sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Crítica aos Sistemas Educacionais do Brasil

Parte I – O problema

O docente, ao usar o saber como ferramenta de trabalho, detém o conhecimento e habilidade intelectual para atuar no seu propósito. Ora, a educação é constituída por um processo de aprendizagem, que está fora do alcance do capital, sem máquinas para ser enquadrado em um sistema taylorista ou fordista. O professor atua no seu máximo desempenho transmitindo o conhecimento ao maior número de alunos e de forma efetiva, e assim ele faz a reprodução da própria força de trabalho: o saber. Formam-se mais detentores do saber neste processo, os alunos, futuros artífices da manufatura educacional. Entretanto, ao considerar a escola como um processo produtivo, mantido por uma administração burocrática, cujo produto é o ensino (ou o diploma), torna-se interessante uma abordagem taylorista-fordista, mas prefiro não considerar esta leitura (ver Karl Marx).
A educação tem uma básica técnica estreita, haja vista que se limita por recursos físicos e humanos. Propaga a ciência, mas atua de modo empírico, ou seja, é incapaz de testar cientificamente seus métodos. Enquadrar-se-ia num tipo de pseudociência, contudo é responsável por dispersar e promover as ciências puras (ver Karl Popper).
Os conhecimentos são textualizados em linhas e métodos de ensino, emaranhando-se em áreas do saber, que por fim resulta num tecido: a diretriz curricular de um determinado ambiente sociocultural. Proponho o termo manufatura de desenvolvimento intelectual, cuja constituição da inteligência humana resume-se na tríade de Spinoza: identificar, ordenar e relacionar (ver o tratado da inteligência, de Baruch Spinoza) e a prática de formação de ideias por repetição, a tríade de Hume: semelhança, contiguidade e causa e efeito (ver Investigação acêrca do entendimento humano, de David Hume).
Neste entendimento, ao se desenvolver, a educação proporciona condições para o surgimento da máquina, que é ao mesmo tempo seu efeito e sua negação. Ora, pois a atualidade apresenta exatamente isto: a educação contemporânea expõe os alunos mais a métodos tecnológicos e sistemáticos que métodos tradicionais de lousa e giz, este último praticamente obsoleto. O trabalho humano passou a intervir menos, com função principal de normatizar, vigiar e punir (ver Michel Foucault), às vezes absolutamente sem conteúdo, sem profundidade criativa, nem potencia de vontade (ver Friedrich Nietzsche).
A seguir, transcrevo um trecho do artigo Meia, do livro A Enciclopédia:
"Aqueles que têm gênio suficiente não para inventar coisas idênticas, mas para compreendê-las, caem num profundo espanto perante o número quase infinito de molas de que se compõe a máquina de fazer meia, e do grande número dos seus diversos e extraordinários movimentos. Quando se vê fazer meias, admiram-se a leveza e a destreza das mãos do operário, embora ele faça apenas uma malha de cada vez; como é diferente quando se vê uma máquina que forma centenas de malhas simultaneamente, quer dizer, que faz, no mesmo momento, todos os vários movimentos que as mãos só conseguem fazer em várias horas! Quantas pequenas molas puxam a seda para elas, largando-a, retomando-a, fazendo-a passar de uma malha para outra de uma forma inexplicável? E tudo isto sem que o operário que movimenta a máquina compreenda nada, saiba nada, ou sequer sonhe o que se passa: é nisso que pode ser comparada à mais excelente máquina que Deus fez." (Denis Diderot).


Parte II – As possibilidades

Considerando o jogo de poderes, este que está enraizado socialmente nas diversas instituições e esferas, sabe-se que a escola é influenciada por ele. Haja vista que a normatização educacional é regulada e policiada por um sistema político democraticamente duvidoso, e que o Estado tem seus interesses sobre a formação dos jovens em adultos produtores e consumidores que possam impulsionar as engrenagens da economia, a escola deve se impor como um modelo tradicional do saber ou deve se adaptar rapidamente às mudanças de mercado?
A partir das premissas consideradas e da questão apresentada, coloco dois pontos de vista como possíveis conclusões:
Atuar no ensino com a premissa de que é necessário ajustar os sistemas educacionais conforme o momento social é uma forma de pensar sobre a instituição. Requer constante adaptação de seu corpo docente, de seus recursos físicos e materiais. Requer envolvimento político para debater e negociar condições financeiras a partir de impostos arrecadados. Na velocidade frenética da informação, atualmente, que resulta de inovações tecnológicas imensuráveis, os sistemas educacionais arriscam-se a estarem sempre passos atrás, perseguindo um objetivo que se distancia rapidamente e com dinamismo nunca antes visto: movido pela máquina.
Há uma leitura da instituição que a coloca numa posição ativa de mudança, de modo que aplica um modelo de conduta e valores consolidado historicamente, adquirido por acumulo de saberes no decorrer dos séculos, a fim de ajustar a sociedade para as mudanças desvirtuadas, carentes de sabedoria e fartas de conhecimento. A escola coloca-se, desta forma, como ponto de retaguarda, como porto seguro onde os jovens possam resgatar valores essenciais do homem, os mesmos valores que culminaram nas constituições das nações, na declaração universal dos direitos e na democratização do ensino a toda sociedade, pautada na cultura, na criatividade e na humanística.


Parte III – A crítica

A divisão do trabalho dentro das instituições de ensino, esquematizada em atividades individualizadas, é uma influência cronológica da era industrial, jurídico-policial-burguesa, na qual os sistemas educacionais estão inseridos e pela qual se  normaliza e promove-se economicamente a escola. Assim como as demais instituições, há na escola uma adaptação natural às condições nas quais estamos expostos. Por exemplo, as pessoas físicas e jurídicas tendem a perseverar no meio e, para tal, progridem através de uma constante e impulsiva mudança. O comportamento de uma maioria de escolas é caracterizado por um individualismo exagerado, ilustrado aqui por, grosso modo, um modelo taylorista-fordista. Há na escola uma divisão por grades, por áreas do saber, períodos letivos, funções administrativas e técnicas, divisão de turnos, aulas cronometradas, posição hierarquizada em níveis de poder, ora autoridade, ora subordinação, exatamente como numa linha de produção. Ora, não é a intenção formar jovens que correspondam a este comportamento de máquina, individualista e industrial. Ou é? Sim, a LDB dispõe que a educação deve estar adequada à cultura, ao meio, a fim de formar um cidadão para a vida que o espera: o trabalho. A escola é a primeira empresa que os cidadãos experimentam, destinada a produzir o produto conhecimento, a partir de engrenagens humanas de algo maior, ultraespecializadas e interdependentes – a máquina da economia (definição de economia aqui já fora de seu conceito original d´um ambiente familiar). O ambiente fornece os estímulos e o sujeito reage a eles, inconscientemente, em busca de perseverar, seja na instituição família, escola, empresa, indústria, política, justiça etc. A conclusão, entretanto, resume-se no fato de que a sociedade está elaborando e atuando de maneira crescentemente individualista, apesar de formada por grupos, e eis a crítica.