“Parafraseando
esse contexto onde a metafísica, a religião, a astrologia e outras formas de
conhecimento ganham importância, nos utilizaremos de um exemplo da mitologia
sob a ótica de um grande filosofo. Para Hegel, a coruja é o símbolo da
filosofia como alusão à coruja da deusa romana Minerva. A coruja de Minerva
levanta voo ao entardecer, aquele instante onde a claridade e a escuridão
misturam-se e as pessoas passam a enxergar menos. Assim, o conhecimento é
gerado após acontecer algo que tinha de acontecer, no caso o dia, e antes de
algo que está por vir e que se apresenta como obscuro, no caso a noite. É nesse
instante de ofuscamento do cair da tarde que talvez possamos fazer nossa coruja
alçar voo e levar as experiências do dia para as necessidades e dificuldades
que surgirão na noite.” (André Galindo da Costa & Daniel Tonelo).
A relação da humanidade com os adventos tecnológicos remete
ao pretérito remoto, da era do fogo, da pedra lascada, da agricultura, da
escrita e dos metais. Outrora, muito antes do presente cibernético, o homem já
fazia progresso e, talvez, fosse em virtude de uma vontade inata, de uma
ambição primordial, de garantir a perpetuação da espécie. Haja vista que alguns
povos não elaboraram a escrita nem o manuseio de metais (povos antigos
americanos, por exemplo), o meio condiciona a atuação do ser. Portanto, dada a importância
das variáveis espaciais e temporais na análise de um tema qualquer, proponho
uma concisa arqueologia, ou genealogia, da nossa contemporaneidade ocidental.
Conforme a proposta, a seguir, abordarei alguns fatos a fim de
contextualizar o tema ciência e tecnologia.
O paradigma cristão de São Tomás de Aquino teve impacto
profundo no pensamento da humanidade, que reverbera fortemente na atualidade. Pessoas como Galileu, Descartes, Hume, Newton, também se destacam na lista de maiores contribuintes da ciência. Neste
intervalo de tempo, a emancipação do Homem perante a natureza foi um evento
libertador, e teve o seu auge no século XIX com o fortalecimento das instituições
universitárias modernas, detentoras da suposta verdade, que fornecem soluções
tecnológicas para o patriciado industrial especulador. Ainda hoje, prevalece
uma dicotomia formal entre ciências naturais e sociais, entre ciência e senso
comum, diria Rubem Alves.
Pois, esta desvinculação com a natureza é evidenciada nos
fatos a seguir. O fascínio que a humanidade tem com o céu antecede o advento da
civilização, e algo nos desperta este interesse por questões que não cabem
neste texto. Entretanto, unir-se-á a este fato o espírito judeu-cristão, seja
ele o católico de santo Agostinho ou o protestante de Max Weber, que ao
abandonar o antropocentrismo e o mito passa a buscar no céu novas oportunidades
de empreitada.
Na moral contemporânea não há dívida ao saquear a natureza.
Não é pecado atentar à vida do planeta. Pois, a ciência natural se
especializou tanto que se afastou da transdisciplinaridade, e tanto fez que
quase exterminou a humanidade da Terra, diria Rubem Alves. Considerando esses
fatos, torna-se um desafio aceitar a ciência como provedora de conhecimentos
que irão melhorar a vida do homem na Terra, como defendia Francis Bacon. Ao
invés, paira uma descrença na ciência enquanto detentora da missão providencial
de salvar da humanidade. Poderia estender a discussão ao anarquismo
metodológico de Feyeraband, mas é inquestionável a aplicação prática de
diversos projetos científicos baseados no cartesianismo, visto que o método é
falho, mas capaz de demonstrar as conclusões desejadas. Mesmo que, porventura,
fuja do senso comum, a atual ciência apresenta resultados tanto lucrativos
quanto falsificáveis.
Pensar na possibilidade de habitar novos planetas é uma
ambição e fruto da prepotência humana. Essa ideia alivia a consciência daqueles
que depredam o ambiente com dolo, e os deixa otimistas quando ouvem a respeito
da Gaia doente de James Lovelock. Podemos tranquilamente aniquilar a Terra e
migrar para outro planeta a fim de habitá-lo, pensam os fãs de George Lucas ao
assistir a NASA conquistar o Universo através da mídia patrocinada. Já não me
surpreende ver um indivíduo adotar pequenas atitudes tidas como sustentáveis
como forma de alívio ecológico, mesmo que o consumo materialista dele continue
sendo maníaco e desenfreado.
Nietzsche provoca ao expor que, negligenciando a própria
liberdade, o homem achou no eterno débito com Deus uma panaceia. Porém, este
pensamento representa mais aqueles que se sustentam na salvação divina do que
os céticos. Também provocando, Max Weber sugere que ao ver no mito a verdade,
suprimimos nossa potencia de desenvolver o Capitalismo. Todavia, a
industrialização protestante de Weber patrocinou uma ciência herdeira de
precursores indianos, árabes e outros povos que preferem o culto ao uso, dormir
bem a comer bem, nas palavras de Weber. O processo de globalização já estava em curso há tempo e, como efeito, a humanidade convergiu para um única ciência aplicada à tecnologia.
De fato, a história nos conta que a verdade e o paradigma
são passageiros, falíveis e mutáveis. Sempre haveremos de experimentar
novos agenciamentos, a fim de alimentar a própria potencia de ser e digerir os
ressentimentos. Haveremos de nos reinventar insaciavelmente, de forma menos
especializada e mais socializada, essa é minha ideia. O contato é fundamental. O diálogo entre indivíduos,
disciplinas ou deuses deve ser incentivado para que a vida se torne
sustentável.
Por fim, Darwin inovou ao propor que o ambiente determina
as condições nas quais somente os adaptados sobrevivem. Acrescento ainda que o
ambiente influencia o ser assim como o ser influencia o seu ambiente. Então,
que esta relação seja simbiótica e que, finalmente, o nosso ego pós-moderno se
emancipe do antropocentrismo clássico. Não há revolução disruptiva pontual, mas
uma continuidade de eventos metafísicos que, somados, levam-nos a outro patamar
enquanto civilização, diria Pierre Duhem. Encerro aqui, sabendo que contribui
através da repetição do que a humanidade sempre fez: Fundamentar-se em informações disponíveis e vigentes para tentar aprimorá-las e ou refutá-las, seja através da retórica ou do cartesianismo,
numa contínua transformação do paradigma.

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