Hoje de manhã,
03 de março, abri a página principal da revista Nature e me deparei com um
artigo cujo tema me despertou interesse. O autor Wei Jie Yap, singapurense,
propôs-se a demonstrar, de uma forma empírica, uma hipótese já testada por
outros: A ameaça é causa de efeitos psicológicos desfavoráveis. Seu artigo
intitulado “Physiological Responses Associated with Cultural Attachment”
apresenta um resultado que me induziu a elaborar as seguintes ideias.
O humano é uma
espécie vulnerável e desprotegida na fase infantil e a relação com seu cuidador
é primordial ao desenvolvimento social e ao preparo à reação em situações de
ameaça. A falta de relações com cuidadores que tragam segurança na infância
conduz o sujeito a buscar outras fontes não humanas de segurança na fase
adulta, como figuras divinas, ídolos e personagens fictícios (Ashley Cooper,
A., Askhmata) (Yap, W.J., 2017).
A linguagem de
uma cultura representa os aspectos de parentesco e emocionais do povo e a nação
torna-se um território de proteção, assumindo um papel maternal ou paternal
onde seu povo ancora uma identidade de filho, cuja representação iconoclasta
pode ocorrer por meio de bandeiras, partidos, deidades, ora se relacionando com
um grupo social, ora com uma representação abstrata.
Em caso de
ameaça, o sujeito prende-se a identidades de segurança vinculadas a símbolos
culturais, portanto a cultura de um povo constitui um domínio predominante da
consciência e a nostalgia disto pode combater o medo. O conceito foi
demonstrado pelo autor a partir de uma avaliação de resposta ao estresse,
relacionando o aumento da liberação de noradrenalina na amídala, como possível
mecanismo de resposta à ameaça, com a cultura do sujeito (Yap, W.J., 2017).
A descarga
noradrenérgica aumentada excessivamente é relacionada com uma posição
psicológica patológica, como, por exemplo, distúrbios afetivos,
comportamentais, estados de ansiedade, depressão, doenças neurodegenerativas,
entre outros que incidem com frequência crescente na sociedade moderna. Sinais
e sintomas como sudorese, taquicardia, hipertensão arterial, distúrbios
gastrointestinais e sexuais são efeitos observados.
Tete a tete,
em se tratando de uma recompensa prazerosa à descarga simpática que nos
submetemos, porventura intencionalmente, há de se considerar a qual nível de
exposição aos estímulos não sofreremos injúrias indesejáveis, senão te acusarei
de acrasia. Agenciar-nos-emos em empreitadas que valham o risco assumido.
O processo
evolutivo conduziu os primatas a aprimorar a comunicação, a coletividade, o
comprometimento social, o vínculo afetivo de parentesco. Tais fatores
propiciaram um ambiente favorável à perpetuação da espécie diante de um
contexto repleto de ameaças, onde o medo afetava o ser constantemente. Eis o
modo que a natureza caracterizou a consciência de um ser destinado a conhecer a
inteligência, a paixão e a guerra.
Pois bem,
enquanto ser dotado de razão, capaz de identificar e relacionar objetos e
ocorrências ao alcance da experiência, a capacidade inata de enfrentar esta
concepção de realidade parece estar em pleno desenvolvimento evolutivo. A
evolução da espécie, que ocorre de forma fragmentada, na vastidão continental
do planeta, resultou em estados evolutivos convergentes à melhor forma
adaptada, mas que partem de diferentes genomas.
Descendemos de
espécies diferentes que cruzaram entre si ocasionalmente, por alguns milhões de
anos, e que culminou no ser humano. Obra divina? A nossa existência é fruto de
um fluxo gênico intenso, que gerou raças bem distintas nos seus fenótipos e
genótipos. Evidências arqueológicas fundamentam esta dedução científica e,
apesar de crer em Deus, peço perdão aos criacionistas, porque antropologia não
se trata de mística.
A
idiossincrasia da nossa capacidade intelectual é um residual evolutivo, mas que
tende a um padrão comum. Ora, cada indivíduo possui um arsenal genético e uma
carga de experiência adquirida que o coloca em posição singular. Diante de uma
troca, mais vemos discordâncias que concordâncias e não reagimos tão bem a
diferenças quanto a semelhanças. Trata-se de outro residual, que relaciona
diferenças a uma potencial ameaça visando à preservação (Santos, M.F.,
Filosofia e Cosmovisão).
Possuímos uma
agressividade inata que, se não controlada por uma posição mental minimamente sadia
durante a infância, torna-se destrutiva na vida adulta. Tendemos,
inconscientemente, a nos injuriar, o que faz do trauma um efeito instintivo.
Freud marcou a mudança contemporânea desta abordagem, tanto nas ciências
naturais da psiquiatria quanto nas ciências sociais da pedagogia. Outrora Adam
não tinha infância, agora ela é a causa dos seus problemas (Wertham, F. 1949).
Isso explica os porquês da criança de hoje ser supervalorizada, repleta de direitos
e participação social?
Haja vista o
abordado acima, que se limitou a minha capacidade e ao contexto cronotópico,
proponho uma finalidade heterotélica ao tema com a seguinte conclusão. Nesta
caminhada que nós humanos sabemos pouco acerca do tempo pretérito, ainda que
menos saibamos sobre o futuro, resta-nos a breve duração do presente para
conjecturar a respeito do ser. Partindo de diferentes pontos, havemos de
atingir um entendimento claro e pleno da ordem universal das ideias, através de
um processo de melhoria continuada e sustentável da espécie (Spinoza, B.
Tratado da Inteligência).

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