Impressões sobre política, ciência, religião, economia etc. Relatos parciais da sociedade.
sábado, 15 de outubro de 2016
Reflexões sobre a Moral Nietzschiana
A priori, o corpo é constituído por forças que podem ser ativas, de criação, ou reativas, de conservação.
As forças ativas são propiciadas de acordo com o ambiente e com os hábitos que melhor adequar ao indivíduo. As forças ativas devem ser extravasadas, para que não nos ferimos nas barras da própria jaula. O corpo dedicado às forças ativas permite plenitude de vontade de potência. Ou seja, a autonomia da vida deve transformá-la numa obra de arte, com pensamentos novos, com gosto pelas diferenças, mudanças. A reinvenção de si deve ser algo constante.
As forças reativas, no entanto, são conservadoras e ocasionam o ressentimento. Podemos entender por ressentimento o espírito de vingança daquele que não se esquece de impressões indesejadas. O corpo ressentido não se permite inventar e reinventar o seu modo de existir e passa a cultivar a má consciência. Pois, quando as impressões indesejadas ocorrem, devem ser digeridas para que se tornem alimento (esquecidas) e fortaleça nossa vontade de potência. Para Nietzsche, o esquecimento é o zelador da ordem psíquica.
As forças ativas e reativas são balanceadas e alternam suas intensidades constantemente. Quando temos a força ativa predominando, permitimos novos modos de existência de acordo com as vontades de potência. Por outro lado, quando as forças reativas predominam, o corpo passa à conservação, de forma passiva e niilista. Niilismo, no contexto de Nietzsche, é caracterizado por uma pessoa cansada de existir, que nega a vida, que desistiu do mundo, do ser humano, e quer apenas se conservar sem criar novos valores.
Na sociedade primitiva não havia o Estado para estabelecer a moral. Não havia o sentimento de culpa, nem mesmo em rituais de sacrifício ou execuções. A modernidade, considerada a partir da formação do Estado, porém, passou a favorecer as ações reativas as quais aprisionam os instintos e suprimem a vontade de potência do indivíduo. O favorecimento de ações reativas se mostrou crescente e, como toda a sociedade passou a viver sob a influência do Estado, a tal moral foi difundida amplamente numa tendência de formação de rebanho.
Este excesso de ações reativas foi meticulosamente aproveitado por Paulo de Tarso, sendo ele o mentor do cristianismo. Enquanto sacerdote, Paulo de Tarso aproveitou o rebanho de má consciência formado pelo Estado e, como símbolo, deu à morte de Cristo o significado de sua religião. Paulo se aproveitou do sofrimento e da submissão em nome do amor que havia em Cristo para manter a inversão de valores na sociedade. A partir daí, a moral que vigora diz que o esquecimento é mau. A isenção
de culpa é ruim. Bom é ter os instintos reprimidos. Bom é não digerir os ressentimentos e viver em eterno débito. Bom é conviver com a má consciência e arrependido.
Paulo de Tarso foi oportuno e, ao lado do Estado, adotou duas ferramentas essenciais para o sucesso de sua religião. O sacerdote passa a ser figura necessária em todos os eventos da sociedade para perdoar as experiências não esquecidas, tidas como pecado, e livrar-nos do mal e do sofrimento. Desde o nascimento, casamento, morte e demais cerimônias, a presença do sacerdote é indispensável.
Primeiramente, uma ferramenta vital é a 'atividade maquinal', que consiste em distrair o sujeito de si mesmo. Ocupar-se com tarefas numa rotina regrada, com dedicação máxima, para que não haja tempo de digerir impressões assimiladas no inconsciente, e impossibilitando, assim, a reinvenção de si.
Segundo, outra ferramenta vital é a 'fácil obtenção de pequenas alegrias', que consiste numa sensação fugaz de superioridade. Trata-se da compaixão, que neste contexto significa pensar em quem mais está sofrendo antes de pensar em si. Através da desgraça do próximo é possível experimentar uma pequena e falsa sensação de plenitude, de alegria.
Concluindo, são dois os maiores perigos segundo Nietzsche: A compaixão pelo próximo e o nojo da humanidade. Interessante notar que enquanto o primeiro é uma das propostas sacerdotais, o segundo é uma consequência da moral cristã já exausta. Hoje, vivemos no ápice do comportamento de rebanho. A sociedade já não suporta ver catástrofes naturais e comportamentos humanos inaceitáveis. O limiar da paciência foi atingido, as ferramentas lançadas por Paulo de tarso estão saturadas e não satisfazem a expectativa. A moral cristã entrou em declínio e o homem já tem nojo da humanidade.
É estranho ser feliz atualmente. Pessoas reclamam de tudo e de todos ao seu redor sem antes pensar positivamente. A pessoa ressentida julga o acaso e sofre, ao invés de se fortalecer com isto. Torna-se incapaz de esquecer (digerir) incômodos e é dominado por forças reativas. Nietzsche, no fim do século 19, disse que a moral cristã perduraria por mais dois séculos. Já se passou um!
Texto de reflexão baseado no livro “A Genealogia da Moral”, de Nietzsche, e na aula ministrada pelo prof. Amauri Ferreira, em 27/04/2016, sobre o mesmo livro.
segunda-feira, 3 de outubro de 2016
A homeopatia do Mal
Enquanto o pessoal é do bem, eu sou do Mao.
Não bastasse todos os traumas já vividos pela humanidade acerca da intolerância e violência, uma nova onda de ultra conservadorismo se alastra mundo afora.
Há quem pergunte, qual onda? Alguns exemplos podem ilustrar, como Brexit, separatismo gaúcho e paulista, Trump, Alckmin, Bolsonaro, políticas anti-imigração, fundamentalismos religiosos diversos etc. Há sim um efeito rebote das frustrações de políticas de esquerda e de números estatísticos desfavoráveis da economia mundial.
Aos alopatas peço perdão, mas pensemos na lógica da homeopatia (já que lógica tem): O homem precisa provar de seu próprio veneno, em doses diluídas e continuamente. Talvez crie uma imunidade à perversão, ou cure algum dia.
Pode-se relacionar os fatos ao processo evolutivo do ser. Pois, a arqueologia revela sinais de violência desde os primórdios, desde dezenas de milhares de anos atrás. Nos achados, vê-se marcas de agressão física, aprisionamento e torturas: coisas bem discrepantes da felicidade.
Enumeros filósofos já concluíram que o fim do homem é a tal felicidade. Então, essa violência pode ser um resquício evolutivo, um vestígio de que temos a carga genética de ancestrais bem rudimentares que se importavam mais com o poder do que a felicidade total. Ou meu argumento não passa de uma falácia de apelo à natureza?
A história há de nos contar se tais teorias têm fundamento, ou se são apenas ficção.
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