Parte I – O problema
O
docente, ao usar o saber como ferramenta de trabalho, detém o conhecimento e
habilidade intelectual para atuar no seu propósito. Ora, a educação é
constituída por um processo de aprendizagem, que está fora do alcance do
capital, sem máquinas para ser enquadrado em um sistema taylorista ou fordista.
O professor atua no seu máximo desempenho transmitindo o conhecimento ao maior
número de alunos e de forma efetiva, e assim ele faz a reprodução da própria força
de trabalho: o saber. Formam-se mais detentores do saber neste processo, os
alunos, futuros artífices da manufatura educacional. Entretanto, ao considerar
a escola como um processo produtivo, mantido por uma administração burocrática,
cujo produto é o ensino (ou o diploma), torna-se interessante uma abordagem
taylorista-fordista, mas prefiro não considerar esta leitura (ver Karl Marx).
A
educação tem uma básica técnica estreita, haja vista que se limita por recursos
físicos e humanos. Propaga a ciência, mas atua de modo empírico, ou seja, é
incapaz de testar cientificamente seus métodos. Enquadrar-se-ia num tipo de
pseudociência, contudo é responsável por dispersar e promover as ciências puras
(ver Karl Popper).
Os
conhecimentos são textualizados em linhas e métodos de ensino, emaranhando-se
em áreas do saber, que por fim resulta num tecido: a diretriz curricular de um
determinado ambiente sociocultural. Proponho o termo manufatura de
desenvolvimento intelectual, cuja constituição da inteligência humana resume-se na tríade de Spinoza: identificar, ordenar e relacionar (ver o tratado da inteligência, de Baruch Spinoza) e a prática de formação de ideias por repetição, a tríade de Hume: semelhança, contiguidade e causa e efeito (ver Investigação acêrca do entendimento humano, de David Hume).
Neste
entendimento, ao se desenvolver, a educação proporciona condições para o
surgimento da máquina, que é ao mesmo tempo seu efeito e sua negação. Ora, pois
a atualidade apresenta exatamente isto: a educação contemporânea expõe os
alunos mais a métodos tecnológicos e sistemáticos que métodos tradicionais de
lousa e giz, este último praticamente obsoleto. O trabalho humano passou a
intervir menos, com função principal de normatizar, vigiar e punir (ver Michel Foucault), às vezes absolutamente sem conteúdo, sem profundidade criativa, nem
potencia de vontade (ver Friedrich Nietzsche).
A
seguir, transcrevo um trecho do artigo Meia, do livro A Enciclopédia:
"Aqueles
que têm gênio suficiente não para inventar coisas idênticas, mas para
compreendê-las, caem num profundo espanto perante o número quase infinito de
molas de que se compõe a máquina de fazer meia, e do grande número dos seus
diversos e extraordinários movimentos. Quando se vê fazer meias, admiram-se a
leveza e a destreza das mãos do operário, embora ele faça apenas uma malha de
cada vez; como é diferente quando se vê uma máquina que forma centenas de
malhas simultaneamente, quer dizer, que faz, no mesmo momento, todos os vários
movimentos que as mãos só conseguem fazer em várias horas! Quantas pequenas
molas puxam a seda para elas, largando-a, retomando-a, fazendo-a passar de uma
malha para outra de uma forma inexplicável? E tudo isto sem que o operário que
movimenta a máquina compreenda nada, saiba nada, ou sequer sonhe o que se
passa: é nisso que pode ser comparada à mais excelente máquina que Deus
fez." (Denis Diderot).
Parte II – As possibilidades
Considerando
o jogo de poderes, este que está enraizado socialmente nas diversas
instituições e esferas, sabe-se que a escola é influenciada por ele. Haja vista
que a normatização educacional é regulada e policiada por um sistema político
democraticamente duvidoso, e que o Estado tem seus interesses sobre a formação
dos jovens em adultos produtores e consumidores que possam impulsionar as
engrenagens da economia, a escola deve se impor como um modelo tradicional do
saber ou deve se adaptar rapidamente às mudanças de mercado?
A
partir das premissas consideradas e da questão apresentada, coloco dois pontos
de vista como possíveis conclusões:
Atuar
no ensino com a premissa de que é necessário ajustar os sistemas educacionais
conforme o momento social é uma forma de pensar sobre a instituição. Requer
constante adaptação de seu corpo docente, de seus recursos físicos e materiais.
Requer envolvimento político para debater e negociar condições financeiras a
partir de impostos arrecadados. Na velocidade frenética da informação,
atualmente, que resulta de inovações tecnológicas imensuráveis, os sistemas
educacionais arriscam-se a estarem sempre passos atrás, perseguindo um objetivo
que se distancia rapidamente e com dinamismo nunca antes visto: movido pela
máquina.
Há
uma leitura da instituição que a coloca numa posição ativa de mudança, de modo
que aplica um modelo de conduta e valores consolidado historicamente, adquirido
por acumulo de saberes no decorrer dos séculos, a fim de ajustar a sociedade
para as mudanças desvirtuadas, carentes de sabedoria e fartas de conhecimento.
A escola coloca-se, desta forma, como ponto de retaguarda, como porto seguro
onde os jovens possam resgatar valores essenciais do homem, os mesmos valores
que culminaram nas constituições das nações, na declaração universal dos
direitos e na democratização do ensino a toda sociedade, pautada na cultura, na
criatividade e na humanística.
Parte III – A crítica
A
divisão do trabalho dentro das instituições de ensino, esquematizada em
atividades individualizadas, é uma influência cronológica da era industrial,
jurídico-policial-burguesa, na qual os sistemas educacionais estão inseridos e
pela qual se normaliza e promove-se economicamente a escola. Assim como as
demais instituições, há na escola uma adaptação natural às condições nas quais
estamos expostos. Por exemplo, as pessoas físicas e jurídicas tendem a
perseverar no meio e, para tal, progridem através de uma constante e impulsiva
mudança. O comportamento de uma maioria de escolas é caracterizado por um
individualismo exagerado, ilustrado aqui por, grosso modo, um modelo
taylorista-fordista. Há na escola uma divisão por grades, por áreas do saber,
períodos letivos, funções administrativas e técnicas, divisão de turnos, aulas
cronometradas, posição hierarquizada em níveis de poder, ora autoridade, ora
subordinação, exatamente como numa linha de produção. Ora, não é a intenção
formar jovens que correspondam a este comportamento de máquina, individualista
e industrial. Ou é? Sim, a LDB dispõe que a educação deve estar adequada à
cultura, ao meio, a fim de formar um cidadão para a vida que o espera: o
trabalho. A escola é a primeira empresa que os cidadãos experimentam, destinada
a produzir o produto conhecimento, a partir de engrenagens humanas de algo maior, ultraespecializadas e interdependentes – a máquina da economia (definição de economia aqui já fora de seu conceito original
d´um ambiente familiar). O ambiente fornece os estímulos e o sujeito reage a eles,
inconscientemente, em busca de perseverar, seja na instituição família, escola,
empresa, indústria, política, justiça etc. A conclusão, entretanto, resume-se
no fato de que a sociedade está elaborando e atuando de maneira crescentemente
individualista, apesar de formada por grupos, e eis a crítica.