As audiências do congresso estadunidense sobre “conteúdo extremista” preparam um ataque à liberdade de expressão
31 de outubro de 2017
Há três meses, o World Socialist Web Site lançou a sua primeira publicação
documentando a lista negra do Google, na qual estão o WSWS e outros sítios
eletrônicos de esquerda. A publicação alertou que as atuações do Google eram
parte de uma campanha abrangente, coordenada pelo governo estadunidense, mídia
e agências de inteligência, a fim de censurar a Internet.
Desde o início do seu desnudamento, a
campanha tem se desenvolvido com extraordinária velocidade, enquanto o Partido
Democrata, trabalhando com os veículos da grande mídia, usa alegações sem
evidências compatíveis de manipulação russa nas eleições de 2016 para preparar
uma campanha de criminalização da oposição política nos Estados Unidos. O que
está envolvido é nada menos que o maior ataque à Primeira Emenda à Constituição
dos EUA desde a segunda guerra mundial.
Essa campanha atingirá um novo marco
com os depoimentos de funcionários do Facebook, Twitter e Google diante do
Comitê Jurídico do Senado hoje e dos comitês de inteligência da Câmara e do
Senado amanhã sobre seus plano de enfrentamento a “conteúdos extremistas e
manipulação russa online.”
Nos últimos três anos, os líderes do
Partido Democrata dos comitês de inteligência da Câmara e do Senado, Mark
Warner e Adam Schiff, em conjunto com as agências de inteligência
estadunidenses e a mídia, têm inventado uma narrativa absurda de que 100.000
dólares de propagandas russas em rede social, sobretudo a partir de novembro,
colaboraram com o favorecimento de Donald Trump nas eleições.
Tendo forçado as empresas de
tecnologia a compilar listas de “contas relacionadas à Rússia”, os legisladores
agora irão focar no seu verdadeiro objetivo: O que eles chamam de “conteúdo
orgânico” ou, de uma forma mais direta, discurso político na Internet.
De acordo com o jornal Hill, Warner e Schiff irão pressionar as
empresas de rede social a admitir “que a Rússia criou ‘conteúdos orgânicos’...
para dividir e influenciar os estadunidenses”.
“Provavelmente, o mais importante é: qual foi
o conteúdo que eles estavam propagando que era não publicitário”, Schiff disse
ao Hill nesta semana. “Eu acho que
provavelmente irá ofuscar o que nós vimos nas propagandas pagas”.
Em uma antecipação do depoimento
obtida pelos veículos de notícias na noite desta segunda-feira, o Facebook
expandiu a sua lista de atividades online
“ligadas à Rússia” para incluir tais “conteúdos orgânicos”, declarando que
dezenas de milhares de postagens “incendiárias” de contas “falsas” ligadas à
Rússia atingiram 126 milhões de usuários estadunidenses do Facebook.
Esse “conteúdo divisonista” incluía
sem dúvida republicações de artigos da esquerda e de veículos de notícias oposicionistas,
colocando-os enfaticamente no foco dos investigadores congressistas. Como foi
exposto no início deste mês pelo jornal New
York Times, conteúdo ”registrado, publicado ou escrito por
estadunidenses... acabou se tornando vantajoso para as páginas do Facebook
ligadas à obscura companhia russa que realizou campanhas de propaganda para o
Kremlin”.
Em outro desenvolvimento
extraordinário, na sexta-feira, Dianne Feinstein, a líder do Partido Democrata no
Comitê Judiciário do Senado, enviou uma carta ao chefe executivo do Twitter exigindo
que a empresa entregue informações que podem identificar pessoalmente contas
relacionadas a “conteúdo orgânico” publicado por usuários do Twitter. A carta exige
especificamente todo “conteúdo orgânico publicado por usuários ligados à Rússia
e direcionados a algum lugar dos Estados Unidos, apesar do indivíduo ou
entidade ter ou não violado quaisquer políticas do Twitter”. A definição para
“usuários ligados à Rússia” é extremamente ampla, incluindo qualquer “pessoa ou
entidade que possa estar ligada de alguma forma à Rússia”.
A carta pede que para todo “conteúdo
orgânico descrito acima, Twitter forneça todas as informações do assinante”, e
“informação do endereço de IP”. Isso significa que a empresa está sendo
solicitada a providenciar nomes completos, números de telefone, endereços de e-mail e de IP, que possam ser usados
para determinar a localização física.
Considerando o recém-instalado foco
dos investigadores congressistas em “conteúdo registrado, publicado ou escrito
por estadunidenses” e republicado por contas “ligadas à Rússia”, é razoável
inferir que o “conteúdo orgânico” a que Feinstein está se referindo inclui
conteúdo publicado por sítios eletrônicos de esquerda e suas contas associadas
em redes sociais. Neste caso, o que Feinstein está solicitando é uma lista de
nomes, números de telefone e localização física de proeminentes opositores às
políticas do governo estadunidense.
Igualmente inquietante é o fato de que
a carta pede “todo conteúdo de cada mensagem direta [privada]” entre uma lista
não revelada de contas no Twitter anexada e contas pertencentes ao Wikileaks,
Julian Assange e à advogada de direitos civis Margaret Ratner Kunstler.
Kunstler, de acordo com sua biografia
oficial, defendeu apoiadores do Wikileaks e de Bradley [Chealsea] Manning em
casos ligados a intimações para Grandes Júris, contados com o FBI… e supressão
governamental.”
O pedido extraordinário do Comitê Judiciário
do Senado para que uma empresa exponha as correspondências privadas de um
advogado constitui uma brutal violação ao direito de sigilo entre cliente e
advogado, para não mencionar o seu nefasto efeito aos direitos garantidos pela
Primeira Emenda à Constituição dos EUA.
O foco de Feinstein sobre Assange e o
Wikileaks combinado ao seu foco no “conteúdo orgânico” torna claro que o
objetivo verdadeiro da caça às bruxas não são agentes estrangeiros, mas a
oposição política doméstica.
Como reforço a esta tese, na
segunda-feira o Wall Street Journal
publicou um relatório, novamente sem evidência factual alguma, que dizia que
contas “ligadas à Rússia” ajudaram a organizar reuniões e manifestações,
incluindo protestos contra violência policial. O Journal escreveu: “pelo menos 60 manifestações, protestos e marchas
foram divulgados ou financiados por contas russas”. Essas alegações expandem o alvo
da caça às bruxas anti-russa de liberdade de expressão à liberdade de reunião,
que também é garantida pela Primeira Emenda à Constituição dos EUA.
Isso está alinhado com uma reportagem
publicado no início desta semana por McClatchy (com a manchete “Manifestantes
estão cada vez mais sendo rotulados como ameaças terroristas domésticas,
alertam especialistas”) sobre a criação, pelo FBI, de uma categoria de grupos
de “terrorismo doméstico” chamada “extremistas da identidade negra”, que poderia
incluir participantes de atos contra a violência policial.
O relacionamento do Google, a maior e
mais poderosa empresa de tecnologia, com a caça às bruxas do Congresso tem sido
mais brando e silencioso que o do Facebook e Twitter. Como o Financial Times escreveu, a empresa tem
“mantido um perfil mais discreto, reunindo-se com o comitê de inteligência em
particular e silenciosamente”, e discretamente “introduzindo” mudanças nos seus
algoritmos.
Nos bastidores, porém, a empresa tem
promovido as ações mais abrangentes entre todos os seus pares. Em abril, o
Google anunciou medidas a fim de promover “conteúdo com respaldo” acima de
“opiniões alternativas”. Isso causou uma queda de mais de 55% no tráfego de
busca a sítios eletrônicos de esquerda. O sítio World Socialist Web Site (WSWS) é particularmente perseguido, com
tráfego de busca do Google despencando 74%.
Enquanto a administração Trump procura
promover um movimento político autoritário, de extrema direita, a oposição
nominal dentro do Estado, liderada pelo Partido Democrata, está concentrada
numa campanha histérica e belicista baseada em acusações inconsistentes de
interferência russa nas eleições estadunidenses de 2016. O propósito, remetendo
à caça às bruxas macartista, é associar toda a oposição política dentro dos
Estados Unidos aos esforços nefastos dos “agitadores externos”, neste caso,
“agentes estrangeiros”.
Esse ataque devastador à liberdade de
expressão, o alicerce da democracia, reflete o medo que a elite dominante tem do
surgimento de um movimento independente da classe trabalhadora contra o
capitalismo. Apesar de suas diferenças com Trump, a maior preocupação dos
Democratas é prevenir a erupção da fúria social contra a desigualdade e a guerra
que tome a forma de um movimento socialista contra o capitalismo.
Muito além da Rússia, eles, e toda a
classe dominante, temem a classe trabalhadora internacional. Este é o porquê do
alvo central do Google ter sido o WSWS.
O alarme deve ser soado! O WSWS
começou um contra-ataque agressivo. Nossa petição (petition)
contra a censura do Google foi assinada por milhares de trabalhadores de mais
de 100 países ao redor do mundo. A luta apenas começou,
entretanto.
Trabalhadores e jovens ao redor do
mundo devem ser alertados do que está acontecendo. A luta contra a censura e a
lista negra e em defesa da liberdade política e de expressão deve ser levada a
cada seção da classe trabalhadora e associada à luta contra a desigualdade
social e a guinada à guerra mundial.
No centro da construção desse
movimento está o desenvolvimento do World Socialist Web Site. Nós precisamos do
apoio de nossos leitores agora mais do que nunca. Doe hoje (Donate today) para
ajudar o WSWS a combater esse ataque do governo estadunidense e das empresas de
tecnologia. Envolva-se! Abrace a luta pelo socialismo!
Texto original de Andre Damon
Traduzido por Daniel Miyahira Guerrazzi
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