segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Um animal no meio do caminho

"Quando tudo estiver acabado: escrever sem preocupação de ordem. Tudo o que me passar pela cabeça." Albert Camus.

"Sou o intervalo entre o meu desejo e aquilo que os desejos dos outros fizeram de mim." Fernando Pessoa.


            Se eu pudesse dependeria somente Dele, mas somos vulneráveis e dependemos do coletivo. Não à toa, a criança é o mais despreparado e indefeso dos filhotes animais. Somos feitos animais racionais para e pela sociedade. A razão prevalece sobre o instinto ou foi justo o medo que nos levou à sociedade? Por que o medo? A Liberdade conquistada após o desmame, após a tonificação dos músculos, propriocepção, equilíbrio e o aprendizado da fala nos possibilita escolher: podemos ir ali ou acolá, podemos dizer sim ou não. Esta liberdade dá medo.
Nossa liberdade não passa de uma ilusão aprisionada dentro da caverna platônica, refém do Leviatã Hobbesiano, cercada dentro da propriedade Lockeana, arrebanhada pela moral nietzschiana ou ainda sob o biopoder foucaultiano. Temos a liberdade para escolher entre a opção correta e a segunda opção. No entanto, há uma tendência de optarmos no embalo do contexto cronotópico: a nossa liberdade está tacitamente comprometida, limitada às nossas experiências e aos riscos que avaliamos.     
Estamos presos dentro da nossa própria conduta. Presos a uma caminhada matinal, a um cardápio restrito, a uma rotina de trabalho, a uma gravata apertada, a vícios diversos e a prazeres fúteis. Ou ainda pior, presos à condição da impossibilidade dessas opções: a privação é uma forma perversa de aprisionamento, seja qual for o motivo, desejada ou não.
Haveremos de pensar nas pessoas que cultuam o corpo, seja por venerar a morada da alma ou por recompensar a baixa intelectualidade, e naqueles que se abstêm dos prazeres mundanos na busca por uma elevação espiritual. Ai dessas pessoas que dedicam a vida obstinadamente a um fim e não admiram a beleza do caminho percorrido. Haveremos de apreciar a travessia mais do que a chegada. Haveremos de vislumbrar a subida ao invés do cume. Haveremos de fruir a vida apesar da inevitável morte. Dados os exemplos, refiro-me a esse tipo de miopia que ofusca o nosso papel diante da sociedade. Há uma tendência à abstração da nossa responsabilidade no tocante à vida na polis, pois essa é fustigada pela busca insaciável do acúmulo. Acumular o que senão boas lembranças?
Essa mesma cegueira nos impede de assumir um compromisso com a comunidade. Por quê? Pois deveríamos participar da construção e da manutenção das instituições públicas, a fim de garantir o bom funcionamento da sociedade. Ao invés, assumimos um papel passivo de esperar a intervenção do Estado, seja na educação ou na segurança, tão necessárias à vida citadina.
E a lei? O papel da lei, enquanto direcionadora e mantenedora da ordem, é essencial e cabe ao Estado defini-la e aplicá-la visando o bem comum. Pois bem, opiniões individuais à parte, devemos consentir com as decisões favoráveis à maioria e cooperar. Neste ponto da discussão, torna-se necessário a força policial, talvez para restabelecer o medo necessário ao poder do Leviatã, quiçá para guarnecer a barreira entre a propriedade burguesa e os infortunados marginais.
O ser é naturalmente egoísta, pois temos inveja do próximo e desejamos a supremacia. Portanto, faz-se necessário o Estado e sua polícia para manter a ordem a favor do bem comum. O fato de sermos egoístas não implica necessariamente em maldade, mas em considerar primeiramente os interesses individuais acima do coletivo. O mesmo se aplica ao detentor do poder, que sendo egoísta se apresenta como um tirano maquiavélico. O que fazer então? Sim, devemos controlar o impulso egoísta (domando o animal competitivo e agressivo que carregamos no gene) e exercitar o altruísmo em prol do bem comum (convertendo a inata potência espiritual em verdadeira benevolência adquirida) a fim de dispersar felicidade. Eis nosso maior e mais belo desafio na vida, ai de mim, e não nos seduziremos em cumpri-lo por mero carisma ou honraria, mas por dignidade e simplicidade.    
Ó Epiteto, escravo de Nero que persistiu na busca pelo saber até obter sua redenção. Demonstrou a Marco Aurélio a mais pura essência do ser. Nem Epícuro nem Sêneca demonstraram tamanha simplicidade e autenticidade de espírito quanto a este grandioso homem. Em meio à vida aviltada que Roma lhe castigou, manteve-se firme no caminho da sabedoria. Somente o bem ele pregava aos homens, sem esperar recompensa em troca, e este foi seu maior ensinamento o qual devemos relembrar.

Minha cabeça virou no avesso e encontrei várias respostas do lado de fora, sem saber que as perguntas sequer existiam.


Foto: Elephanta Island, Mumbai, Índia. 2015.

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