão, torna-se autorizado à doença. Pathos, de empatia ou de patologia.
Brasil acima de tudo, Deus acima de todos. Glória a Deux. Vote no Messias, Jair 17.

A História é uma gangorra disciplinada: “sentido. esquerda/direita. volver!”
Nosso sangue é a força motriz que a alimenta e, como recompensa, ela dá um significado à nossa servil existência. Alistamento militar, Título de Eleitor, Impostos e IBGE. Uma vida é Estatística com CPF ou um número com ansiedade.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Roger Waters, Bolsonaro, PT e Outros Formadores de Rebanho


Roger Waters é poderoso, pois tem a massa consigo. Cria facilmente histeria coletiva e, se político, elegeria-se comandante do universo.
Diziam das letras de MPB que eu ouvia na infância, carregadas de críticas explícitas à organização de poder vigente na época, que eram escritas para enganar o censor. Na minha cabeça, a dúvida “Como não perceberam? A mensagem é óbvia!”. A resposta está vindo a tona.
“Orexis” é vital sob intensidade controlada, pois, quando se torna escassa ou excessiva, conduz o ser a movimentos egoísticos, de pulso de morte e ou aniquilação, por vezes de coisas que nem sequer transmitam ameaça. Eis que o poder atua como tônico de apetite, cujo clímax é uma das recompensas da Política, controle maior do poder público.
Poderia o censor liberar propositalmente conteúdos a fim de criar pretexto? Ameaça comunista era “fake” e é “fake”. Cria-se o monstro, constrói-se uma ameaça a ser combatida a fim de gerar medo, prometem a salvação para justificar o uso da força, com mobilização e obediência das massas ao movimento histérico de ataque às diferenças. Papinho de filosofia prolixa e mercadológica de era pós-verdade, auto-verdade etc. Publicação de “fake news” é parte do nosso comportamento - a parte sádica - muito usada por tiranias e caudilhos formadores de rebanho.
Ontem fui no Roger Waters e me rendi à emoção. Identificado esse comportamento  humano do Waters, de arrebanhar fãs em nome de sua antiga causa, da onda fascista que ameaça a paz mundial, cada lágrima que chorei reforça um sentimento de fracasso, efeito do espírito humanista que me cobra perfeição.
Estou buscando um equilíbrio saudável entre empatia frugal e razão prazerosa, que, pela óbvia contradição entre os objetos e as qualidades e entre as duas qualidades, mostra-se impossível.
Tento abranger ao máximo o ambiente antes de sacar a câmera e apontar a lente a um quadro para disparar uma fotografia. Tirar foto ao léu aleatoriamente seria agir do fim ao meio, retroceder às escuras. Fechar o ângulo ou aumentar o “zoom” possibilita uma profundidade, especificidade, desde que tenha ciência do cenário amplo, altivo. Primeiro estabelece-se o objetivo, depois o identifica-se o objeto. Primeiro define-se o destino, depois planeja-se qual caminho percorrer. Por último, atua-se ordenando e relacionando o contingente com o continente. A finalidade desses exercícios pode estar num bom diagnóstico do sujeito, numa boa avaliação do objeto, na constância da sabedoria ou, destarte, na felicidade.