Tenho minhas preocupações como consequências das minhas
experiências, agenciamentos do meio onde vivo, de fatores idiossincráticos e
genéticos. Portanto tento, enquanto agente participante da preservação do
planta, entender quais são as causas das preocupações e elaborar possíveis
maneiras de solução. Pois bem, vou expor minha leitura do ambiente onde passo
mais tempo no dia a dia, no meu trabalho, pois a maior duração do dia se dá
neste tipo de ambiente, nesta específica amostra representativa de comunidade.
Nota-se, nos últimos séculos passados, uma superação das iniciativas privadas sobre a participação social. Traduzindo em outras palavras, as instituições patronais ditam as regras das atividades, condicionando a majoritária parcela da sociedade, os operários, a uma força monstruosa. As relações humanas são amplamente reguladas pelo Estado, cuja representação se dá por órgãos privados de interesses particulares escusos.
Cabe aqui
ressaltar o contexto histórico das relações sociais. O conceito de operário, na
sua definição original do próprio Marx, permanece atual. Além, a crescente
dominação da burguesia nas esferas de poder, sob a égide do Estado, atinge uma
proporção pouco saudável ao bem-estar social.
Os conflitos
de interesses, no decorrer do desenvolvimento deste modelo político e
econômico, tornaram-se insustentáveis dentro da proposta do capitalismo
neoliberal globalizado. Seja pelo fracasso das políticas de esquerda, pela
liquidez baumaniana, pelo enfraquecimento das religiões tradicionais, pelas
relações inevitáveis de empoderamento foucaultiano ou outras formas possíveis
de interpretação.
As ferramentas
propostas pela política do bem-estar social, ou social democracia, não suportaram
a força do capital, que avassala como um rolo compressor? A social democracia
foi mais um desses discursos sofistas de demagogia política, que encanta e
controla as paixões da sociedade? Também cabem aqui diversas interpretações
acerca das causas possíveis. O fato ocorrido como efeito, claramente, foi o
padecimento deste modelo. Expirou na tenra idade sem testemunhas de seu
sucesso, haja vista que não durou um século.
Não pretendo
limitar a abordagem na teoria longínqua da torre de marfim. Aproximar-me-ei,
portanto, da prática através de exemplos vivenciados por mim. A seguir,
descrevo minha percepção limitada, porém contextualizada, da realidade subjetiva
de uma empresa de iniciativa privada, prestadora de serviços de pesquisas
clínicas à indústria de medicamentos, doravante denominada CRO. Não descreverei
os cargos, mas relacionarei as formas de saber e poder nas seguintes situações:
Situação 01: O
gerente da Tecnologia da informação, aquele que obteve um certificado de
qualificação técnica para tal, possui o poder privativo de vigiar e punir o
pessoal através do monitoramento de dados: o moderno panóptico de Bentham!
Além, ele é o fornecedor do canal de comunicação, a internet, e dos sistemas
que evidenciam o trabalho desempenhado pelo pessoal. Possui acesso privativo e
irrestrito ao banco de dados da empresa, o valorizado big data, cuja segurança é sua responsabilidade. Eis uma poderosa
pessoa no ambiente corporativo, o rapaz do TI, que manipula diretamente o
comportamento dos indivíduos. Isenta-se das ameaças por não reportar suas
atividades a uma chefia, por acumular em si atividades vitais da CRO e por ser
o “único” a ter o conhecimento relacionado.
Situação 02: O
gerente de projetos, aquele que intermedia as relações entre os clientes e o
pessoal, no que tange as negociações de metas e entrega de resultados, possui o
poder de ser o meeiro entre o patrocinador e os monitores operários. Isenta-se
das ameaças porque, através da posição hierárquica, transmite aos subordinados
– monitores, assistentes, analistas etc. – qualquer ocorrência que se
caracterize como imprudência ou imperícia. Vejo-o como uma figura de
competência mais política que técnica, que promove seu sucesso através de uma
boa relação social e boa capacidade de comunicação, intervindo no momento
oportuno através de persuasão e perspicácia. Possui a responsabilidade da
resolução de problemas, dentre outras, contudo um descuido pode arruinar um
projeto ou, quiçá, a viabilidade do negócio. Não é uma posição para qualquer
um.
Situação 03: O
proprietário, aquele que investiu ou herdou o negócio, mantem-se no trono. Deve
transmitir a imagem de autoridade íntegra e intocável na CRO. Ele simboliza o
espírito da empresa na caricatura do rei, pois exibe sua posição suprema
através do espetáculo, da exibição, das demonstrações paroxísticas do poder.
Pouco importa para o contexto as outras competências subjetivas desta figura.
Situação 04: O
monitor, aquele que executa de forma braçal as atividades, incorporado no
operário de Marx, não obstante a minha posição nesta CRO, é a última engrenagem
desta máquina. Assume riscos de todos os lados e acumula em si a
responsabilidade de reportar os resultados a todos os envolvidos. Há de ter
vasto saber técnico, alta capacidade de suportar conflitos e de administrar
múltiplos assuntos concomitantemente. Certamente, numa fatídica ocorrência
indesejada, o monitor será o acusado no tribunal inquisitório da CRO e, por ser
o último da hierarquia, será o objeto cuja punição livrará os demais
envolvidos. O monitor é o sujeito exposto, que será constantemente cobrado
pelos resultados e penalizado por qualquer erro. Nada além da sua própria
postura, segura de si, irá garantir o sucesso nos diversos canais e entre os
receptores envolvidos, haja vista que as comunicações da pesquisa clínica são repletas
de ruídos.
Figura 01
O setor
regulador sanitário, no qual se enquadra as pesquisas clínicas, justifica sua
existência através da existência do setor regulado – a CRO, por exemplo. Essa
relação é mantida com exagerado rigor de poder. Há, de um lado, o Estado
policial que vigia, julga e pune – outro exemplo moderno do panóptico de
Bentham; do outro lado, há a iniciativa privada, que detém o potencial de
produção de materiais, oferta de serviços, contribuição fiscal e provimento de
alocação do operariado. Entre eles, há o poder invisível e não normatizado dos
lobistas, os meeiros de interesses, os caras da mala preta.
O Estado age
com imprudência e negligência, neste âmbito, pois se isenta enquanto aparato
recolhedor de impostos, com finalidade de distribuir à sociedade e enquanto instrumento
provedor dos direitos básicos constituídos. Ora um balcão de negócios, ora
agente estelionatário, o Estado de direito social democrata existe somente numa
teoria sofista, no naipe simbólico de uma quimera, pátria-mãe salvadora, que
adotou os filhos vulneráveis e aterrorizados com as ameaças de um iminente caos
desgovernado.
A verdade, que
outrora fora publicada, está caducando e se transformará em mentira,
finalmente. O peso das falácias lançadas pela mídia superou a manipulada
ignorância popular. Qual será o próximo modelo a ser lançado pela cúpula
inescrupulosa, no conluio dos poderosos detentores do capital? Não há acordo
que sirva a um lado somente! Servidão voluntária não é opção! Operários do
mundo, uni-vos!
Encerro este texto ratificando meu propósito. Pretendo atuar
em mudanças necessárias para a manutenção das condições humanas, tanto de
convívio, nas trocas, quanto na simbiose com o meio. A maior chance que o
planeta tem de ser preservado depende de transformações na humanidade, de
reinvenções da essencialidade do ser, do verdadeiro progresso.

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