sexta-feira, 30 de novembro de 2018

A Sociologia da Burocracia e suas Disfunções



“O objetivo do consumidor não é possuir coisas, mas consumir cada vez mais e mais a fim de que com isso compensar o seu vácuo interior, a sua passividade, a sua solidão, o seu tédio e a sua ansiedade.” (Érico Veríssimo)


“Algumas pessoas buscam poder, sucesso e riqueza para elas mesmas e os admiram nos outros, subestimando tudo aquilo que verdadeiramente tem valor na vida.” (O mal-estar na civilização. Sigmund Freud.)


Disfunções da Burocracia de Weber, segundo Merton:

1. Internalização das Regras e Apego aos Regulamentos – As normas e regulamentos passam a se transformar de meios em objetivos. Passam a ser absolutos e prioritários. Os regulamentos, de meios, passam a ser os principais objetivos da burocracia.
2. Excesso de Formalismo e de Papelório – A necessidade de documentar e de formalizar todas as comunicações dentro da burocracia a fim de que possa ser devidamente testemunhado por escrito pode conduzir à tendência ao excesso de formalismo, de documentação e de papelório.
3. Resistência Mudanças – Como tudo dentro da burocracia é rotinizado, padronizado, previsto com antecipação, o funcionário geralmente se acostuma a uma completa estabilidade e repetição daquilo que faz, o que passa a lhe proporcionar uma completa segurança a respeito de seu futuro na burocracia.
4. Despersonalização do Relacionamento – A burocracia tem como uma de suas características a impessoalidade no relacionamento entre funcionários. Daí o seu caráter impessoal, pois ela enfatiza os cargos e não as pessoas que os ocupam. Isto leva a uma diminuição das relações personalizadas entre os membros da organização.
5. Categorização como Base do Processo Decisorial – A burocracia se assenta em uma rígida hierarquização da autoridade. Portanto, quem toma decisões em qualquer situação será aquele que possui a mais elevada categoria hierárquica, independentemente do seu conhecimento sobre o assunto.
6. Superconformidade às Rotinas e aos Procedimentos – Com o tempo, as regras e rotinas tornam-se sagradas para o funcionário. O impacto dessas exigências burocráticas sobre a pessoa provoca profunda limitação em sua liberdade e espontaneidade pessoal.
7. Exibição de Sinais de Autoridade – Surge a tendência á utilização intensa de símbolo de status para demonstrar a posição hierárquica dos funcionários, como uniforme, mesa etc.
8. Dificuldade no Atendimento a Clientes e Conflitos com o Público – O funcionário está voltado para dentro da organização. Esta atuação interiorizada para a organização o leva a criar conflitos com os clientes da organização. Todos os clientes são atendidos de forma padronizada, de acordo com regulamentos e rotinas internos, fazem com que o público se irrite com a pouca atenção e descaso para com seus problemas particulares e pessoais.
¹ Robert King Merton, nascido Meyer R. Schkolnick, (Filadélfia, 5 de Julho de 1910 — Nova Iorque, 23 de Fevereiro de 2003) foi um sociólogo estadunidense. É considerado um teórico fundamental da burocracia, da sociologia da ciência e da comunicação de massa. Passou a maior parte de sua vida acadêmica ensinando na Universidade Columbia. É pai do economista Robert C. Merton.


 A Sociologia da Burocracia analisada:


Weber propôs um tipo ideal no qual certas tendências de estruturas concretas são postas em evidência pelo fato de terem sido enfatizadas em sistemas de subsistência. (Gouldner apud Maximiano. 2000, p. 97)


São elas, conservantismo, tecnicismo, impessoalidade, internalização, formalização, resistência, despersonalização, conformidade, autoridade, categorização. (Merton apud Bergue. 2005, p. 69/72 )

Recentemente, são consideradas a Teoria X, teoria negativa do comportamento humano e a Teoria Y, teoria positiva do comportamento.
Segundo Robbins (2004, p.48), na Teoria X os executivos têm quatro
premissas:
“- Os trabalhadores, por natureza, não gostam de trabalhar e, sempre que
possível, tentarão evitá-lo.
- Como não gostam de trabalhar, eles precisam ser coagidos, controlados ou
ameaçados com punições para que atinjam as metas.
- Os trabalhadores evitam as responsabilidades e buscam orientação formal
sempre que possível.
- A maioria dos trabalhadores coloca a segurança acima de todos os fatores
associados ao trabalho e mostram pouca ambição.”
Na teoria Y, as quatro premissas positivas contrastam com a Teoria X:
“- Os trabalhadores podem considerar o trabalho como algo tão natural
quanto descansar ou divertir-se.
- As pessoas demonstram auto-orientação e autocontrole se estiverem
comprometidas com os objetivos.
- Na média, as pessoas podem aprender a aceitar ou até a buscar a
responsabilidade.
- Qualquer pessoa pode ter a capacidade de tomar decisões inovadoras; não
se trata de privilégio exclusivo daquelas que ocupam posições hierárquicas
mais altas.”

Um homem pode ser pago para agir e se comportar de certa maneira preestabelecida, a qual lhe deve ser explicada com exatidão, muito minuciosamente e em hipótese alguma permitindo que suas emoções interfiram no seu desempenho. Os funcionários obtêm os meios para sua subsistência.
Max Weber (1864-1920)

Funcionário, respeite a organização que te emprega e fornece tua subsistência. Valorize teu pagamento, pois cada centavo representa cada segundo do teu trabalho. Elimine as disfunções burocráticas de sua/tua rotina. 



Daniel Miyahira Guerrazzi


Campinas, 08 de janeiro de 2013


segunda-feira, 22 de outubro de 2018

DISTOPIA HARDCORE

O TEXTO, DE AUTORIA DE CESAR BRAVO, FOI CENSURADO NO FACEBOOK, MAS TRANSCRITO E REPUBLICADO INTEGRALMENTE AQUI, COM A DEVIDA AUTORIZAÇÃO DO AUTOR.


DISTOPIA HARDCORE

Winston acordou e ligou no noticiário da TV. Seu novo líder continuava nomeando capitães. Sorridente, o advogado serviu um pouco de ração a Ariano, seu gato. Em seguida, um desvio ligeiro do beijo matinal da esposa que estava seca como um taco de giz há 150 anos.

Winston arfou o ar livre e oxigenado da rua. Era bom ser ele, finalmente era bom poder ser ele mesmo.

Quanto ao veadinho da esquina, ele andava assustado. O pai dele, outro veado (obviamente covarde demais para se assumir uma bicha), também andava ausente. A mãe gazela, uma pobretona metida a comunista; até aquela vaca ressentida estava quieta.

Silêncio era bom, muito melhor que ouvir Pablo, Rihanna, Beyonce ou qualquer outra besteira pansexuada.

O país estava mudando, entrando nos eixos. Os de baixo embaixo, os de cima em cima, exatamente como Deus Nosso Senhor havia feito. Amém.

Winston arfou mais ar puro e oxigenado e atravessou a rua. Havia um gato morto bem na metade do caminho. Winston sorriu, mas não fez piada alguma, não em voz alta, afinal, falar de cor do bicho ainda era crime (havia projetos "igualitários"? Claro que sim, mas nada conclusivo até o momento). Continuou andando, assoviando uma música gospel medíocre e contendo os dentes que ameaçavam sorrir até saírem da boca.

O mundo cheirava como novo. A manhã brilhava, as minorias ocupavam a menor parte do espaço. Era um bom mundo. Era uma boa novidade.

Antes de chegar ao outro lado, dois garotos exalando Deca Durabolin pelos poros o notaram. Um deles riu, o outro retribuiu com um riso mais largo. Chegaram mais perto, e só então Winston notou o único borrão daquela manhã gloriosa. Prometeram policiamento e combate ao crime, mas o que havia eram milícias. Pequenas, médias e enormes. Prometeram o fim do tráfico, mas o que ocorreu foi uma redistribuição dos tóxicos por dissidentes das forças armadas. Contrabando. O bê-á-bá das ditaduras.

Os rapazes tinham armas de fogo, claro que sim. Tudo legalizado. Eram parte de uma pequena milícia. Eleitores revoltosos do capitão. Onde estavam os empregos prometidos? O novo mundo? A nova pátria? O jeito era pegar o que pudessem, na marra, nas ruas, de quem marcasse touca. Lei do mais forte.

Eles nem precisaram sujar as mãos.

Morre um inocente ou outro, fazer o que? Nem dinheiro o filho da puta tinha na valise.

O sol continuava radiante quando a escuridão perpétua tomou conta do mundo de Winston.

Um bom mundo? Claro que sim...



Sobre o Autor: 
Cesar Bravo é um escritor brasileiro. Nascido em Monte Alto, São Paulo, em 1977, e formado em ciências farmacêuticas (é farmacêutico de formação, que faz da palavra o ingrediente ativo do suspense e do medo - um amargo e eficaz remédio). Cesar é autor e coautor de contos, antologias, romances, enredos, roteiros e blogs. Livros publicados: Além da Carne, Ouça o que eu digo, Navio Negreiro, Caverna de Ossos, Calafrios da Noite, Ultra Carnem, entre outros.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Temas: Especulações para Investir na Bolsa e Conformismos para Doutorado em História



Jair, o cavaleiro templário do Bispo Edir Macedo, que levará a nova Cruzada à Venezuela na guerra contra o mal, financiada pela Taurus, que valorizou mil% com acionistas de Wall Street. Latam é o Oriente Médio da vez. Ouro negro em nome de Deus, banhado a sangue 18 quilates, jorrando do dilacerado povo brasileiro no quintal do tio Sam. Lula é demônio à la Bin Laden. Maduro é caudilho à la Kadafi, ONU e Papa que não se intrometam. A grande mídia cria a hidra e o Juiz Moro decepa a singular cabeça peçonhenta para que a idolatria delirante do rebanho pare rodovias e desenterre Hitler.
Tríade primordial infalível: sentimento>significado>autoridade. Sinta medo e ódio, signifique nação e Deus, autorize a barbárie. Paixão e Doença, os gregos dão o mesmo nome para ambos os conceitos: “Pathos”. Se houver significado excessivo ao sentimento paixão, torna-se autorizado à doença. Pathos, de empatia ou de patologia.
Brasil acima de tudo, Deus acima de todos. Glória a Deux. Vote no Messias, Jair 17.

A História é uma gangorra disciplinada: “sentido. esquerda/direita. volver!”
Nosso sangue é a força motriz que a alimenta e, como recompensa, ela dá um significado à nossa servil existência. Alistamento militar, Título de Eleitor, Impostos e IBGE. Uma vida é Estatística com CPF ou um número com ansiedade.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Roger Waters, Bolsonaro, PT e Outros Formadores de Rebanho


Roger Waters é poderoso, pois tem a massa consigo. Cria facilmente histeria coletiva e, se político, elegeria-se comandante do universo.
Diziam das letras de MPB que eu ouvia na infância, carregadas de críticas explícitas à organização de poder vigente na época, que eram escritas para enganar o censor. Na minha cabeça, a dúvida “Como não perceberam? A mensagem é óbvia!”. A resposta está vindo a tona.
“Orexis” é vital sob intensidade controlada, pois, quando se torna escassa ou excessiva, conduz o ser a movimentos egoísticos, de pulso de morte e ou aniquilação, por vezes de coisas que nem sequer transmitam ameaça. Eis que o poder atua como tônico de apetite, cujo clímax é uma das recompensas da Política, controle maior do poder público.
Poderia o censor liberar propositalmente conteúdos a fim de criar pretexto? Ameaça comunista era “fake” e é “fake”. Cria-se o monstro, constrói-se uma ameaça a ser combatida a fim de gerar medo, prometem a salvação para justificar o uso da força, com mobilização e obediência das massas ao movimento histérico de ataque às diferenças. Papinho de filosofia prolixa e mercadológica de era pós-verdade, auto-verdade etc. Publicação de “fake news” é parte do nosso comportamento - a parte sádica - muito usada por tiranias e caudilhos formadores de rebanho.
Ontem fui no Roger Waters e me rendi à emoção. Identificado esse comportamento  humano do Waters, de arrebanhar fãs em nome de sua antiga causa, da onda fascista que ameaça a paz mundial, cada lágrima que chorei reforça um sentimento de fracasso, efeito do espírito humanista que me cobra perfeição.
Estou buscando um equilíbrio saudável entre empatia frugal e razão prazerosa, que, pela óbvia contradição entre os objetos e as qualidades e entre as duas qualidades, mostra-se impossível.
Tento abranger ao máximo o ambiente antes de sacar a câmera e apontar a lente a um quadro para disparar uma fotografia. Tirar foto ao léu aleatoriamente seria agir do fim ao meio, retroceder às escuras. Fechar o ângulo ou aumentar o “zoom” possibilita uma profundidade, especificidade, desde que tenha ciência do cenário amplo, altivo. Primeiro estabelece-se o objetivo, depois o identifica-se o objeto. Primeiro define-se o destino, depois planeja-se qual caminho percorrer. Por último, atua-se ordenando e relacionando o contingente com o continente. A finalidade desses exercícios pode estar num bom diagnóstico do sujeito, numa boa avaliação do objeto, na constância da sabedoria ou, destarte, na felicidade.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

A Política e Crítica à Convolução Humana


Época de Eleição e muitos passam a vociferar contra a corrupção, mazelas da política, selvagerias da economia, intolerância, comunismo, fascismo etc., como se fosse patologia de um Partido ou de um indivíduo. Pois bem, coloco-me a contar a seguinte “estória” que passou pela minha cabeça.

Diz uma lenda que há alguns séculos, no novo mundo - extensa terra fértil de lucrativas empreitadas -, o homem virtuoso criou os “ismos” da vida moderna (liberalismo, presidencialismo etc). Os “ismos” serviam ao homem e nunca o inverso. Logo, caberia a nós mesmos elevar esses sistemas a outros patamares, conforme a nossa necessidade. Não haveria problema NENHUM em criticarmos, elaborarmos novas ideias, propormos melhorias ao coletivo. Mas os criadores dos “ismos” veneravam pirâmides. Criaram-se pirâmides altas e colocaram-se no topo delas, de onde podiam vigiar a larga base e punir qualquer desobediente que ousasse se manifestar contrariamente. Em nome Dele, ó sagrado tesouro do Oriente! Vinde a mim e eu vos aliviarei.

Com muita dedicação (ou por herança) era possível atingir o topo, uma posição almejada que representava o máximo poder. Uma vez lá, fazia-se de tudo para não se rebaixar. O poder era tanto que até me lembra antigos mitos politeístas. Ora, mas a base - ampla maioria - comportava-se sob servidão voluntária. Ai de mim, tamanho poder que subtrai do sábio a virtude de julgar com um peso e uma medida. Perceba que quanto mais alto gritar o nome Dele um servo, maior será a expectativa de enfrentarmos um ser corrompido. Faithless.

A maior ditadura e mais difícil de ser superada é nós mesmos. Viemos de tempos selvagens.  Nossos ancestrais tinham que obedecer cegamente aos seus impulsos senão a natureza os esmagava. Fome, disputa, frio, predadores. Uma pergunta: mecanismos de recompensa (ou prazer) como meio de perseverar em si implicam na nossa condição de escravos da própria individualidade ou de escravos da sobrevivência da espécie? Dizem que os medrosos vivem mais. Dizem também que os egoístas estão em constante insatisfação.

As religiões abordam isso lindamente, em especial para mim o Budismo e o Hinduísmo. Hoje, superado isso às custas de extinções em massa, o primitivo comportamento virou um resquício tormentoso que havemos de carregar e é PESADO. Vontade, apetite (“orexis”), hedonismo, acrasias em geral.

Outra pergunta: será que está superado? Se somos servis aos “ismos”, isso se deve ao fato de que dependemos de uma figura forte do estado paternalista, que organize os meios sociais e mantenha a tal “ordem e progresso”. Os “ismos” seriam perfeitos se o homem não fosse lobo do homem. Após outubro, decerto, a imperfeição de outros “ismos” assumirá o comando de nossa personalidade. Identificar-nos-emos com Consumismo, Fisioculturismo, conformismo, pessimismo, abismo. Quanto a mim, falta-me altruísmo e sobra cinismo.

Mais um pouco de mim, pobre que sou, seria incapaz de elaborar algo assim. Entretanto, tento por meio de uma confissão encontrar algum alívio. Alguma coisa das leituras de La Boétie, Galeano, Huxley e filósofos populares que me transformou nessa farsa produtora de plágios, tenha o leitor gostado ou não.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

O Rurigokuê e Nosso Comportamento Patético


Apolo e Dionísio, entes mitológicos antigos, atualmente perderam seu poder arrebanhador social de outrora. No entanto, ainda vivemos em uma tensão entre duas crenças dicotômicas, que continuam exercendo satisfatoriamente a função unificadora, de agrupamento e cooperação de grandes amostras populacionais.

Não se trata de maniqueísmo ou zoroastrismo. Os valores não são mais representados pela religião, pois a ciência tomou o seu lugar no panteão. Porém, a capacidade, doravante Rurigokuê, de imaginar o transcendente, de perceber as invenções inteligíveis que existem apenas na nossa fértil consciência é praticada desde o pretérito remoto e permanece ativa como dispositivo protetor da existência.

O Helenismo clássico apresenta um elenco renovado sob o nome de Humanismo. A tragédia deixou de ser grega, mas permanece. A razão de Apolo e o prazer de Dionísio, filhos de Zeus, estão atualmente representados pela igualdade do Socialismo e liberdade do Liberalismo, filhos dos Direitos Humanos.

O determinismo celestial das providências universais foi substituído pelo livre arbítrio humanístico das propriedades individuais. Ai de mim, pobre de espírito, que matei meus deuses, mas ainda busco explicações para tudo. Ó Mercado, interceda no controle da natureza e preencha o vazio do Ser.

Os opostos são indissociáveis entre si e formam uma gangorra que oscila a cada 4 anos. Não obstante, essa distração ocupa um tempo relativamente grande não só nos veículos de comunicação, mas na duração da nossa memória. A publicidade tem poderes místicos e é a alma do negócio. A exposição ao espetáculo é tanta que há muitos afligidos por surtos psicóticos, inclusive consumistas.

Mas, enquanto o circo pega fogo, a multidão encanta-se e ofende-se a si própria, como num eterno retorno. Ora, um sufrágio acirrado mantém a audiência do Hagnarok alta. O duelo de titãs. Deuses contra o Mito.
E aqueles que ocupavam as tribunas gregas e mantinham o poder por meio de Rurigokuê? Estão a ocupar os três poderes nos entes da União e mantêm o poder por meio de Rurigokuê. Como é bela e previsível a tragédia!

sábado, 12 de maio de 2018

O DESENVOLVIMENTO DO ESPÍRITO CAPITALISTA: UMA TRANSFIGURAÇÃO DA ESPÉCIE


“A ilegalidade é um front de luta por uma nova legalidade. Mais que conflito entre classes sociais, são os interesses pessoais que formam novas tendências, transformam o paradigma e transfiguram a espécie. Em busca de atingir um fim, o indivíduo interfere desastrosamente no meio, ameaçando a soberania e o pacto social. O homem, na sua existência impulsiva, permanente convicto de seus próprios desejos mundanos, tão condicionado pelo meio que ele mesmo corrompeu.”


INTRODUÇÃO

O signo trabalho mudou de denotação. No novo paradigma, deixou de ser um conceito cuja definição representasse um mero meio de subsistência ou uma dura pena de dívida (outrora sofrimento, tortura, do latim tripalium) e passou a significar um conjunto de atividades para atingir um determinado fim. Ora, pelas atuais evidências observadas, entendo que passou a ser um meio para a finalidade maior de satisfação do ego e acúmulo material do indivíduo.

Destarte, a natureza da espécie - uma posição inata dela - de precaver-se contra uma possível escassez de conditio sine qua non vital, em busca de perseverar em si, impulsivamente há de desejar o acúmulo. Mas, tragicamente, a maior parte dos materiais que o homem ambiciona não contribui para a manutenção da vida.

Além da definição de trabalho, parece que os valores das coisas também mudaram. A necessidade e a utilidade das coisas foram ultrapassadas pela soberba e ostentação. Não se trata de conforto nem segurança. Ó forma de organização social mais incompreensível ao personalista radical!

Se o que nos difere dos demais seres é a memória, o que será que a natureza tanto nos traumatizou no primórdio? Ai de mim, que critico a episteme e identifico-me com ela, simultaneamente! Encontro-me nessa inexorável acrasia, inexplicavelmente ávido por coisas inúteis a mim e aos outros as quais nem sequer garantirão a descendência da espécie, mas darão curtos prazeres paroxísticos, um tipo de recompensa insaciável, um onanismo autotélico, grosso modo, um padrão comportamental mal adaptativo. Ai de mim, que destila essa filosofia hipócrita a vocês, caros leitores, a fim de transferir e projetar o peso fatigante dos meus sofrimentos! Ai de mim, preso nessa armadilha mundana, esgotando minha virtude e restando-me com a pobreza de espírito tão grande quanto o capital do homem mais rico do mundo!


TEXTO

Primeiro, a crítica inicial: O Capitalismo pode ser reduzido à pura devoção ao sucesso de organizações racionais, com a finalidade exclusiva de satisfação material e eudemonismo individual (ou de bandos secretos), de forma cética, hedônica, crematística. Auri sacra fames.

Segundo, o convite: O texto é uma exploração, ou Arqueologia, do que pode ser o espírito Capitalista. Foi diretamente inspirado nas obras "A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo", de Max Weber, “A sociedade punitiva”, de Michel Foucault, bem como em diversas outras fontes que pude ler, como, por exemplo, "Espelhos", de Eduardo Galeano etc. Evitarei citar ou referenciar autores que pensam de maneira parecida, por preferência minha, mas o leitor mais atento poderá notar semelhanças desse texto com outros mais elaborados. O maior cuidado está sendo tomado para que plágios sejam evitados aqui, exceto em se tratando de textos de autoria própria, como, por exemplo, "A Genealogia da Burguesia Moderna" [link]. Pretendo manter esse texto em permanente construção, de forma a incluir ou adaptar trechos conforme os futuros mergulhos em outros textos e lembranças dos já lidos, numa saudável e prazerosa prática Spinoziana de identificar, ordenar e relacionar os saberes.

Eis que é inevitável a mim manter o discurso crítico fora do texto, devido principalmente à tendência esquerdista do meu cínico espírito. Ai de mim, destilador de doses egocêntricas e individualistas, oferecendo a você leitor minhas ideias goela abaixo. Prefiro pensar que não há alguém tão pobre de espírito que possa ser uma vítima indefesa de contumélias. Caso haja, recomendo que interrompa essa leitura e inicie a do Sêneca "A Constância do Sábio". Opiniões contrárias são igualmente bem-vindas, desde que haja bom senso na linguagem e nos argumentos  adotados para as críticas. Não obstante, torna-se bem-vinda a participação de todos que, porventura, permitam-se a essa experiência de permanente construção textual. Os trechos recebidos, sob a forma de comentários, caso haja e desde que compatíveis com o propósito dessa atividade, serão incluídos no texto.

Martinho Lutero:
Alemanha, meados de 1520.
Estudos religiosos de Lutero, bastião do Protestantismo, difundiram na Europa uma nova leitura da Bíblia, que restabeleceram os valores morais do homem. A vocação do indivíduo ao trabalho é a missão mundana conforme a vontade de Cristo. Obstinado em si, enfrentou judeus, monges, jesuítas e o Papa a fim de perseverar nas suas convicções. Empoderou-se da sola fide e tanto criticou o liberum arbitrium, mas só o fez porque teve a livre vontade de fazer. Assim como George Washington, que ordenava seus escravos a construírem elevados palcos para que o amo, ao público, discursasse sobre seus ideais abolicionistas. Ora, Lutero, primeiro o livre arbítrio, depois o determinismo. Primeiro o homem, depois Deus. “Não andarás com dois pesos e duas medidas”.

João Calvino:

Suíça, meados de 1540.
Alguns aspectos de um movimento decisivo à humanidade cujo protagonismo pode ser creditado à figura de Calvino.
A reforma da Igreja pode ser vista como uma dissidência religiosa do século XVII, que fincou pé na política pra defender uma nova forma de organização social, uma nova moral vinculada a defesa da produção capitalista e do aparato estatal, colocando o lucro como finalidade de vida, como Providência divina. O Brasil representa Calvino com perfeição.
Ora, o determinismo decide que empreender mercado escravagista, que resultou em mercantilismo agressivo, acúmulo de metais e, consequentemente, propiciou condições para a industrialização inglesa.em negócios religiosos é hoje uma lei natural, que recai inexoravelmente sobre os eleitos, pois a indulgência daqueles que não contribuem no negócio foi revogada.
Os sistemas jurídico, moral, religioso, econômico e político foram aos poucos se tornando uma só lei universal: chegamos no tal Deus Mercado.
Mas não sejamos injustos. Esse movimento também lutou por causas de grande virtude humanitárias, por exemplo, a educação e inclusão social do proletário, a popularização dos saberes e das ciências, da abolição da escravidão, da revolução e independência de várias nações. Assim nasceu o mundo moderno, com pirâmide social de base larga e cume alto, dividida em esquerda e direita. Assim surgiram os impérios liberais, nacionalistas, dependentes de comércio exterior, mas ávidos por guerra. Haja tanta contradição para uma espécie. De tão esquisito, o humano é capaz de se auto-denominar um ser inteligente.

Oliver Cromwell:
Inglaterra, meados de 1640.
Líder do New Model Army, modelo militar que estabeleceu a organização hierárquica pautada na meritocracia. Nascido em uma classe social privilegiada, denominou-se puritano e participou da condenação do Rei Carlos I, bem como da perseguição aos cristãos dos reinos contíguos, seguidores da Igreja romana. Empoderado, negociou com Portugal a abertura econômica para a Colônia Brasil, associando-se ao lucrativo mercantilismo, requisito para a intensa industrialização anglo-saxônica. 

Benjamim Franklin:
Estados Unidos, meados de 1750.
O homem é livre para desenvolver seus conhecimentos e suas habilidades a fim de bem viver, desde que persista em um objetivo definitivo, pautado na religião, naipe de uma providência divina, com a virtude e o patriotismo incólumes. Sua biografia muito se assemelha às Confissões de Rousseau. Não se consagrou enciclopedista na França, mas dedicou sua existência à comunicação, nos Estados Unidos. Veiculava sua mensagem por meio do próprio jornal, sendo um baluarte da mídia moderna e um dos precursores da Revolução Industrial da energia elétrica. Além de ter atuado na independência de sua nação, colaborou fortemente no desenvolvimento econômico e político de espírito Capitalista. Se o homem nasce em débito com sua natureza coletiva e deve dedicar sua existência às soluções práticas para a sociedade, Franklin teve crédito, foi um bom pagador.

Patrick Colquhoun:
Inglaterra, meados de 1780.
Parceiro de Jeremy Bentham (quem elaborou o panóptico) no desenvolvimento e criação da primeira polícia regular na Inglaterra, patrocinado pelos mercadores do porto, a alta burguesia dominante, a fim de garantir a segurança das riquezas ali capitalizadas. Propôs em seu “A Treatise on the Police of the Metropolis” a aproximação entre moralidade e legalidade, solicitando ao estado o dever de vigiar e punir, bem como a criação e aplicação de leis para manter a ordem, num pacto social burguês, e manter em reclusão o marginal, como condenação, na penitenciária. A polícia torna-se um aparato moderno de vigilância armada, que atuará sob método sistemático e centralizador, como uma ciência vinculada à economia política, com força contra as formas de ameaça ao estado (soberano) e ao patrimônio burguês (classe dominante). Época em que a classe operária formava uma massa volumosa, ora útil mão de obra para a revolução industrial, ora uma potência de rebelião e desordem ameaçadora ao modus operandi et vivendi - instrumento coercitivo e estatizado de controle cultural-ético-jurídico  na vida cotidiana, com o propósito de controlar a natureza comportamental de uma classe em favor de outra.

Maximilien Robespierre:

França, meados de 1790.
Líder político de boa oratória, revolucionário tirano que liderou o Terror durante a Revolução Francesa, apelando radicalmente ao encantamento das massas para estabelecer uma forma de poder não democrático, de extermínio e vitalício. Um denominado esquerdista dotado de boa permeabilidade na classe burguesa, o que hoje seria no Brasil a pseudo-esquerda vinculada à pequeno-burguesia de sindicatos e de movimentos sociais. Aparentemente, o precursor dos tiranos do século XX - Hitler, Stalin, Mussolini, Franco, Mao, Pol Pot, Il-Sung, Pinochet, Castro, Chaves etc. Ora, Robespierre, ao apelo das massas prescrevem-se a reeleição, a escravidão e o ateísmo, mas a ti próprio guilhotinam-se milhares que se opuserem à servidão do teu summum bonum.
Dentre as políticas populistas, Robespierre estabeleceu a admissão a cargos públicos por meio de concursos pautados na distinção de talentos e virtudes. Foi degolado pela alta burguesia, que se organizou alinhada aos demais grupos dominantes interessados e assumiu o poder, determinando, assim, o caráter definitivamente burguês na França. A Revolução Francesa fundou o alicerce do poder burguês, ou seja, engessou a estratificação social, solidificou os trabalhadores como base da pirâmide para sustentarem a abóboda de burgueses empoderados. Além, a Revolução caracterizou o modus operandi da política burguesa ocidental, o mesmo que permanece atualmente nos parlamentos monárquicos, congressos presidencialistas e demais aparatos de poder dessa nova classe dominante: a República Montesquieuana.


Continua...






domingo, 25 de fevereiro de 2018

NÃO AO RETROCESSO, POR UM FUTURO MELHOR: A ESPERANÇA PERSISTE!


NÃO AO RETROCESSO, POR UM FUTURO MELHOR: A ESPERANÇA PERSISTE!

Ao longo dos séculos, enquanto alguns privilegiados com heranças e imunidades jurídicas acumularam grandes fortunas materiais no Brasil, o proletário aprendeu a suportar o sacrificante cotidiano com suas paixões da terra e da carne. Na vastidão continental do território brasileiro, afora diversas formas regionais de cultura, criamos um núcleo autêntico e comum a todos, como, por exemplo, a nossa língua, a paixão por futebol, por carnaval, por arroz e feijão, por telenovelas, por santos e orixás, o calor das relações humanas e da cachaça, dentre outros. Temos fronteiras relativamente novas e, desde o tempo de Pindorama, muito permeáveis às novidades estrangeiras. Somos um povo ainda muito jovem considerando-se a história da humanidade, que precisa de uma educação inclusiva e libertadora aos jovens do futuro. Alhures há culturas milenares, da Ásia, Oriente Médio, África e Europa e, não obstante, vêm destes povos as consolidadas teorias filosóficas, religiosas, políticas - as elevadas criações da mente humana. Além, há povos que formaram uma unidade econômica e militar forte, donos de mercados, produções e recursos, que influenciam e lideram os demais estados à custa de exploração e subjugação de outros povos. Embora muita política e normatização sejam incorporadas do estrangeiro sem adaptação à nossa realidade, temos uma forma de processar e desempenhar as influências externas, de modo que algumas de nossas produções (científica, filosófica, política) possuem uma autenticidade menor que outras (artística, literária, gastronômica) por causa de fins mercantilistas e de interesses de grupos dominantes.

Ora, entendo que o Brasil tem uma estrutura social em movimento, instável e abissal, que precisa ser superada, apesar de tanto sangue que já correu nessa terra. Teremos no porvir uma maior diferenciação e autonomia em relação aos demais estados, apesar da tendência de uma cultura globalizada cada vez mais massificada, homogeneizada e líquida. Nossa cultura, grosso modo, resume-se hoje num aglomerado de valores e significados indígenas, africanos, latinos, asiáticos etc., ou seja, um processo recente de aculturação e inculturação, fruto do colonialismo, escravagismo e de intensos processos imigratórios, que no último século definiram as principais características das regiões brasileiras. Destarte, o futuro brasileiro será produtivo, com uma política e uma justiça operantes e controladas, um estado de direito democrático e justo, que possibilite a todos a plena cidadania, pois o nosso terreno é fértil e o nosso povo é forte. Não há negociação quando se está com a cabeça na boca do Leão, disse Winston Churchill, pois assim a conquista deve ser batalhada e a nossa maior arma na selva capitalista é a educação. Não haverá trégua contra os velhos latifundiários e as grandes fortunas da oligarquia neoliberal. Vamos à luta, camaradas!




sugestões de leitura:

http://portal.mec.gov.br/component/content/article?id=60651
http://www.wsws.org/

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

“The Economist”: A humanidade vacila à beira da guerra mundial

texto original disponível em: http://www.wsws.org/en/articles/2018/01/30/pers-j30.html


The Economist: Humanity teeters on the brink of world war
The Economist: A humanidade vacila à beira da guerra mundial
30 January 2018
30 de janeiro de 2018

The Economist magazine, the influential London weekly described by Karl Marx over 150 years ago as the “European organ” of the “aristocracy of finance,” has devoted its latest issue to discussing “The Next War” and “The Growing Threat of Great Power Conflict.” Its lead editorial opens with a chilling warning:
A revista The Economist, a influente semanal de Londresdescrita por Karl Marx há mais de 150 anos como o “órgão europeu” da “aristocracia financeira”, dedicou seus últimos assuntos à discussão da “Próxima Guerra” e à “Crescente Ameaça de um Conflito de Grande Poder”Seu principal editorial abriu com um alerta arrepiante:
In the past 25 years war has claimed too many lives. Yet even as civil and religious strife have raged in Syria, central Africa, Afghanistan and Iraq, a devastating clash between the world’s great powers has remained almost unimaginable.
Nos últimos 25 anos, a guerra ceifou muitas vidas. Apesar de conflitos civis e religiosos terem arrasado a Síria, África central, Afeganistão e Iraque, um conflito devastador entre as grandes potências mundiais permaneceu quase inimaginável.
No longer … powerful, long-term shifts in geopolitics and the proliferation of new technologies are eroding the extraordinary military dominance that America and its allies have enjoyed. Conflict on a scale and intensity not seen since the Second World War is once again plausible. The world is not prepared.
Não obstante, mudanças poderosas e de longo prazo na geopolítica e a proliferação de novas tecnologias estão deteriorando a extraordinária dominância militar que os Estados Unidos e seus aliados usufruíram. Um conflito numa escala e intensidade não visto desde a Segunda Guerra Mundial é novamente plausível. O mundo não está preparado.
The Economist envisages a dystopian, violent future, with the American military deploying to intimidate or destroy purported challenges to its dominance everywhere.
The Economist previu um futuro distópico e violento, com a força militar estadunidense posicionando-se para intimidar ou destruir supostos desafios a sua dominância em todos os lugares.
The Economist predicts that in the next 20 years “climate change, population growth and sectarian or ethnic conflict” are likely to ensure that much of the world descends into “intrastate or civil wars.” Such conflicts will increasingly be fought at “close quarters, block by block” in cities ringed by “slums” and populated by millions of people. The future for large sections of humanity is the carnage that was witnessed during last year’s murderous battles over the Iraqi city of Mosul and the Syrian city of Aleppo.
The Economist antecipou que nos próximos 20 anos “mudança climática, crescimento populacional e conflito sectário ou étnico” provavelmente irão garantir que a maioria do mundo decaia em “guerras intraestado ou civil”. Tais conflitos serão crescentemente travados em “áreas fechadas, bloco a bloco”, em cidades cercadas por favelas e povoadas por milhões de pessoas. O futuro para amplas porções da humanidade é a carnificina que foi testemunhada durante as sanguinárias batalhas do ano passado na cidade iraquiana de Mosul e na cidade síria de Alepo.
But more chilling are the series of scenarios it outlines for a major escalation in tensions between the United States and Russia and China, presented as Washington's strategic adversaries, which at any momednt threaten to spiral into a nuclear holocaust.
Mas mais arrepiantes são os diversos cenários apontadospara uma maior escalada das tensões entre os Estados Unidos, Rússia e China, apresentados como adversários estratégicos de Washington, que a qualquer momento ameaçam convergir num holocausto nuclear.  
In July of 2016, Mehring Books published David North’s A Quarter Century of War, which noted:
Em julho de 2016, a Mehring Books publicou “A Quarter Century of War” (Um Quarto de Século de Guerra), de David North, que observou:
Beginning with the first Persian Gulf conflict of 1990-91, the United States has been at war continuously for a quarter century. While using propaganda catchphrases, such as defense of human rights and War on Terror, to conceal the real aims of its interventions in the Middle East, Central Asia, and Africa, as well as its confrontation with Russia and China, the United States has been engaged in a struggle for global hegemony. As the US seeks to counteract its economic weakness and worsening domestic social tensions, its relentless escalation of military operations threatens to erupt into a full-scale world war, between nuclear-armed states.
Começando pelo primeiro conflito do Golfo Pérsico de 1990-91, os Estados Unidos estão em guerra continuamente por um quarto de século. Enquanto usa lemas de propaganda como defesa dos direitos humanos e Guerra ao Terror, para encobrir os verdadeiros objetivos de suas intervenções no Oriente Médio, Ásia Central e África, bem como seu confronto com Rússia e China, os Estados Unidos têm se dedicado na luta pela hegemonia global. Enquanto os Estados Unidos buscam neutralizar sua fraqueza econômica e tensões sociais domésticas agravadas, sua implacável escalada de operações militares ameaça culminar em uma ampla guerra mundial, entre estados munidos de armas nucleares.
Less than two years later, much of this assessment has been echoed by one of the most significant political organs of Anglo-American capitalism. But the conclusions drawn by the Economist, speaking as the unalloyed representative of financial and corporate oligarchs whose wealth is bound up with American imperialist global dominance, are the exact opposite of North’s stated aim of helping build a “new antiwar movement.”
Após menos de dois anos, muito dessa avaliação tem ecoado por um dos órgãos políticos mais significantes do capitalismo anglo-americano. Mas as conclusões esboçadas pela The Economist, falando enquanto a total representante da oligarquia financeira e empresarial cujas riquezas estão atreladas à dominância global doimperialismo estadunidense, são o exato oposto do objetivo declarado por North de ajudar a construir um “novo movimento antiguerra”.
Rather, the Economist urges the United States to develop the “hard power” to defend itself against “determined and able challengers,” presenting the sociopathic argument that peace is best safeguarded by America’s ability to utterly destroy its adversaries.
Ao invés, a The Economist incita os Estados Unidos a desenvolverem o poder forte” para se defenderem contra “desafiantes determinados e capazes”, apresentando o argumento sociopata que paz é mais bem protegida pela habilidade estadunidense de destruir seus adversários.
The premise of the special report is that urgent action must be taken by the United States to stem the decline of its hegemony. It asserts that if the Chinese and Russian ruling classes are permitted to realise their ambition of dominant influence in their own regions, the “plausible” consequence will be a “devastating clash between the world’s great powers”—a world war fought with nuclear weapons.
A premissa do relatório especial é que a ação urgente deve ser tomada pelos Estados Unidos a fim de restringir o declínio de sua hegemonia. O relatório afirma que se as classes dominantes chinesas e russas são permitidas a realizar sua ambição de influência dominante em suas próprias regiões, a consequência “plausível” será um “colapso devastador entre as grandes potências mundiais” – uma guerra mundial travada com armas nucleares.
China and Russia, its editorial in the January 27 edition declares, “are now revisionist states that want to challenge the status quo and look at their regions as spheres of influence to be dominated. For China, that means East Asia; for Russia, eastern Europe and Central Asia.”
China e Rússia, seu editorial da edição de 27 de janeiro declara, “são agora estados revisionistas que querem desafiar o status quo e olhar para suas regiões como esferas de influências a serem dominadas. Para China, isso significa Ásia Oriental; para Rússia, Leste Europeu e Ásia Central”.
The conclusion advanced by the Economist is that America must end “20 years of strategic drift” under successive administrations, which has allegedly “played into the hands of Russia and China.” In a series of articles, its special report advocates that the US spend staggering sums on new nuclear weapons and conventional weapons systems, including robotic and artificial intelligence (AI) technology, to ensure that it retains the military superiority that has, until now, inspired “fear in its foes.”
A conclusão antecipada pela The Economist é que os Estados Unidos devem encerrar os “20 anos de manobras estratégicas” através de sucessivas administrações, que alegadamente “realizaram nas mãos da Rússia e China”. Em uma série de artigos, seu relatório especial defende que os Estados Unidos gastam expressivas somas em novas armas nucleares e sistemas de armas convencionais, incluindo tecnologia de inteligência robótica e artificial (AI), para garantir que seja mantida a superioridade militar que inspirou, até o momento, o “medo em seus inimigos”.
It warns: “The pressing danger is of war on the Korean peninsula, perhaps this year ... Tens of thousands of people would perish, many more if nukes were used.”
Alerta-se: “O perigo iminente é de guerra na península coreana, talvez esse ano... dezenas de milhares de pessoas morreriam, muito mais se armas nucleares fossem usadas”.
The US military is ready to launch such a war. It has B-2 and B-52 nuclear-capable bombers forward deployed at Guam, and hundreds of jet fighters and an armada of warships in other Pacific bases. There is ample reason to believe that the confrontation Washington has provoked with North Korea, through its demand that Pyongyang give up its nuclear weapons program, is a massive rehearsal for a future nuclear stand-off with China.
A força militar estadunidense está pronta para iniciar tal guerra. Ela tem bombardeiros B-2 e B-52 de capacidade nuclear posicionados em Guam, centenas de caças e uma armada naval em outras bases do Pacífico. Há razão suficiente para acreditar que o confronto provocado por Washington com a Coréia do Norte, através de sua exigência que Pyongyang desista do programa de armas nucleares, é um ensaio robusto para um futuro impasse nuclear com a China.
The Economist opines that “a war to stop Iran acquiring nuclear weapons seems a more speculative prospect for now, but could become more likely a few years hence.”
The Economist opina que “uma guerra para impedir o Irã de comprar armas nucleares parece um prospecto mais especulativo no momento, mas poderia se tornar mais provável daqui a alguns anos”.
It asserts that the US is threatened by the so-called “grey zone” in which China, Russia, Iran and other countries are seeking to “exploit” American “vulnerabilities” in parts of the world without provoking an open conflict. It gives as examples Chinese territorial claims in the South China Sea, Russia’s annexation of Crimea and Iran’s political influence in Iraq, Syria and Lebanon.
Afirma-se que os Estados Unidos estão ameaçados pela então chamada “zona cinza” (grey zone) na qual China, Rússia, Irã e outros países estão procurando explorar as vulnerabilidades estadunidenses em partes do mundo sem provocar um conflito aberto. Isso dá como exemplos as pretensões territoriais chinesas no mar da China meridional, a anexação russa da Criméia e a influência política do Irã no Iraque, Síria e Líbano.
US imperialist meddling, however, is considered entirely legitimate by the Economist. In Syria, the US has overseen seven years of civil war for regime-change to overthrow the Russian- and Iranian-backed government. Washington’s announcement this month that it intends to effectively occupy one third of the country and assemble a 30,000-strong proxy army from Kurdish and Islamist militias has created conditions for direct clashes not only with Iran and Russia, but also with its nominal NATO ally Turkey.
As intromissões imperialistas dos Estados unidos, porém, são consideradas completamente legítimas pela The Economist. Na Síria, os Estados Unidos supervisionaram sete anos de guerra civil pela mudança do regime, a fim de derrubar o governo apoiado pelos russos e iranianos. O anúncio de Washington esse mês sobre a pretensão de ocupar efetivamente um terço do país e organizar um forte exército aliado de 30.000 curdos e militantes islâmicos criou condições para conflitos diretos não somente com Irã e Rússia, mas também com seu aliado nominal da OTAN,a Turquia.
Predictably, amid the frenzied moves in the US and internationally to impose state control and censorship over the Internet, the journal accuses Russia of seeking to “undermine faith in Western institutions and encourage populist movements by meddling in elections and using bots and trolls on social media to fan grievances and prejudice.”
Previsivelmente, em meio às frenéticas movimentações nos Estados Unidos e internacionalmente para impor o controle do estado e a censura da Internet, a revista acusa a Rússia de querer minar a fé nas instituições ocidentais e encorajar movimentos populistas ao interferir nas eleições e usar bots e trolls nas mídias sociais para disseminar ofensas e preconceitos.
Technology companies, it insists, must be even more integrated with the military, while Internet corporations must work with the state apparatus to suppress access to oppositional views, on the fraudulent pretext of combatting “influence operations” and the “mass manipulation of public opinion.”
As empresas de tecnologia, a revista insiste, devem ser ainda mais integradas às forças militares, enquanto empresas de Internet devem trabalhar com o aparato doestado para suprimir o acesso às opiniões de oposição, por meio do fraudulento pretexto de combater as “operações de influência” e a “manipulação de massa da opinião pública”.
It notes in passing that for the American government, which already runs annual budget deficits approaching $700 billion, “finding the money will be another problem.”
Oberva-se de passagem que para o governo estadunidense, o qual já opera um déficit orçamentário anual de aproximadamente 700 bilhões de dólares, “encontrar o dinheiro será outro problema”.
The truth is that the subordination of every aspect of society to war preparations will be paid for by the ongoing destruction of the living standards and conditions of the American working class, combined with the elimination of its democratic rights and repression of opposition.
A verdade é que a subordinação de todos os aspectos da sociedade para os preparativos da guerra será paga pela destruição em curso dos padrões e condições de vida do proletário estadunidense, associada à eliminação de seus direitos democráticos e à repressão da oposição.
In an unintended echo of George Orwell’s “Newspeak,” the Economist concludes that “a strong America”—armed to the teeth and permanently threatening its rivals with obliteration—is the “best guarantor of world peace.”
Em um eco não intencional da “Novilíngua” Orwelliana, a The Economist conclui que “uma América forte” – armada até os dentes e ameaçando permanentemente seus rivais com obliteração – é a “melhor garantidora da paz mundial”.
The most chilling aspect of the report, however, is that it is pessimistic about its own prognosis for US imperialism succeeding in intimidating its rivals into submission. The very development of an ever more aggressive military stance toward China and Russia raises, not lessens, the likelihood of war.
O aspecto mais arrepiante do relatório, entretanto, é que ele é pessimista sobre seus próprios prognósticos para o imperialismo estadunidense suceder à intimidação de seus rivais pela submissão. O próprio desenvolvimento de uma postura militar ainda mais agressiva perante a China e a Rússia aumenta, não diminui, a probabilidade de guerra.
“The greatest danger,” it states, “lies in miscalculation through a failure to understand an adversary’s intentions, leading to an unplanned escalation that runs out of control.”
“O maior perigo”, declara-se, “reside no mau cálculo através de uma falha de entendimento das intenções do adversário, levando a uma escalada não planejada que sai do controle”.
What is being referred to is escalation to a nuclear holocaust. The article quotes Tom Plant, an analyst at the RUSI think tank: “For both Russia and the US, nukes have retained their primacy. You only have to look at how they are spending their money.”
O que está sendo referido é uma escalada a um holocausto nuclear. O artigo cita Tom Plant, um analista do Think Tank RUSI: “Para ambos a Rússia e os Estados Unidos, armas nucleares mantiveram sua primazia. Você apenas deve olhar em como eles estão gastando o próprio dinheiro”.
The US is upgrading its entire nuclear arsenal over the coming decades at a cost of $1.2 trillion. Russia is upgrading its nuclear-capable missiles, bombers and submarines. China is rapidly expanding the size and capability of its far smaller nuclear forces, as are Britain and France. Discussions are underway in ruling circles in Germany, Japan and even Australia on acquiring nuclear weapons so they can resist the nuclear-armed states.
Os Estados Unidos estão aprimorando o seu arsenal nuclear inteiro nas últimas décadas por um custo de 1,2 trilhões de dólares. A Rússia está aprimorando seus mísseis de capacidade nuclear, bombardeiros e submarinos. A China está expandindo rapidamente o tamanho e a capacidade de suas muito menores forças nucleares, assim como estão a Inglaterra e a França. Discussões estão em andamento nos círculos dominantes da Alemanha, Japão e até Austrália a respeito da compra de armas nucleares para que eles possam resistir aos estados nucleares.
The madness of a nuclear arms race in the 21st century arises inexorably from the contradictions of the capitalist system. The struggle among rival nation-states for global geostrategic and economic dominance is the inevitable outcome of capitalism's intractable crisis and the ferocious conflict for control over markets and resources.
A insanidade de uma corrida nuclear no século XXI provém inexoravelmente das contradições do sistema capitalista. A luta entre estados-nações rivais para a dominância geoestratégica e econômica global é o resultado inevitável da intratável crise do capitalismo e do conflito selvagem para o controle de recursos e mercados. 
The epoch of world war, wrote the Marxist revolutionary Vladimir Lenin, is the epoch of world socialist revolution. The overthrow of the capitalist system, which gives rise to the war danger, is an urgent necessity for the survival of human civilization.
A época de Guerra mundial, escreveu o revolucionário marxista Vladimir Lenin, é a época de revolução socialista internacional. A queda do sistema capitalista, que dá origem ao perigo de guerra, é uma necessidade urgente para a sobrevivência da civilização humana.
The International Committee of the Fourth International and its sections are working to build an international anti-war workers’ movement fighting for socialism. The open discussion on the prospect of nuclear war in the pages of journals like the Economist should motivate all serious workers and young people to join our struggle.
O Comitê Internacional da Quarta Internacional e suas seções estão trabalhando para construir um movimento antiguerra internacional dos trabalhadores de luta pelo socialismo. A discussão aberta sobre o prospecto de guerra nuclear nas páginas de jornais, como a The Economist,deve motivar todos os trabalhadores sérios e os jovens a aderirem à nossa luta.
James Cogan
Tradução: Daniel Miyahira Guerrazzi