quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Fragmentos Expostos do Neoliberalismo


O neoliberalismo avança por oportunas crises cíclicas, que são planejadas e estratégicas para ofuscar o seu caráter de austeridade. É um sistema de avaliação e monitoramento enganador que sufoca a sociedade e esfola o Estado. Nunca, num Estado democrático de Direito, um operário, desempregado ou servidor público foi tão oprimido!

Neoliberalismo é caracterizado pelo poder burguês proposto por Friedrich Hayek e Milton Friedman pouco antes da Grande Guerra. Algo que se entusiasmou com a polarização mundial entre o bem e o 'Mao', entre Deus e 'Allah'. Os Estados protagonistas da Grande Guerra partiram para mais uma empreitada ao terceiro mundo, espalhando arma, munição e Terror!

O neoliberalismo ganhou força através de volumoso financiamento da iniciativa privada, já evidenciando a presença do Lobby devasso dentro do Congresso. O Legislativo foi corrompido. No Brasil, representa o boi, a Bíblia e a bala (BBB). Representa uma minoria que acumula para si o capital, e ostenta a riqueza que falta para as transformações sociais!

O executivo tornou-se um poder, quando da direita, um modelo de fascismo com requintes de fundamentalismo religioso, e, quando de pseudoesquerda, bonapartista 'sui generis' com forte aparelhamento estatal e judiciário. A figura presidencial fomenta o autoritarismo e abre mão do programa original para manter sua base e se perpetuar no poder!

O Liberalismo ruiu em 1929 e o keynesianismo em 1970. Através de 'rendas' e juros, o ganho produtivo foi superado pelo ganho improdutivo de capital e, em 2008, o neoliberalismo também ruiu. É divulgado como sendo algo essencial através de falácias!
Restou um neoliberalismo zumbi que ignora o meio ambiente. Movido pelos interesses dos oligarcas e sustentado pela burocracia e pela manipulação institucionalizada. Como fim, infla o consumismo patológico da burguesia!


Fazenda Brasil: Um desabafo a quem interessar


Estaríamos num Estado moderno, de política centralizada nos poderes executivo e legislativo, ambos representativos à sociedade, e no Judiciário, intocável guardião da Constituição?
         Não. Retrocedemos ao período feudal. País descentralizado, no qual a nobreza e o clero, há cinco séculos, detêm a terra loteada pela Coroa, cada um com seu próprio feudo, todos bilionários. O Brasil não é um Estado moderno de Direito democrático e sua vasta continentalidade ultrapassa as fronteiras dos centros urbanos, centros nos quais passamos toda a nossa vida focados em produção e consumo.
         Os oligarcas dominam o senado e a câmara, e perpetuam a sua linhagem branca à custa do mau uso do Estado, no esquema perverso de suserania e vassalagem que remete ao período colonial. Usam todas as formas de poder invisível, aderem ao lobby nefasto, conspiram e saem incólumes.
         As leis são feitas pela oligarquia e para ela. Os togados sequer estão à altura para interferir neste esquema, têm seu preço e são cúmplices. O Estado controle a massa através da bala (aqui, cabem maiores detalhes do uso perverso da propaganda, mídia, internet, interesses yankees, que não serão abordados).
         A urbanização do Brasil pós-ciclo do café merece uma análise separada em virtude da sua importância na formação da atual sociedade. Não obstante, de grande importância temos também a publicação da lei Áurea, o fim dos ciclos de extrativismo (borracha, madeira, minérios), de monocultura (cana, café) e o início da Industrialização do país. A vasta população rural migrou desordenadamente às cidades, em debandada, sem que o devido planejamento fosse feito.
         O fim destes ciclos foi logo substituído, sem prejuízos aos tais oligarcas, pela pecuária extensiva e pela monocultura (milho, soja, café, cana, laranja, eucalipto), de forma também desordenada, o que resultou em devastação funesta do meio ambiente.  Áreas indígenas são, ainda nos tempos atuais, ignoradas para estender as fronteiras feudais. Pouco é o incentivo para agricultura familiar (fumicultura, apicultura, citricultura, avicultura, entre outros). Nenhum é o interesse para a reforma agrária.
         O Estado, oportunamente, não tem magnitude para atuar nas fronteiras rurais. À mídia, notícia da roça, do sertão, da floresta não interessa. Portanto, cada feudo oprime seus servos com seu próprio exército e sua própria justiça. Caso alguém reivindique por direitos neste território, será brutalmente castigado até que se cale.
         Também participa nesta trama a alta burguesia, composta, sobretudo, por industriais, baixo clero, militares e outras figuras medonhas. Estes, por sua vez,  têm sua origem na vinda da família real de Portugal, que ocorreu após o imperialismo napoleônico, e também provêm da imigração europeia tardia, que ocorreu após a lei Áurea, incentivada para abastecer as demandas de trabalho qualificado e para reforçar o espírito racista da supracitada classe dominante.
         Dados demográficos recentes calculam uma sociedade com cerca de 200 milhões de habitantes, feminina e jovem. Porém, infelizmente, ainda acusam um elevado analfabetismo e um subúrbio urbano concentrado, de baixa renda e desamparado pelo Estado.

O PARADIGMA DA SCIENZA NUOVA


Parafraseando esse contexto onde a metafísica, a religião, a astrologia e outras formas de conhecimento ganham importância, nos utilizaremos de um exemplo da mitologia sob a ótica de um grande filosofo. Para Hegel, a coruja é o símbolo da filosofia como alusão à coruja da deusa romana Minerva. A coruja de Minerva levanta voo ao entardecer, aquele instante onde a claridade e a escuridão misturam-se e as pessoas passam a enxergar menos. Assim, o conhecimento é gerado após acontecer algo que tinha de acontecer, no caso o dia, e antes de algo que está por vir e que se apresenta como obscuro, no caso a noite. É nesse instante de ofuscamento do cair da tarde que talvez possamos fazer nossa coruja alçar voo e levar as experiências do dia para as necessidades e dificuldades que surgirão na noite.” (André Galindo da Costa & Daniel Tonelo).


A relação da humanidade com os adventos tecnológicos remete ao pretérito remoto, da era do fogo, da pedra lascada, da agricultura, da escrita e dos metais. Outrora, muito antes do presente cibernético, o homem já fazia progresso e, talvez, fosse em virtude de uma vontade inata, de uma ambição primordial, de garantir a perpetuação da espécie. Haja vista que alguns povos não elaboraram a escrita nem o manuseio de metais (povos antigos americanos, por exemplo), o meio condiciona a atuação do ser. Portanto, dada a importância das variáveis espaciais e temporais na análise de um tema qualquer, proponho uma concisa arqueologia, ou genealogia, da nossa contemporaneidade ocidental. Conforme a proposta, a seguir, abordarei alguns fatos a fim de contextualizar o tema ciência e tecnologia.
O paradigma cristão de São Tomás de Aquino teve impacto profundo no pensamento da humanidade, que reverbera fortemente na atualidade. Pessoas como Galileu, Descartes, Hume, Newton, também se destacam na lista de maiores contribuintes da ciência. Neste intervalo de tempo, a emancipação do Homem perante a natureza foi um evento libertador, e teve o seu auge no século XIX com o fortalecimento das instituições universitárias modernas, detentoras da suposta verdade, que fornecem soluções tecnológicas para o patriciado industrial especulador. Ainda hoje, prevalece uma dicotomia formal entre ciências naturais e sociais, entre ciência e senso comum, diria Rubem Alves.
Pois, esta desvinculação com a natureza é evidenciada nos fatos a seguir. O fascínio que a humanidade tem com o céu antecede o advento da civilização, e algo nos desperta este interesse por questões que não cabem neste texto. Entretanto, unir-se-á a este fato o espírito judeu-cristão, seja ele o católico de santo Agostinho ou o protestante de Max Weber, que ao abandonar o antropocentrismo e o mito passa a buscar no céu novas oportunidades de empreitada.
Na moral contemporânea não há dívida ao saquear a natureza. Não é pecado atentar à vida do planeta. Pois, a ciência natural se especializou tanto que se afastou da transdisciplinaridade, e tanto fez que quase exterminou a humanidade da Terra, diria Rubem Alves. Considerando esses fatos, torna-se um desafio aceitar a ciência como provedora de conhecimentos que irão melhorar a vida do homem na Terra, como defendia Francis Bacon. Ao invés, paira uma descrença na ciência enquanto detentora da missão providencial de salvar da humanidade. Poderia estender a discussão ao anarquismo metodológico de Feyeraband, mas é inquestionável a aplicação prática de diversos projetos científicos baseados no cartesianismo, visto que o método é falho, mas capaz de demonstrar as conclusões desejadas. Mesmo que, porventura, fuja do senso comum, a atual ciência apresenta resultados tanto lucrativos quanto falsificáveis.
Pensar na possibilidade de habitar novos planetas é uma ambição e fruto da prepotência humana. Essa ideia alivia a consciência daqueles que depredam o ambiente com dolo, e os deixa otimistas quando ouvem a respeito da Gaia doente de James Lovelock. Podemos tranquilamente aniquilar a Terra e migrar para outro planeta a fim de habitá-lo, pensam os fãs de George Lucas ao assistir a NASA conquistar o Universo através da mídia patrocinada. Já não me surpreende ver um indivíduo adotar pequenas atitudes tidas como sustentáveis como forma de alívio ecológico, mesmo que o consumo materialista dele continue sendo maníaco e desenfreado.
Nietzsche provoca ao expor que, negligenciando a própria liberdade, o homem achou no eterno débito com Deus uma panaceia. Porém, este pensamento representa mais aqueles que se sustentam na salvação divina do que os céticos. Também provocando, Max Weber sugere que ao ver no mito a verdade, suprimimos nossa potencia de desenvolver o Capitalismo. Todavia, a industrialização protestante de Weber patrocinou uma ciência herdeira de precursores indianos, árabes e outros povos que preferem o culto ao uso, dormir bem a comer bem, nas palavras de Weber. O processo de globalização já estava em curso há tempo e, como efeito, a humanidade convergiu para um única ciência aplicada à tecnologia.
De fato, a história nos conta que a verdade e o paradigma são passageiros, falíveis e mutáveis. Sempre haveremos de experimentar novos agenciamentos, a fim de alimentar a própria potencia de ser e digerir os ressentimentos. Haveremos de nos reinventar insaciavelmente, de forma menos especializada e mais socializada, essa é minha ideia. O contato é fundamental. O diálogo entre indivíduos, disciplinas ou deuses deve ser incentivado para que a vida se torne sustentável.
Por fim, Darwin inovou ao propor que o ambiente determina as condições nas quais somente os adaptados sobrevivem. Acrescento ainda que o ambiente influencia o ser assim como o ser influencia o seu ambiente. Então, que esta relação seja simbiótica e que, finalmente, o nosso ego pós-moderno se emancipe do antropocentrismo clássico. Não há revolução disruptiva pontual, mas uma continuidade de eventos metafísicos que, somados, levam-nos a outro patamar enquanto civilização, diria Pierre Duhem. Encerro aqui, sabendo que contribui através da repetição do que a humanidade sempre fez: Fundamentar-se em informações disponíveis e vigentes para tentar aprimorá-las e ou refutá-las, seja através da retórica ou do cartesianismo, numa contínua transformação do paradigma.

Dourando a Pílula: Uma Empreitada na Saúde


“Gastamos muito dinheiro para tratar pessoas normais.”
Dr. Allen Frances, psiquiatra estadunidense. Líder da DSM-4 e crítico da DSM-5

“A maioria das pesquisas com câncer é uma grande fraude.”
Dr. Linus Pauling, duas vezes laureado premio Nobel de química.

“Não é mais possível acreditar em grande parte das pesquisas clínicas que são publicadas na grande mídia.”
Dr. Marcia Angell, editor chefe do New England Medical Journal (NEMJ).

“O programa nacional de câncer deve ser considerado um fracasso qualificado.”
Dr. John Bailar, integrante do instituto nacional do câncer e ex-editor da NEJM.


1) O maior comprador da indústria Farmacêutica é o Estado geralmente, e a recessão econômica global está prejudicando este negócio,
2) O comércio de sintéticos não traz lucros proporcionais ao tempo e ao investimento das pesquisas como antes o fazia,
3) Fusões entre as bigfarmas apontam para uma crise no setor farmacêutico sem precedentes,
4) Downsizing e fechamento de plantas em países em desenvolvimento indicam a tal crise,
5) população cada vez menos capacitada e pouco produtiva não cumpre com as expectativas das indústrias nos países em desenvolvimento,
6) A grande aposta das indústrias nos biológicos comprovam que sintéticos não sustentam a mesma rentabilidade de outrora, 
7) A constante regulação de mercado que as agências de governo impõe pra garantir as compras e a qualidade dos produtos afeta o bolso dessas indústrias,
8) O setor é dependente de importação, e o câmbio flutuante que varia em prol dos especuladores dificulta a aquisição e reposição de recursos materiais,
9) Há um tenebroso oligopólio de fornecimento de matéria prima e produto acabado no mercado mundial,
10) leis de patente rigorosas e protecionistas...

Seria uma lista ainda mais extensa, mas paro aqui. Isto mostra que as frases expostas no início não são fatos isolados, e me incentivam a discutir a causa raiz do problema. Associo outros fatores relacionados, por exemplo,  o fato que o Estado é, nos EUA, o maior financiador de pesquisas naturais. Médicos são apenas uma parte desta cadeia Farmacêutica bilionária, e atuam passivamente nestas decisões, que são mais políticas (Lobby) que relacionadas à saúde pública. Entretanto, toda responsabilidade recai sim sobre os prescritores, que têm o carimbo na mão e o poder de garantir a compra dos medicamentos, criando um hábito na sociedade (pra não dizer dependência) que ultrapassa o hedonismo do paciente. A sociedade médica também desempenha outra forma de poder que é o direcionamento das pesquisas científicas a consequente formação de opinião, ora com adventos tecnológicos da saúde, ora como verdades mercadológicas. Grande parte dos artigos científicos que sustentam as diretrizes médicas é patrocinada pelas mesmas indústrias Farmacêuticas que lucram com o negócio. O conflito de interesse é explícito. Exemplifico com a transição do DSM-2 ao DSM-3, que eliminou a abordagem social da psicanálise na medicina, substituindo-a pela medicina empírica ortodoxa.
Sugiro aqui algumas sugestões para sairmos desse ciclo nefasto. No caso do Brasil, há de ser considerado o nosso vasto arsenal de plantas medicinais, das drogas da floresta que herdamos de uma ciência milenar indígena, com ação terapêutica verificada através da sabedoria acumulada. E, não obstante, verificada também através da metodologia científica e publicada em revistas de alto fator de impacto. Esta é uma alternativa para prescritores aliviarem as dores de seus pacientes, sem que recorra às falácias e promessas de propagandistas. Ao negligenciar opções como esta, deparam-se tanto o prescritor quanto o paciente como reféns das rédeas mercantilistas.
Outra opção frente a este conflito, também isenta do Capital perverso, seria fomentar a indústria estatal. O Brasil inclusive praticou essa política, que é pesquisar, desenvolver e produzir através de laboratórios estatais, para que o medicamento pudesse ser distribuído de volta aos contribuintes, sem custos adicionais na ocasião da doença. Antes de o regime militar abrir a economia para transnacionais, tínhamos (e ainda temos!) laboratórios referências mundiais, tais como instituto Butantã, Fiocruz/Farmanguinhos. A população crescente em número e em longevidade exigiu essa ação do Brasil, mas infelizmente este projeto foi negligenciado por influências do grande Capital, uma vez que viram aí uma grande oportunidade de negócios. Há quem fale que o Estado não tem esta capacidade gerencial e administradora, contudo vemos sim exemplos bem sucedidos.
Ainda mantemos com excelência, contrariando todos os argumentos que a mídia nos expõe, a produção e distribuição do tratamento para HIV, por exemplo. A opção existe e qualquer um que discorde terá que aceitar a mais cínica refutação. Com frugalidade, podemos oferecer uma saúde melhor para a população, evitando o pagamento de preços abusivos e a escassez do arsenal medicamentoso, que variam conforme a livre concorrência entre os barões da droga. Ou seja, podemos considerar o bem estar social acima de interesses obscuros, interesses esses que elevam a saúde a um dos mais rentáveis negócios.


DUARTE, A. C. et al. Análise da Indústria Farmacêutica – Perspectivas e Desafios. Brasília: Núcleo de Estudos e Pesquisas/CONLEG/Senado, outubro/2015 (Texto para Discussão nº 183). Disponível em: www.senado.leg.br/estudos. Acesso em 13 de setembro de 2016.

EDISON CLAUDINO BICUDO Júnior. Produção de medicamentos no território brasileiro: Política farmacêutica e política territorial. GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 25, pp. 123 - 137, 2009. Disponível em http://www.geografia.fflch.usp.br/publicacoes/Geousp/Geousp25/Artigo_Edison.pdf. Acesso em 13 de setembro de 2016.


https://uaem.wufoo.com/forms/zmewncm1cznjbi/ Acesso em 01 de fevereiro de 2016.


John Bailar, Cancer Undefeated, 1997. http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJM199705293362206. Acesso em 13 de setembro de 2016.

PETER GØTZSCHE, Fármacos psiquiátricos nos fazem mais mal do que bem, 2016.
http://brasil.elpais.com/brasil/2016/09/20/ciencia/1474391855_558264.html?id_externo_rsoc=Fb_BR_CM
Acesso em 19 de dezembro de 2016.

ELIE DOLGIN, NIH research grants yield economic windfall, 2017. Nature, March, 30th 2017.

ROSENBLATT M., M.D., The large Pharmaceutical Company Perspective, 2017. The New England Journal of Medicine, January, 5th 2017.

Robinson S. M., The Classification of Substance Use Disorders: Historical, Contextual, and Conceptual Considerations, Review, 2016. Behavioral Sciences, August, 18th 2016.

PRODUÇÃO CIENTÍFICA DE VERDADES MERCADOLÓGICAS





"(...) meus pensamentos logo se paralisavam, quando tentava, contra tendência natural, forçá-los em uma direção. (...) As anotações filosóficas são, por assim dizer, uma porção de esboços de paisagens que nasceram nestas longas e confusas viagens." (Ludwig Wittgenstein). 


"Em face da sociedade dilatada de modo desmedido e dos progressos do conhecimento positivo da natureza, os edifícios conceituais nos quais, segundo os costumes filosóficos, o todo deveria poder ser alocado, assemelham-se aos restos da simples economia de mercado em meio ao capitalismo industrial tardio." ADORNO, T. W.


Pitágoras. Este grande nome, que não só foi o pai da matemática como também definiu o conceito de filosofia, não está iniciando o meu texto à toa. Pitágoras antecedeu Platão e consequentemente Descartes e os pensadores seguintes. Seus trabalhos foram fundamentais para que a nossa realidade ocidental chegasse ao patamar atual, seja na Ciência, Filosofia, Religião, Direito, Artes e até mesmo, provoco, nas tecnologias contemporâneas de Einstein, Higgs etc.

O estudo da Lógica, enquanto integrada à filosofia, também há de ser grato à herança de Pitágoras. O último não só progrediu a matemática de forma objetiva (prática, lógica e racional) como a relacionou com aspectos subjetivos (sentidos, ideias, metafísicos). A seguir apresento algumas provocações subjetivas, mas baseadas em temas filosóficos contemporâneos. Deixo para trás minhas impressões históricas e inicio outra abordagem, de forma parcial, entretanto sincera.

O que é a verdade? Definir a verdade com base na lógica não é tarefa simples. Utilizamos modelos como, por exemplo, o argumento para representar a verdade, o qual é formado por duas ou mais premissas e uma conclusão. A suposta confirmação da verdade através dessa inferência (critério da necessidade) é dependente da ciência, pois para definir a força dos argumentos, bem como a verdade das premissas, dependemos de uma suposta ciência especializada (estatística, química, biologia, sociologia, teologia, Direito etc.). O estudo da lógica em si, averigua no seu tocante se o argumento é válido e, por conseguinte, se a conclusão é verdadeira. Ora, pois, consideremos a seguir alguns aspectos da ciência a fim de responder a pergunta original.

As propriedades naturais são autônomas, independentes da existência humana, ou dependem da nossa inteligência para existirem? Ou seja, nós descobrimos ou inventamos tais propriedades da natureza? Mesmo em áreas como a física pura ou a química pura, onde podemos manipular os elementos existentes e criar matéria nova como polímeros, metais e cerâmicas. Logo, temos uma descoberta ou uma invenção?

Situação 1-Caso algo seja descoberto, então esse já estava presente na Natureza e o homem através da ciência trouxe esta propriedade à luz do conhecimento. Situação 2-Caso algo seja inventado, estaríamos então apresentando uma entidade teórica inédita capaz de expressar uma propriedade desejada. Não seria uma verdade absoluta e imutável, mas apenas uma maneira de construir uma hipótese perecível dentro da limitada capacidade explicativa humana? A metafísica ou, precisamente, a ontologia se dedicam a essa discussão.

A existência é um predicado atribuído às coisas? Entendo que não estamos atrás da verdade, e sim atrás de soluções contextualizadas no âmbito cronotópico e social. A finalidade da busca pelo conhecimento é acomodar nossas crenças dentro de alguma teoria aceitável, ou estabelecer teorias que sustentem necessidades. Para isto, só temos nossas experiências sensoriais como ferramenta. Não há verdade ao afirmar que uma determinada causa é a origem de um efeito. Isso é insustentável uma vez que possuímos acesso apenas aos efeitos (observável). E ainda, para cada questão existiria sempre um par de teorias equivalentes e logicamente incompatíveis: A mesma coisa pode ser explicada de modos diferentes.

Vemos somente cisnes brancos (empirismo); o que vemos é verdade (indução); todos os cisnes são brancos (conclusão). As premissas podem ser verdadeiras ou falsas, conforme a sua duração e localização. As verdades se mostram como ponta de iceberg, ou na forma de uma roupagem que se renova conforme a moda da época: a ciência também.

O exposto acima remete ao primórdio que emancipou a ciência moderna da metafísica clássica ocidental, cujo auge é por mim considerado o século XVIII, que culminou na filosofia iluminista, no liberalismo, no idealismo e nas revoluções nacionalistas, todos de origem burguesa. Karl Popper perguntou se a moderna ciência empirista se livrou completamente dos resquícios de seu passado metafísico? A metafísica deve mesmo ser eliminada da ciência? Se sim, quais são as demarcações definitivas que separam estes dois modos de conhecimento? Há de se apontar a árvore de Descartes, que colocava a metafísica e a ciência numa única estrutura, a primeira como raiz e a última como galhos (o tronco da arbre é a filosofia).

O método científico empírico adota uma proposição válida e argumento forte, porém a veracidade da conclusão é mutável e falível devido à fragilidade das suas premissas. Uma premissa a priori verdadeira pode se tornar falsa por ser algo generalizado e limitado no sensorial. Questiono também se a indução é de fato compatível com a lógica, ou é o efeito da intuição, quiçá da abstração humana. Buscamos uma compreensão satisfatória da natureza e esta vontade é constante, contudo a história nos conta que a ciência se constitui da sua própria refutação e isso demonstra a sua inevitável falseabilidade. O progresso é um processo imprevisível e indeterminado, fundamentado em bases frágeis, que fascina o sujeito adorador do conhecimento. Faz-se ciência empregando primeiro o empirismo para depois traduzi-la num sistema de linguagem técnica, rígida, limitada num signo, numa palavra e num conceito respectivamente.

O que é a normalidade? Tal pergunta chegará a diferentes respostas, pois cada ser humano tem consigo aquilo que julga como normal. Somos, enquanto seres dotados de consciência e memória, uma infinidade de possibilidades, uma vontade de potência em constante transformação num oceano de conexões líquidas, uma capacidade incalculável de ordenações e relações de ideias. É comum chegarmos a conclusões diferentes, ainda que haja padronização de fatores, e isso há de ser normal. Portanto torna-se importante a padronização científica enquanto uma rígida e sistemática metodologia capaz de ser replicada para o fim de comprovar uma conclusão qualquer. Apesar das falhas já citadas, a metodologia científica é o atual auge da criatividade humana.

Há outra questão relevante apresentada por Popper que coloco neste momento, são os problemas da indução. Colocá-los-ei na forma de perguntas para incitar a vossa reflexão, pois uma descrição detalhada destes está na obra "Die beiden Grundprobleme der Erkenntnistheorie", de 1978. Dados empíricos pontuais podem ser considerados como proposições de abrangência universal? Com que direito tais proposições podem ser formuladas? É possível saber mais do que se sabe?

A partir de leituras feitas alhures sobre antropologia, o levantamento de informações nesta área segue uma metodologia contida numa linguagem técnica e característica, a priori, de uma ciência natural. Ora, pois, eis que mitos e ritos considerados são comparados sistematicamente para compor deduções empíricas. Como define Levi-Strauss, método hipotético-dedutivo. Trata-se da aproximação das condições culturais de uma determinada época estudada, da aproximação das formas de ordenamento e relacionamento de ideias de sociedades primitivas. Um exercício hipotético-dedutivo realizado hoje, mas ambientalizado numa realidade de outrora. Contrariamente à dedução empírica, podem-se obter conclusões de deduções transcendentais, de encadeamentos de operações lógicas e não de inferência fruto de observações.

Outra perspectiva interessante a ser considerada é do estudo da linguagem para surdos e cegos. Trata-se de uma ciência baseada na práxis, cuja base teórica é secundária. O estudo e desenvolvimento de linguagens adequadas à surdez ou cegueira são dependentes do empirismo. Não há de se intuir ou deduzir teses hipotéticas sem que estas tenham uma utilidade prática aos usuários. As linguagens, sejam verbais, não verbais ou mistas, devem ser direcionadas e adequadas a uma população que aprova ou reprova a praticidade do objeto de estudo, através da experiência e apesar do rigor científico comum.

Portanto concluo, de maneira antirrealista e provocativa, que o direcionamento da ciência é feito por quem a patrocina e os efeitos são destinados aos referidos patrocinadores, geralmente, na forma de soluções para os meios de produção. Esta mercantilização da ciência se torna objeto de propaganda capitalista, de sofismo político, de jornalismo vagabundo: o encantador canto da sereia que converte pessoas em indivíduos. O sujeito investigativo apresenta o objeto de pesquisa a um inquérito a fim de obter disto a confissão da verdade que lhe interessa.

Há muito investimento em ciência desalmada no nosso tempo, ciência sem substância, que está inserida num conluio de interesses comerciais e não se pretende neste caso o progresso da humanidade, mas sim de um meio de produção específico, visando ao lucro e ao benefício Individualizado. Muitos cientistas se parecem mais com jornalistas, empenhados na alta produtividade de publicação, enfim meros instrumentos maquinais.  Não cabe ao texto analisar o caráter mercantilista e segregador que o diploma se resume nas mãos de muitos profissionais recém-formados: o biopoder das instituições na forma materializada de um certificado. Para um aprofundamento nesta direção recomendo Foucault (sugestão de leitura do fim do texto).

A ciência há de se alinhar aos interesses da humanidade afinal, para que possamos retomar um caminho decente outrora trilhado por uma filosofia personalista. Vieses de naturezas diversas continuam presentes na ciência, desde problemas fundamentais expostos acima a conflitos de interesses mercantilistas. A verdade não está por aí esperando uma oportunidade do devir: Somos nós, seres inteligentes, que a fazemos.




Sugestão de leitura:


·         RUBEM ALVES. Variações sobre o Prazer: Santo Agostinho, Nietzsche, Marx e Babette. 2011. 1ª edição, Editora Planeta do Brasil Ltda.
·         LUDWIG WITTGENSTEIN. Investigações Filosóficas. 1945. 1ª edição, Editora Nova Cultural.
·         KARL POPPER. Os Dois Problemas Fundamentais da Teoria do Conhecimento. 1978. 1ª edição, Editora UNESP.
·         MICHEL FOUCAULT. Microfísica do Poder. 3ª edição, Editora Paz e Terra.
·         CLAUDE LÉVI-STRAUSS. A Oleira Ciumenta. 1985. 1ª edição. Editora Brasiliense. 
·         THEODOR W. ADORNO. Negative Dialektik. 1967. Editora Suhrkamp Verlag.

Uma nova chance para a humanidade



[Retirei-me não apenas dos homens, mas das ocupações, e especialmente das minhas ocupações: eu cuido dos negócios dos pósteros. Para eles escrevo algumas coisas que possam ser úteis. Confio às cartas admonições salutares, como que receitas de medicamentos úteis, tendo experimentado serem elas eficazes em minhas próprias úlceras, que mesmo se não estão inteiramente curadas, deixaram de avançar. O bom caminho, que conheci tardiamente e vagueando fatigado, eu mostro aos outros.] Sêneca. Epístolas a Lucílio, 8, 2-3


Muita água foi envenenada nessa era de peixes, e muito sangue jorrou dos ritos do homem. Há de se construir a verdadeira beleza das coisas, enfim, não só em palavras, desde que o excesso se restitua à essência, afastando-se do onânico desejo à carne e no hedônico apego à riqueza, prazer e honra. Neste momento conflitante que antecede a mudança há muitos juízos opostos, contraditórios e, na busca pelo lado certo, a única certeza é que não podem ser ambos verdadeiros.

Em busca do interior, devemos nos lançar à essência das coisas. Lapidar nossa inteligência, que é castigada com persuasões baseadas em falácias e hipocrisia, cada dia mais, por discursos políticos, religiosos, publicitários e científicos: O sofístico canto da sereia. Havemos de nos identificar a um novo olhar sobre o universo e criarmos juízos verdadeiros. Afinal, a busca é inata e estamos em um caminho frugal da salvação.

Concebido o fim, sabemos que os meios são inúmeros. Entretanto, não há ponte para o futuro.  Digo que, certamente, a filosofia é um caminho extenso, mas seguro a ser seguido: Conheça-te na intimidade e exercite a verdade obtida. Neste momento de transformações, quanto mais nos afastarmos dos impulsos perpetuadores da espécie, mais humanos seremos. O futuro jaz na razão e não há outro lugar para recorrer senão à inteligência e aos sentidos.

Abaixo à temerária eugenia de raças, visto o emaranhado migratório que a globalização promoveu, pois somos vira-latas com vontade de "pedigree"; Fim das fronteiras entre países, dado a transnacionalização que o Homo economicus instituiu: Houve guerras. Temos uma essência mais definida agora, algo comum entre nós que nos identifica. Sim, somos feitos para viver em sociedade, interagir através da linguagem, para fazer política. Conceitos e juízos à prova no devir!


Ver também:

- SWARTZ, Aaron. Guerilla Open Access manifesto. https://archive.org/stream/GuerillaOpenAccessManifesto/Goamjuly2008_djvu.txt
- SILVA, Markus Figueira. Sedução e persuasão: os “deliciosos” perigos da sofísticaCad. Cedes, Campinas, vol. 24, n. 64, p. 321-328, set./dez. 2004. http://www.scielo.br/pdf/ccedes/v24n64/22833.pdf
- WIKIPÉDIA. https://pt.wikipedia.org/wiki/Era_de_Pisces
- CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Àtica, 2008.