quarta-feira, 28 de setembro de 2016

O PARADIGMA DA SCIENZA NUOVA


Parafraseando esse contexto onde a metafísica, a religião, a astrologia e outras formas de conhecimento ganham importância, nos utilizaremos de um exemplo da mitologia sob a ótica de um grande filosofo. Para Hegel, a coruja é o símbolo da filosofia como alusão à coruja da deusa romana Minerva. A coruja de Minerva levanta voo ao entardecer, aquele instante onde a claridade e a escuridão misturam-se e as pessoas passam a enxergar menos. Assim, o conhecimento é gerado após acontecer algo que tinha de acontecer, no caso o dia, e antes de algo que está por vir e que se apresenta como obscuro, no caso a noite. É nesse instante de ofuscamento do cair da tarde que talvez possamos fazer nossa coruja alçar voo e levar as experiências do dia para as necessidades e dificuldades que surgirão na noite.” (André Galindo da Costa & Daniel Tonelo).


A relação da humanidade com os adventos tecnológicos remete ao pretérito remoto, da era do fogo, da pedra lascada, da agricultura, da escrita e dos metais. Outrora, muito antes do presente cibernético, o homem já fazia progresso e, talvez, fosse em virtude de uma vontade inata, de uma ambição primordial, de garantir a perpetuação da espécie. Haja vista que alguns povos não elaboraram a escrita nem o manuseio de metais (povos antigos americanos, por exemplo), o meio condiciona a atuação do ser. Portanto, dada a importância das variáveis espaciais e temporais na análise de um tema qualquer, proponho uma concisa arqueologia, ou genealogia, da nossa contemporaneidade ocidental. Conforme a proposta, a seguir, abordarei alguns fatos a fim de contextualizar o tema ciência e tecnologia.
O paradigma cristão de São Tomás de Aquino teve impacto profundo no pensamento da humanidade, que reverbera fortemente na atualidade. Pessoas como Galileu, Descartes, Hume, Newton, também se destacam na lista de maiores contribuintes da ciência. Neste intervalo de tempo, a emancipação do Homem perante a natureza foi um evento libertador, e teve o seu auge no século XIX com o fortalecimento das instituições universitárias modernas, detentoras da suposta verdade, que fornecem soluções tecnológicas para o patriciado industrial especulador. Ainda hoje, prevalece uma dicotomia formal entre ciências naturais e sociais, entre ciência e senso comum, diria Rubem Alves.
Pois, esta desvinculação com a natureza é evidenciada nos fatos a seguir. O fascínio que a humanidade tem com o céu antecede o advento da civilização, e algo nos desperta este interesse por questões que não cabem neste texto. Entretanto, unir-se-á a este fato o espírito judeu-cristão, seja ele o católico de santo Agostinho ou o protestante de Max Weber, que ao abandonar o antropocentrismo e o mito passa a buscar no céu novas oportunidades de empreitada.
Na moral contemporânea não há dívida ao saquear a natureza. Não é pecado atentar à vida do planeta. Pois, a ciência natural se especializou tanto que se afastou da transdisciplinaridade, e tanto fez que quase exterminou a humanidade da Terra, diria Rubem Alves. Considerando esses fatos, torna-se um desafio aceitar a ciência como provedora de conhecimentos que irão melhorar a vida do homem na Terra, como defendia Francis Bacon. Ao invés, paira uma descrença na ciência enquanto detentora da missão providencial de salvar da humanidade. Poderia estender a discussão ao anarquismo metodológico de Feyeraband, mas é inquestionável a aplicação prática de diversos projetos científicos baseados no cartesianismo, visto que o método é falho, mas capaz de demonstrar as conclusões desejadas. Mesmo que, porventura, fuja do senso comum, a atual ciência apresenta resultados tanto lucrativos quanto falsificáveis.
Pensar na possibilidade de habitar novos planetas é uma ambição e fruto da prepotência humana. Essa ideia alivia a consciência daqueles que depredam o ambiente com dolo, e os deixa otimistas quando ouvem a respeito da Gaia doente de James Lovelock. Podemos tranquilamente aniquilar a Terra e migrar para outro planeta a fim de habitá-lo, pensam os fãs de George Lucas ao assistir a NASA conquistar o Universo através da mídia patrocinada. Já não me surpreende ver um indivíduo adotar pequenas atitudes tidas como sustentáveis como forma de alívio ecológico, mesmo que o consumo materialista dele continue sendo maníaco e desenfreado.
Nietzsche provoca ao expor que, negligenciando a própria liberdade, o homem achou no eterno débito com Deus uma panaceia. Porém, este pensamento representa mais aqueles que se sustentam na salvação divina do que os céticos. Também provocando, Max Weber sugere que ao ver no mito a verdade, suprimimos nossa potencia de desenvolver o Capitalismo. Todavia, a industrialização protestante de Weber patrocinou uma ciência herdeira de precursores indianos, árabes e outros povos que preferem o culto ao uso, dormir bem a comer bem, nas palavras de Weber. O processo de globalização já estava em curso há tempo e, como efeito, a humanidade convergiu para um única ciência aplicada à tecnologia.
De fato, a história nos conta que a verdade e o paradigma são passageiros, falíveis e mutáveis. Sempre haveremos de experimentar novos agenciamentos, a fim de alimentar a própria potencia de ser e digerir os ressentimentos. Haveremos de nos reinventar insaciavelmente, de forma menos especializada e mais socializada, essa é minha ideia. O contato é fundamental. O diálogo entre indivíduos, disciplinas ou deuses deve ser incentivado para que a vida se torne sustentável.
Por fim, Darwin inovou ao propor que o ambiente determina as condições nas quais somente os adaptados sobrevivem. Acrescento ainda que o ambiente influencia o ser assim como o ser influencia o seu ambiente. Então, que esta relação seja simbiótica e que, finalmente, o nosso ego pós-moderno se emancipe do antropocentrismo clássico. Não há revolução disruptiva pontual, mas uma continuidade de eventos metafísicos que, somados, levam-nos a outro patamar enquanto civilização, diria Pierre Duhem. Encerro aqui, sabendo que contribui através da repetição do que a humanidade sempre fez: Fundamentar-se em informações disponíveis e vigentes para tentar aprimorá-las e ou refutá-las, seja através da retórica ou do cartesianismo, numa contínua transformação do paradigma.

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