quarta-feira, 8 de março de 2017

WELFARE STATE NOWADAYS: O Panóptico e seus conflitos de poder


Tenho minhas preocupações como consequências das minhas experiências, agenciamentos do meio onde vivo, de fatores idiossincráticos e genéticos. Portanto tento, enquanto agente participante da preservação do planta, entender quais são as causas das preocupações e elaborar possíveis maneiras de solução. Pois bem, vou expor minha leitura do ambiente onde passo mais tempo no dia a dia, no meu trabalho, pois a maior duração do dia se dá neste tipo de ambiente, nesta específica amostra representativa de comunidade.

Entendo que a preocupação na preservação do planeta, ou seja, o ambiente que hospeda a coletividade, que provê meios para o convívio de espécimes, envolva uma leitura política e social. Somos humanos e, portanto, não há meios para discussão da preservação do planeta sem que a leitura seja direcionada do ponto de vista político, social, econômico: eis as relações de poder implícitas nas minhas maiores preocupações.

Nota-se, nos últimos séculos passados, uma superação das iniciativas privadas sobre a participação social. Traduzindo em outras palavras, as instituições patronais ditam as regras das atividades, condicionando a majoritária parcela da sociedade, os operários, a uma força monstruosa. As relações humanas são amplamente reguladas pelo Estado, cuja representação se dá por órgãos privados de interesses particulares escusos.

Cabe aqui ressaltar o contexto histórico das relações sociais. O conceito de operário, na sua definição original do próprio Marx, permanece atual. Além, a crescente dominação da burguesia nas esferas de poder, sob a égide do Estado, atinge uma proporção pouco saudável ao bem-estar social.

Os conflitos de interesses, no decorrer do desenvolvimento deste modelo político e econômico, tornaram-se insustentáveis dentro da proposta do capitalismo neoliberal globalizado. Seja pelo fracasso das políticas de esquerda, pela liquidez baumaniana, pelo enfraquecimento das religiões tradicionais, pelas relações inevitáveis de empoderamento foucaultiano ou outras formas possíveis de interpretação.

As ferramentas propostas pela política do bem-estar social, ou social democracia, não suportaram a força do capital, que avassala como um rolo compressor? A social democracia foi mais um desses discursos sofistas de demagogia política, que encanta e controla as paixões da sociedade? Também cabem aqui diversas interpretações acerca das causas possíveis. O fato ocorrido como efeito, claramente, foi o padecimento deste modelo. Expirou na tenra idade sem testemunhas de seu sucesso, haja vista que não durou um século.

Não pretendo limitar a abordagem na teoria longínqua da torre de marfim. Aproximar-me-ei, portanto, da prática através de exemplos vivenciados por mim. A seguir, descrevo minha percepção limitada, porém contextualizada, da realidade subjetiva de uma empresa de iniciativa privada, prestadora de serviços de pesquisas clínicas à indústria de medicamentos, doravante denominada CRO. Não descreverei os cargos, mas relacionarei as formas de saber e poder nas seguintes situações:

Situação 01: O gerente da Tecnologia da informação, aquele que obteve um certificado de qualificação técnica para tal, possui o poder privativo de vigiar e punir o pessoal através do monitoramento de dados: o moderno panóptico de Bentham! Além, ele é o fornecedor do canal de comunicação, a internet, e dos sistemas que evidenciam o trabalho desempenhado pelo pessoal. Possui acesso privativo e irrestrito ao banco de dados da empresa, o valorizado big data, cuja segurança é sua responsabilidade. Eis uma poderosa pessoa no ambiente corporativo, o rapaz do TI, que manipula diretamente o comportamento dos indivíduos. Isenta-se das ameaças por não reportar suas atividades a uma chefia, por acumular em si atividades vitais da CRO e por ser o “único” a ter o conhecimento relacionado.

Situação 02: O gerente de projetos, aquele que intermedia as relações entre os clientes e o pessoal, no que tange as negociações de metas e entrega de resultados, possui o poder de ser o meeiro entre o patrocinador e os monitores operários. Isenta-se das ameaças porque, através da posição hierárquica, transmite aos subordinados – monitores, assistentes, analistas etc. – qualquer ocorrência que se caracterize como imprudência ou imperícia. Vejo-o como uma figura de competência mais política que técnica, que promove seu sucesso através de uma boa relação social e boa capacidade de comunicação, intervindo no momento oportuno através de persuasão e perspicácia. Possui a responsabilidade da resolução de problemas, dentre outras, contudo um descuido pode arruinar um projeto ou, quiçá, a viabilidade do negócio. Não é uma posição para qualquer um.

Situação 03: O proprietário, aquele que investiu ou herdou o negócio, mantem-se no trono. Deve transmitir a imagem de autoridade íntegra e intocável na CRO. Ele simboliza o espírito da empresa na caricatura do rei, pois exibe sua posição suprema através do espetáculo, da exibição, das demonstrações paroxísticas do poder. Pouco importa para o contexto as outras competências subjetivas desta figura.

Situação 04: O monitor, aquele que executa de forma braçal as atividades, incorporado no operário de Marx, não obstante a minha posição nesta CRO, é a última engrenagem desta máquina. Assume riscos de todos os lados e acumula em si a responsabilidade de reportar os resultados a todos os envolvidos. Há de ter vasto saber técnico, alta capacidade de suportar conflitos e de administrar múltiplos assuntos concomitantemente. Certamente, numa fatídica ocorrência indesejada, o monitor será o acusado no tribunal inquisitório da CRO e, por ser o último da hierarquia, será o objeto cuja punição livrará os demais envolvidos. O monitor é o sujeito exposto, que será constantemente cobrado pelos resultados e penalizado por qualquer erro. Nada além da sua própria postura, segura de si, irá garantir o sucesso nos diversos canais e entre os receptores envolvidos, haja vista que as comunicações da pesquisa clínica são repletas de ruídos.

Figura 01
O setor regulador sanitário, no qual se enquadra as pesquisas clínicas, justifica sua existência através da existência do setor regulado – a CRO, por exemplo. Essa relação é mantida com exagerado rigor de poder. Há, de um lado, o Estado policial que vigia, julga e pune – outro exemplo moderno do panóptico de Bentham; do outro lado, há a iniciativa privada, que detém o potencial de produção de materiais, oferta de serviços, contribuição fiscal e provimento de alocação do operariado. Entre eles, há o poder invisível e não normatizado dos lobistas, os meeiros de interesses, os caras da mala preta. 

O Estado age com imprudência e negligência, neste âmbito, pois se isenta enquanto aparato recolhedor de impostos, com finalidade de distribuir à sociedade e enquanto instrumento provedor dos direitos básicos constituídos. Ora um balcão de negócios, ora agente estelionatário, o Estado de direito social democrata existe somente numa teoria sofista, no naipe simbólico de uma quimera, pátria-mãe salvadora, que adotou os filhos vulneráveis e aterrorizados com as ameaças de um iminente caos desgovernado.

A verdade, que outrora fora publicada, está caducando e se transformará em mentira, finalmente. O peso das falácias lançadas pela mídia superou a manipulada ignorância popular. Qual será o próximo modelo a ser lançado pela cúpula inescrupulosa, no conluio dos poderosos detentores do capital? Não há acordo que sirva a um lado somente! Servidão voluntária não é opção! Operários do mundo, uni-vos!

Encerro este texto ratificando meu propósito. Pretendo atuar em mudanças necessárias para a manutenção das condições humanas, tanto de convívio, nas trocas, quanto na simbiose com o meio. A maior chance que o planeta tem de ser preservado depende de transformações na humanidade, de reinvenções da essencialidade do ser, do verdadeiro progresso.


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