“A ilegalidade é um front de luta por uma nova legalidade. Mais que conflito entre classes sociais, são os interesses pessoais que formam novas tendências, transformam o paradigma e transfiguram a espécie. Em busca de atingir um fim, o indivíduo interfere desastrosamente no meio, ameaçando a soberania e o pacto social. O homem, na sua existência impulsiva, permanente convicto de seus próprios desejos mundanos, tão condicionado pelo meio que ele mesmo corrompeu.”
INTRODUÇÃO
O signo trabalho mudou de denotação. No novo paradigma, deixou de ser um conceito cuja definição representasse um mero meio de subsistência ou uma dura pena de dívida (outrora sofrimento, tortura, do latim tripalium) e passou a significar um conjunto de atividades para atingir um determinado fim. Ora, pelas atuais evidências observadas, entendo que passou a ser um meio para a finalidade maior de satisfação do ego e acúmulo material do indivíduo.
Destarte, a natureza da espécie - uma posição inata dela - de precaver-se contra uma possível escassez de conditio sine qua non vital, em busca de perseverar em si, impulsivamente há de desejar o acúmulo. Mas, tragicamente, a maior parte dos materiais que o homem ambiciona não contribui para a manutenção da vida.
Além da definição de trabalho, parece que os valores das coisas também mudaram. A necessidade e a utilidade das coisas foram ultrapassadas pela soberba e ostentação. Não se trata de conforto nem segurança. Ó forma de organização social mais incompreensível ao personalista radical!
Se o que nos difere dos demais seres é a memória, o que será que a natureza tanto nos traumatizou no primórdio? Ai de mim, que critico a episteme e identifico-me com ela, simultaneamente! Encontro-me nessa inexorável acrasia, inexplicavelmente ávido por coisas inúteis a mim e aos outros as quais nem sequer garantirão a descendência da espécie, mas darão curtos prazeres paroxísticos, um tipo de recompensa insaciável, um onanismo autotélico, grosso modo, um padrão comportamental mal adaptativo. Ai de mim, que destila essa filosofia hipócrita a vocês, caros leitores, a fim de transferir e projetar o peso fatigante dos meus sofrimentos! Ai de mim, preso nessa armadilha mundana, esgotando minha virtude e restando-me com a pobreza de espírito tão grande quanto o capital do homem mais rico do mundo!
TEXTO
Primeiro, a crítica inicial: O Capitalismo pode ser reduzido à pura devoção ao sucesso de organizações racionais, com a finalidade exclusiva de satisfação material e eudemonismo individual (ou de bandos secretos), de forma cética, hedônica, crematística. Auri sacra fames.
Segundo, o convite: O texto é uma exploração, ou Arqueologia, do que pode ser o espírito Capitalista. Foi diretamente inspirado nas obras "A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo", de Max Weber, “A sociedade punitiva”, de Michel Foucault, bem como em diversas outras fontes que pude ler, como, por exemplo, "Espelhos", de Eduardo Galeano etc. Evitarei citar ou referenciar autores que pensam de maneira parecida, por preferência minha, mas o leitor mais atento poderá notar semelhanças desse texto com outros mais elaborados. O maior cuidado está sendo tomado para que plágios sejam evitados aqui, exceto em se tratando de textos de autoria própria, como, por exemplo, "A Genealogia da Burguesia Moderna" [link]. Pretendo manter esse texto em permanente construção, de forma a incluir ou adaptar trechos conforme os futuros mergulhos em outros textos e lembranças dos já lidos, numa saudável e prazerosa prática Spinoziana de identificar, ordenar e relacionar os saberes.
Eis que é inevitável a mim manter o discurso crítico fora do texto, devido principalmente à tendência esquerdista do meu cínico espírito. Ai de mim, destilador de doses egocêntricas e individualistas, oferecendo a você leitor minhas ideias goela abaixo. Prefiro pensar que não há alguém tão pobre de espírito que possa ser uma vítima indefesa de contumélias. Caso haja, recomendo que interrompa essa leitura e inicie a do Sêneca "A Constância do Sábio". Opiniões contrárias são igualmente bem-vindas, desde que haja bom senso na linguagem e nos argumentos adotados para as críticas. Não obstante, torna-se bem-vinda a participação de todos que, porventura, permitam-se a essa experiência de permanente construção textual. Os trechos recebidos, sob a forma de comentários, caso haja e desde que compatíveis com o propósito dessa atividade, serão incluídos no texto.
Martinho Lutero:
Alemanha, meados de 1520.
Estudos religiosos de Lutero, bastião do Protestantismo, difundiram na Europa uma nova leitura da Bíblia, que restabeleceram os valores morais do homem. A vocação do indivíduo ao trabalho é a missão mundana conforme a vontade de Cristo. Obstinado em si, enfrentou judeus, monges, jesuítas e o Papa a fim de perseverar nas suas convicções. Empoderou-se da sola fide e tanto criticou o liberum arbitrium, mas só o fez porque teve a livre vontade de fazer. Assim como George Washington, que ordenava seus escravos a construírem elevados palcos para que o amo, ao público, discursasse sobre seus ideais abolicionistas. Ora, Lutero, primeiro o livre arbítrio, depois o determinismo. Primeiro o homem, depois Deus. “Não andarás com dois pesos e duas medidas”.
João Calvino:
Suíça, meados de 1540.
Alguns aspectos de um movimento decisivo à humanidade cujo protagonismo pode ser creditado à figura de Calvino.
A reforma da Igreja pode ser vista como uma dissidência religiosa do século XVII, que fincou pé na política pra defender uma nova forma de organização social, uma nova moral vinculada a defesa da produção capitalista e do aparato estatal, colocando o lucro como finalidade de vida, como Providência divina. O Brasil representa Calvino com perfeição.
Ora, o determinismo decide que empreender mercado escravagista, que resultou em mercantilismo agressivo, acúmulo de metais e, consequentemente, propiciou condições para a industrialização inglesa.em negócios religiosos é hoje uma lei natural, que recai inexoravelmente sobre os eleitos, pois a indulgência daqueles que não contribuem no negócio foi revogada.
Os sistemas jurídico, moral, religioso, econômico e político foram aos poucos se tornando uma só lei universal: chegamos no tal Deus Mercado.
Mas não sejamos injustos. Esse movimento também lutou por causas de grande virtude humanitárias, por exemplo, a educação e inclusão social do proletário, a popularização dos saberes e das ciências, da abolição da escravidão, da revolução e independência de várias nações. Assim nasceu o mundo moderno, com pirâmide social de base larga e cume alto, dividida em esquerda e direita. Assim surgiram os impérios liberais, nacionalistas, dependentes de comércio exterior, mas ávidos por guerra. Haja tanta contradição para uma espécie. De tão esquisito, o humano é capaz de se auto-denominar um ser inteligente.
João Calvino:
Suíça, meados de 1540.
Alguns aspectos de um movimento decisivo à humanidade cujo protagonismo pode ser creditado à figura de Calvino.
A reforma da Igreja pode ser vista como uma dissidência religiosa do século XVII, que fincou pé na política pra defender uma nova forma de organização social, uma nova moral vinculada a defesa da produção capitalista e do aparato estatal, colocando o lucro como finalidade de vida, como Providência divina. O Brasil representa Calvino com perfeição.
Ora, o determinismo decide que empreender mercado escravagista, que resultou em mercantilismo agressivo, acúmulo de metais e, consequentemente, propiciou condições para a industrialização inglesa.em negócios religiosos é hoje uma lei natural, que recai inexoravelmente sobre os eleitos, pois a indulgência daqueles que não contribuem no negócio foi revogada.
Os sistemas jurídico, moral, religioso, econômico e político foram aos poucos se tornando uma só lei universal: chegamos no tal Deus Mercado.
Mas não sejamos injustos. Esse movimento também lutou por causas de grande virtude humanitárias, por exemplo, a educação e inclusão social do proletário, a popularização dos saberes e das ciências, da abolição da escravidão, da revolução e independência de várias nações. Assim nasceu o mundo moderno, com pirâmide social de base larga e cume alto, dividida em esquerda e direita. Assim surgiram os impérios liberais, nacionalistas, dependentes de comércio exterior, mas ávidos por guerra. Haja tanta contradição para uma espécie. De tão esquisito, o humano é capaz de se auto-denominar um ser inteligente.
Oliver Cromwell:
Inglaterra, meados de 1640.
Líder do New Model Army, modelo militar que estabeleceu a organização hierárquica pautada na meritocracia. Nascido em uma classe social privilegiada, denominou-se puritano e participou da condenação do Rei Carlos I, bem como da perseguição aos cristãos dos reinos contíguos, seguidores da Igreja romana. Empoderado, negociou com Portugal a abertura econômica para a Colônia Brasil, associando-se ao lucrativo mercantilismo, requisito para a intensa industrialização anglo-saxônica.
Benjamim Franklin:
Estados Unidos, meados de 1750.
O homem é livre para desenvolver seus conhecimentos e suas habilidades a fim de bem viver, desde que persista em um objetivo definitivo, pautado na religião, naipe de uma providência divina, com a virtude e o patriotismo incólumes. Sua biografia muito se assemelha às Confissões de Rousseau. Não se consagrou enciclopedista na França, mas dedicou sua existência à comunicação, nos Estados Unidos. Veiculava sua mensagem por meio do próprio jornal, sendo um baluarte da mídia moderna e um dos precursores da Revolução Industrial da energia elétrica. Além de ter atuado na independência de sua nação, colaborou fortemente no desenvolvimento econômico e político de espírito Capitalista. Se o homem nasce em débito com sua natureza coletiva e deve dedicar sua existência às soluções práticas para a sociedade, Franklin teve crédito, foi um bom pagador.
Patrick Colquhoun:
Patrick Colquhoun:
Inglaterra, meados de 1780.
Parceiro de Jeremy Bentham (quem elaborou o panóptico) no desenvolvimento e criação da primeira polícia regular na Inglaterra, patrocinado pelos mercadores do porto, a alta burguesia dominante, a fim de garantir a segurança das riquezas ali capitalizadas. Propôs em seu “A Treatise on the Police of the Metropolis” a aproximação entre moralidade e legalidade, solicitando ao estado o dever de vigiar e punir, bem como a criação e aplicação de leis para manter a ordem, num pacto social burguês, e manter em reclusão o marginal, como condenação, na penitenciária. A polícia torna-se um aparato moderno de vigilância armada, que atuará sob método sistemático e centralizador, como uma ciência vinculada à economia política, com força contra as formas de ameaça ao estado (soberano) e ao patrimônio burguês (classe dominante). Época em que a classe operária formava uma massa volumosa, ora útil mão de obra para a revolução industrial, ora uma potência de rebelião e desordem ameaçadora ao modus operandi et vivendi - instrumento coercitivo e estatizado de controle cultural-ético-jurídico na vida cotidiana, com o propósito de controlar a natureza comportamental de uma classe em favor de outra.
Maximilien Robespierre:
Parceiro de Jeremy Bentham (quem elaborou o panóptico) no desenvolvimento e criação da primeira polícia regular na Inglaterra, patrocinado pelos mercadores do porto, a alta burguesia dominante, a fim de garantir a segurança das riquezas ali capitalizadas. Propôs em seu “A Treatise on the Police of the Metropolis” a aproximação entre moralidade e legalidade, solicitando ao estado o dever de vigiar e punir, bem como a criação e aplicação de leis para manter a ordem, num pacto social burguês, e manter em reclusão o marginal, como condenação, na penitenciária. A polícia torna-se um aparato moderno de vigilância armada, que atuará sob método sistemático e centralizador, como uma ciência vinculada à economia política, com força contra as formas de ameaça ao estado (soberano) e ao patrimônio burguês (classe dominante). Época em que a classe operária formava uma massa volumosa, ora útil mão de obra para a revolução industrial, ora uma potência de rebelião e desordem ameaçadora ao modus operandi et vivendi - instrumento coercitivo e estatizado de controle cultural-ético-jurídico na vida cotidiana, com o propósito de controlar a natureza comportamental de uma classe em favor de outra.
Maximilien Robespierre:
França, meados de 1790.
Líder político de boa oratória, revolucionário tirano que liderou o Terror durante a Revolução Francesa, apelando radicalmente ao encantamento das massas para estabelecer uma forma de poder não democrático, de extermínio e vitalício. Um denominado esquerdista dotado de boa permeabilidade na classe burguesa, o que hoje seria no Brasil a pseudo-esquerda vinculada à pequeno-burguesia de sindicatos e de movimentos sociais. Aparentemente, o precursor dos tiranos do século XX - Hitler, Stalin, Mussolini, Franco, Mao, Pol Pot, Il-Sung, Pinochet, Castro, Chaves etc. Ora, Robespierre, ao apelo das massas prescrevem-se a reeleição, a escravidão e o ateísmo, mas a ti próprio guilhotinam-se milhares que se opuserem à servidão do teu summum bonum.
Dentre as políticas populistas, Robespierre estabeleceu a admissão a cargos públicos por meio de concursos pautados na distinção de talentos e virtudes. Foi degolado pela alta burguesia, que se organizou alinhada aos demais grupos dominantes interessados e assumiu o poder, determinando, assim, o caráter definitivamente burguês na França. A Revolução Francesa fundou o alicerce do poder burguês, ou seja, engessou a estratificação social, solidificou os trabalhadores como base da pirâmide para sustentarem a abóboda de burgueses empoderados. Além, a Revolução caracterizou o modus operandi da política burguesa ocidental, o mesmo que permanece atualmente nos parlamentos monárquicos, congressos presidencialistas e demais aparatos de poder dessa nova classe dominante: a República Montesquieuana.
Continua...
Dentre as políticas populistas, Robespierre estabeleceu a admissão a cargos públicos por meio de concursos pautados na distinção de talentos e virtudes. Foi degolado pela alta burguesia, que se organizou alinhada aos demais grupos dominantes interessados e assumiu o poder, determinando, assim, o caráter definitivamente burguês na França. A Revolução Francesa fundou o alicerce do poder burguês, ou seja, engessou a estratificação social, solidificou os trabalhadores como base da pirâmide para sustentarem a abóboda de burgueses empoderados. Além, a Revolução caracterizou o modus operandi da política burguesa ocidental, o mesmo que permanece atualmente nos parlamentos monárquicos, congressos presidencialistas e demais aparatos de poder dessa nova classe dominante: a República Montesquieuana.
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