
Millôr, você ameaçou se exilar. Fui-me e hei de não voltar.
(A Werther, onde quer que Goethe o tenha levado)
Gosto de pôr meus valores à prova e assim evoluir meu raciocínio. Desculpem-me pelo meu jeito provocativo. Se alguém tomar algo como injúria, foi apenas um mal entendido. A comunicação é falha aqui mais por limitação do canal que do emissor ou dos receptores e por isso o meu esforço em transmitir a mensagem com clareza.
- Serei ora seu superego, ora seu chefe. Chame-me de consciência, de moralidade, de disciplina etc.
- Chamar-te-ei de Deus se assim preferir. Quero aprender contigo e compartilhar minha opinião.
- Pode falar. Vive numa democracia e há de ser livre, igual, fraterno. Irei te ouvir.
Num mundo neurótico com prazos e metas, onde uma sistemática vigilância é lançada sobre a vida, o ser que era uma pessoa se transforma num indivíduo, ser castrado, adestrado e egoísta. A velocidade desumana a qual somos submetidos impede que as informações sejam digeridas e absorvidas, tornando-nos instrumentos maquinais integrados a um jogo doentio de troca e vantagens. Jogo que no meio dele vale mudar as regras, quem está à frente se torna imune e ganha quem acumula mais.
- Você não pode pagar, mas financiamos seu produto e iremos vigiá-lo para sua própria segurança.
- Mas eu não preciso do produto e prefiro não pagar por este serviço de rastreio.
- Tudo bem. Sendo assim, seus riscos aumentaram, você está mais vulnerável e seu débito é maior.
É uma forma de pensar que ainda está forte a de alguns, portanto predomina. Mas não quer dizer que seja a única forma, muito menos que seja a melhor. Mas façamos nossa parte: ouço tudo e respeito todos. Tento manter esse comportamento mesmo quando porventura não concordo, mas nem sempre o superego garante a minha razão.
O stress crônico do nosso sistema supernervoso lança cortisol em excesso, levando à degeneração neural, ansiedade, depressão, vícios e mais stress, num ciclo patológico.
- Já entregou sua meta individual? Atingiu sua nota individual? Conquistou seu título individual?
- Meus planos são outros, minhas preocupações são outras, as conquistas estão em outro lugar!
- Tudo bem. Você será excluído do mercado. Terá sua reputação denegrida. Será marginalizado.
Maldito senso comum contemporâneo de universalização de valores, que extingue as identidades locais em nome da bendita globalização. Pois o que é válido num contexto ou adequado a um povo há de ser estendido sem critério a todos? A pergunta parece esdrúxula ao indivíduo Homo economicus. A resposta parece óbvia a minha pessoa. Há questionamento parecido no tocante à ciência. A velocidade da informação é estonteante e as ambições são crescentes, pois deve-se alcançar a maior distância num menor tempo, além da capacidade humana. Esse excesso é esgotante e, na impossibilidade de recomposição emocional, desabamos sobre muletas, vícios ou outras válvulas autodestrutivas de escape.
- Esse ano batemos novamente o recorde de faturamento. Somos o maior da região.
- Gosto daqui, fiz com vontade e me orgulho do resultado. Então teremos um descanso, finalmente?
- Você terá mais trabalho. Ano que vem, quero ainda mais! Vamos ampliar a margem, as fronteiras!
Repensar alguns conceitos e ver outras formas de realidade, acho interessante, por exemplo: a reciclagem de ideias, a reinvenção de si, o recomeço imprevisível, a contemplação da frugalidade, o desafio pessoal de superação, o desnovelamento de amarras morais, o questionamento de paradigmas e da episteme. Sim, um exercício subjetivo e sóbrio a fim de fortalecer o nosso ânimo enquanto vontade de potência. Sem ópios do tipo etanólico, canabinoide ou xamãnico. Devemos agradecer pelos sentidos que Ele nos proveu e fruir a vida na sua plenitude, sem fuga a artifícios ou panaceias. Havemos de comemorar a alegria e havemos de sofrer as tristezas: isto é liberdade.
- Trabalhou tanto que parece exausto. Parabéns! Vamos comemorar com bebidas, fumos, comidas?
- Prefiro me retirar na natureza. Vou ao campo; caminhar a ermo, olhar o vazio, ouvir o silencio.
- Indivíduo estranho e antissocial! Não está inserido na realidade! Incapaz de suportar a rotina!
Os deleites mundanos que nos dão prazer só existem nesta condição porque somos seres suscetíveis e não há de insistir na recusa dos primeiros nem de cultivar a hipocrisia. O apego dependerá da intensidade de reação e da exposição aos diversos prazeres disponíveis, e definirá nossas preferências idiossincráticas. O dano potencial de um prazer qualquer está relacionado à nossa exposição ao último. A minha recompensa por alcaloides no além-Pasargadae está restrita ao chocolate e ao café puro e sem açúcar, ultimamente.
- Você me parece cansado. Vá ao médico para receber tratamento. Exercita-te! Beba algo! Relaxa!
- Obrigado. Tenho um bom livro. Vou passar um café fresco, sentar numa sombra e ler.
- Mas você lê todos os dias! E esse seu livro vai te servir para quê? Café, pode-se beber toda hora!
Passei um bom tempo me formando pra fazer parte de um esquema o qual não me identifico. Apesar de ter sido bem sucedido e bem remunerado, optei por um árduo recomeço. E para retribuir à sociedade da forma que estou hoje preciso de amadurecimento teórico e espiritual. São necessárias outras teorias, sobretudo no âmbito metafísico, filosófico, nas ciências humanas, da dialética à práxis.
- Parabéns pela formatura! Terá que praticar o que aprendeu e retribuir os estudos à sociedade.
- Consegui o emprego. Fui promovido. Consegui um bom salário. Paguei meus impostos. E agora?
- Era isso. Trabalhe sem pestanejar e, talvez, consiga a aposentadoria no fim da vida. Agradeça!
Nunca estudei tanto e nunca me senti tão leve, mesmo que sem um tostão num bolso que já viveu cheio. Mas a vida passa rápido e ela não se resume em bens ou patrimônio pra mim.
Me libertei de alguns apegos fúteis ao meu ver e sinto que hoje estou no meu caminho, rumo a morrer em paz e ter a liberdade absoluta por fim. E morrerei um dia levando comigo algo que ninguém pode me tirar: minha personalidade e meu conhecimento. O resto que este mundo pode me oferecer já não me interessa. Até lá, quero viver bem, entender melhor os outros e me fazer entendido.
- Para um homem ser bem sucedido, ele há de acumular propriedades e deixar herança para família.
- Quanto mais eu me ocupar nesta direção, mais desigualdade gerarei, menos liberdade terei.
- Falta-te ânimo. Recomendo-te que procure orientação religiosa e psicológica, urgentemente!
Sim, pretendo receber, mas essa ação não envolve transação financeira e, além, para receber devemos estar com as mãos vazias e abertas: sem segurar, sem ameaçar.
Aos que ficam, bom proveito, pois sei que nesta realidade daí, ter sucesso dá muito trabalho e requer muita disciplina. Diria Sócrates: "Partirei e digo aos que ficam que não sei quem de nós tomou o melhor rumo, só os Deuses sabem."
Antecipo-me à tua óbvia opinião acerca dessa despedida: sou insuportável. E só há quem me aguenta porque ainda não me conhecem suficientemente. Minha palavra final de altruidade e benevolência é Foda-se!
- Chega!
- Fudeu...
- Você está demitido!